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Heleno

Resenha: Não é nenhuma novidade que por trás de toda a fama de um jogador de futebol, existe um homem como qualquer outro e que é vulnerável a bebida, drogas e mulheres. Esse é basicamente o resumo da vida de Heleno de Freitas, ídolo da seleção brasileira e do Botafogo de Futebol e Regatas nos anos 40.
Mineiro de São João Nepomuceno, Heleno de Freitas nasceu em 12 de fevereiro de 1920 e é considerado por muitos o primeiro grande craque do futebol brasileiro. Iniciou sua carreira profissional em 1940, no Botafogo do Rio de Janeiro, e lá permaneceu até 1948 – quando foi vendido ao Boca Jrs da Argentina. Era um jogador que não se dava por vencido e lutava para conquistar um título pelo time que amava, e por isso era o grande ídolo da torcida botafoguense. Apesar de em oito anos, atuar em mais de 200 partidas pela equipe, nunca conquistou um único título e chamou atenção por sua boêmia, seu gênio forte e aparência, que encantou as mulheres da então sociedade carioca.
Em Heleno, filme de José Henrique Fonseca e protagonizado por Rodrigo Santoro, conhecemos um pouco mais do lado humano de Heleno, um jogador diferenciado, que honrava o escudo que levava no peito e mostrava vontade de vencer. Frequentava a noite carioca e usufruía das mordomias de um grande craque, e foi assim que conquistou diversas mulheres, porém, apenas uma mexeu verdadeiramente com seu coração: Sílvia (Alinne Moraes).
Apesar de amá-la, ambos sempre tiveram uma relação conturbada, a começar pela primeira vez em que ele tenta levar Sílvia para a cama. E quando tudo parece estar se encaminhando, eis que surge o ciúme e novamente o relacionamento enfrenta momentos difíceis. Ambos continuam juntos, até que acontece um novo atrito, capaz de abalar de vez o relacionamento.
Além dos relacionamentos extracampo, Heleno enfrentou problemas com as drogas e com seus próprios companheiros. Não hesitava ao criticar os que julgava não honrar a camisa do Botafogo. Ao perder um título, se revolta e desconta a raiva que estava sentido já há algum tempo, principalmente com os companheiros que aceitaram dinheiro, apesar da derrota. São situações que mostram a personalidade forte e marcante de um craque da bola.
Esses foram apenas os primeiros problemas que Heleno de Freitas enfrentou dentro de campo. Fora dele, contraiu a sífilis, doença que colocou em risco seu sonho de jogar no Maracanã, o templo do futebol, e que aos poucos apagou a estrela de um homem que raramente é lembrado.
Ao contrário do que se pode imaginar, Heleno não é um filme que fala sobre futebol. Na verdade é um drama que narra a trajetória de uma pessoa que enfrentou todos os problemas, mas que se recusou a tratar uma doença que poderia acabar com sua imagem perante a sociedade, preferindo padecer.
Baseado no livro Nunca Houve um Homem como Heleno, de Marcos Eduardo Novaes, o filme mostra alegrias e tristezas do protagonista, chegando inclusive a retratar, pouco a pouco, a forma como ele, em uma clínica psiquiátrica, foi perdendo a batalha contra a sífilis.
O filme tem pontos que deixam a desejar, mas com a excelente fotografia, e abusando dos flashbacks, são apenas detalhes, que não fazem a diferença no resultado final. Heleno é um filme em preto e branco, que foge da realidade da atual indústria cinematográfica – assim como o premiado O Artista. Ainda mostra Rodrigo Santoro em uma de suas melhores atuações no cinema – superando aquilo que de melhor já fez. O ator está brilhante nos momentos de alegria, tristeza, raiva, paixão e principalmente quando precisa mostrar sua qualidade: quando a saúde de seu personagem já está debilitada. Santoro, que precisou emagrecer 12kg, interpreta como se realmente estivesse a beira da morte e fosse ele o viciado que não tem mais salvação. A palavra show é insuficiente para descrever essa atuação, que certamente ficou marcada na memória.
Heleno pode ser descriminado pelos telespectadores, principalmente por quem não gosta de futebol ou do cinema nacional. Mas, por trás do futebol – que não é o ponto principal – existe uma história fantástica e que deve ser levada adiante, afinal, até hoje muitos passam pelo mesmo que o protagonista. Heleno de Freitas está longe de ser um exemplo a seguir, mas marcou seu nome no futebol e na sociedade carioca por ter uma personalidade difícil e não ser forte quando isso foi necessário. Apesar de toda a fama e dinheiro, sua estrela se apagou, sem ninguém ao seu lado, no dia 8 de novembro de 1959 e atualmente, de sua rica história, pouco é lembrado.