O Trio, Alane S. A. Brito, 1ª Edição, Barueri-SP: Novo Século (Novos Talentos da Literatura Brasileira), 2012, 511 páginas

Escritora desde os quatorze anos, Alane S. A. Brito já escreveu diversos romances, porém sua primeira publicação é o livro O Trio, o último a ser concluído. Nesse livro, a autora baiana conta uma história de amor e amizade que emociona e prende o leitor do início ao fim.
A história se inicia em Goiás, no ano de 1956. Depois de anos, o jovem Davi Guerrato pega a estrada e volta para o lugar que no passado foi cenário de suas aventuras nas melhores fases da vida de uma pessoa: a infância e a adolescência. Enquanto se recorda de suas melhores lembranças, um garoto aparece e os dois iniciam uma conversa. Não demora até que Davi começa a contar, ao garoto e aos leitores, a longa história de sua vida.
Anos antes, Davi vivia na pequena vila de Valentino Duarte, “no meio do nada no norte de Goiás”. Ali vivia famílias de oito sobrenomes diferentes e como sempre acontece em casos semelhantes, todos se conheciam. Apesar disso, ninguém tinha uma relação de amizade como a de Davi, Nelson Beltrame e Jordan Merkel. A relação desses três garotos é o tema principal do livro, que tem ainda injustiça, romance, rivalidade e o foco principal: a força de uma amizade verdadeira.

“Ah, se eu soubesse que era a última vez que eu o veria, teria ao menos aproveitado sua presença e o contemplado até o derradeiro milésimo de segundo. Não tenho fotografias dele, nem sequer uma... Seu rosto vai e vem em minha memória, e eu nem sei mais se é realmente ele.” (pág. 105)

Ver a história apenas por esse lado pode enganar muita gente. O Trio vai além de pequenas aventuras que todos nós vivemos em nossas infâncias, e que até certo ponto poderia ser descartado de uma possível leitura. Apesar de a nostalgia surgir em diversos momentos da leitura, o sentimento de felicidade por se recordar do passado pode dar lugar a sorrisos e lágrimas. Isso porque nessa história a infância possui muitas dificuldades, principalmente no sentindo psicológico da palavra.
Em uma época em que o bullying é tão constante na sociedade, O Trio dá uma lição de que a vida de um adolescente pode ser perturbada mesmo longe das escolas, por exemplo. Em uma pequena vila com poucos habitantes, uma brincadeira – ou rixa - causa injustiça em proporções incontroláveis e assim, muda a vida de todos; afeta a amizade; e a felicidade, por sua vez, se perde pelo ar. Situações que deixam o leitor com um nó na garganta e que aos poucos mostram a verdadeira essência da amizade existente entre esses três personagens principais.
Não importa a época e nem o lugar. Um adolescente terá sempre um amor platônico e um desejo incontrolável por uma garota. Em O Trio não é diferente. A forma como Davi, Nelson e Jordan se entregam – cada um de uma forma – ao amor, proporcionam cenas comuns e que nos identificamos. O que também acontece quando a relação entre eles é avaliada de alguma forma, afinal, de maneira simples ou não, já passamos por esse tipo de avaliação. Já nos aventuramos ao lado de nossos amigos; brigamos com eles como se nunca mais fossemos conversar novamente; perdoamos independente de quem tenha sido o culpado; nos afastamos quando necessário, mas nunca nos esquecemos dos momentos bons. Isso tudo está explícito a cada página de O Trio, um livro rico em sentimentos.
Com o amor, a amizade e o perdão tão presentes neste livro, não poderia faltar a aventura para dar um pouco mais de adrenalina e prender o leitor, como talvez não acontecesse apenas com o lado sentimental. Justamente quando a aventura está presente é que a ansiedade do leitor aumenta e o livro, mesmo distante, permanece nos pensamentos. E as tais aventuras novamente trazem um sentimento nostálgico. Elas podem ser uma simples bobeira de criança, ou uma situação de vida ou morte que passamos quando já estamos mais maduros, mas lembram de algum momento de nosso passado.

“Achei que merecia ao menos um beijo no rosto, mas ela passou adiante. Não liguei para isso também porque tinha certeza de que, dali em diante me deleitaria em seus lábios sempre que tivéssemos chances de nos ver e tudo seria real e não apenas devaneios em noites solitárias”. (pág. 224).

Facilmente o leitor se emociona com algum tipo de injustiça, ou quando o amor está presente. O leitor também é pego de surpresa quando os segredos são revelados e se sente presente na história quando existe a possibilidade de uma atitude para encorajar ou aconselhar as personagens, e também quando os desenhos da autora ilustram determinadas cenas.
Nem todos os personagens agradam, o que é normal. Até mesmo Davi, o protagonista, em alguns momentos é incompreendido, mas a leitura continua normalmente - devido a ótima escrita da autora - até que o final, feliz ou não, chegue de vez para a história de todas as personagens. Personagens amadas, como Ana e Leonor, ou odiadas, como Nícolas e as fofoqueiras tão comuns.
A única coisa que se pudesse mudaria em O Trio é a participação do garoto que ouve toda a história de Davi. Ao iniciar a leitura, tinha certeza de que o estilo da narrativa seria semelhante ao livro O Nome do Vento (Resenha) – com o uso de interlúdios. No caso do livro de Patrick Rothfuss, os ouvintes da história participavam em diversos momentos fazendo perguntas ou simplesmente algum tipo de comentário, o que não acontece. Sendo assim, a história segue diretamente ao ponto, como se realmente tivesse sendo contada e não ouvida, mas a participação do garoto – que no final é de extrema importância – se torna vaga até que a história contada por Davi chegue ao fim e passe a ser contada em 3ª pessoa.
Esse pequeno detalhe não tira o brilhantismo de O Trio, que apesar de ser escrito por uma autora jovem e da atualidade, é semelhante aos grandes clássicos que no passado se tornaram importantes para a literatura. A história se foca em uma pequena vila e o leitor se sente como se estivesse nela; a mensagem deixada pode ter efeitos distintos, porém todos eles positivos; os personagens, por vários motivos, cativam, ou não, o leitor; e o desfecho, neste caso, mostra que a amizade é o bem mais precioso que existe para uma pessoa. E deve ser sempre valorizado. Jamais esquecido.

“”Gostar de alguém é bom, embora fique complicado demais de se administrar quando se torna algo mais que só uma paixão infantil””. (pág. 245)