O Clã dos Magos, Trudi Canavan, tradução de Robson Falchetti Peixoto, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 446 páginas

Desde que publicou sua primeira história em 1999, a autora australiana Trudi Canavan conquistou prêmios e grande sucesso com suas séries, principalmente com Kyralia Series. Essa série, com sete livros no total, teve A Trilogia do Mago Negro lançada em 2001, com o livro O Clã dos Magos.
Os magos da cidade de Imardinparte dos domínios de Kyralia - têm grande influência na sociedade, mas também não são vistos com bons olhos. Todos os anos eles são obrigados a purificar as ruas das cidades, o que causa o descontentamento de toda a população. Sonea, uma jovem garota de rua, cansada desse tratamento por parte dos magos, em um momento de fúria arremessa uma pedra em direção aos magos. O que ela não esperava era que a pedra ultrapassasse o escudo protetor de um deles.
O ato de Sonea dá uma certeza ao Clã dos Magos: ela possui habilidades mágicas e não pode continuar sozinha, sem que receba os devidos treinamentos. Tem início uma perseguição, mas Sonea não sabe até que ponto os magos estão ao seu lado e por isso conta com a ajuda de seu amigo Cery e de outros grupos de favelados. Resta saber até quando ela conseguirá fugir e o que seus poderes poderão causar a ela e a todos ao seu redor caso não receba os treinamentos.

“Ela agora admirava os magos pelo controle que tinham, mas saber que eram seres sem sentimentos não lhe dava qualquer motivo a mais para gostar deles.” (pág. 228).

A expectativa em relação a O Clã dos Magos era muito grande, porém o início da leitura é como um verdadeiro balde de água fria. Nos primeiros capítulos, a escrita de Trudi Canavan não é totalmente contagiante e ao contrário do que aparentava a história não chama a atenção. Isso se deve ao fato da primeira parte do livro se focar apenas na perseguição a Sonea e não ao Clã dos Magos. E não é possível usar a desculpa que é apenas uma introdução, já que nessa primeira parte não somos realmente apresentados ao Mago Negro que dá título a trilogia – o que acontece apenas nos capítulos finais.
O livro ganha um novo ritmo em sua segunda metade, quando a perseguição é deixada de lado e conhecemos aos poucos tudo o que envolve a magia e o Clã dos Magos. As personagens são apresentadas de maneira mais clara e sabemos a partir desse momento quais são os dois lados da história, ou seja, as verdades passam a ser reveladas.
Apesar de ser uma fantasia, existem diversas relações com o mundo atual, por exemplo, a importância do Clã dos Magos na sociedade em geral e a subdivisão dos grupos sociais. As favelas, por sua vez, são fundamentais no início da história e possuem suas próprias gírias, sendo algumas conhecidas pelo leitor.
Quando falamos das personagens também não é de uma forma totalmente favorável. Sonea, a protagonista e que deveria ser a mais agradável, demora a conquistar o leitor. Na primeira parte parece ser apenas uma personagem secundária, o que felizmente muda na companhia de Rothen, um dos melhores personagens do livro. Assim como o mago Dannyl diz, Rothen “é um sujeito fácil de gostar”, o que também acontece com Cery, um garoto simpático desde o início. Ou seja, com exceção de Sonea, todas as personagens de O Clã dos Magos são bem construídas e cativantes com suas próprias maneiras – apesar de que o excesso de personagens pode acabar confundindo no início da leitura.

“Ela tinha pensado que ficaria livre da magia mal tivesse aprendido o Controle, mas agora sabia que nunca estaria livre dela. Não importava o que fizesse, ela estaria sempre lá. Um dia, em uma casa qualquer nas favelas, simplesmente desapareceria num clarão...” (pág. 357).

Muitas vezes com a leitura de um livro de fantasia, é possível encontrar semelhanças com sucessos publicados anteriormente. Com O Clã dos Magos não é diferente e o próprio sistema do clã não é totalmente inovador. Ainda assim existem pontos únicos e que fazem com que a história seja promissora, apesar do início nada motivador.
Outra semelhança com livros do gênero é o uso de mapas - são três deles -, que facilitam ao leitor a se colocar dentro da história; e de um Glossário, com o significado de palavras/plantas/animais criados pela própria autora.
A capa da edição nacional é semelhante com a original, porém com maiores detalhes. O principal problema é por parte da edição. Raramente encontramos erros em livros da editora Novo Conceito e isso infelizmente acontece em diversos momentos. Não apenas erros de digitação/revisão, o que até certo ponto pode ser considerado normal. Os erros também estão na tradução da história e em um dos mapas – onde o termo Quarteirão Ocidental é usado em duas oportunidades. São detalhes que certamente serão corrigidos em edições futuras.
Cheio de altos e baixos, a história d’A Trilogia do Mago Negro promete apenas melhorar com os livros A Aprendiz e O Lorde Supremo. Ainda que o primeiro livro tenha um início arrastado e a protagonista não agrade, o final de O Clã dos Magos é em ritmo acelerado e deixa um suspense no ar. Muito provavelmente os erros serão consertados e encontraremos mais aventuras dos magos da cidade de Imardin, um local de muitas intrigas internas e externas.

“Se ela o amasse, seu coração não teria pulado de alegria com a confissão dele? Não se sentiria gratificada por ele ter tentado resgatá-la, em vez de culpada pelo fato de sua consideração para com ela o ter levado a ser capturado? Seguramente, se ela o amasse de verdade, não teria de se fazer essas perguntas” (pág. 403).