- Mentiras –
- Você deve ser Wellington, o baixista. – Franccesco Fracalossi perguntou ao ver o jovem alto, musculoso e com expressão fechada. Parecia estar irritado por ainda não ter notícias de William. Ou seria culpa? – Estou certo?
- É assim que costumam me chamar. – sem que Franccesco pedisse, ele sentou-se no mesmo banco em que Priscila estava sentada minutos antes – O que você deseja saber? Ah, antes que me pergunte: não estou envolvido na morte do William e não sei quem poderia estar.
- Você disse morte? – deu ênfase - Alguma novidade que eu não esteja sabendo?
- Ora, quem fez isso só poderia querer matá-lo. Ou você pensa que atiraram nele por pura brincadeira? Imaginava que você fosse mais esperto, Franccesco Fracalossi. - gargalhou, para desprezo do detetive italiano.
- Pelo visto você é um cara muito engraçadinho. Já fez teste para participar do Zorra Total? Seu nível de humor é tão podre que você se daria bem. – seu tom era irônico e Wellington preferiu não retrucar. Percebeu naquele instante que brincar com Franccesco não seria uma boa ideia.
Wellington era um bom rapaz e não costumava se envolver em confusões. Também era esperto. Sabia que qualquer palavra usada incorretamente poderia ser motivo para Franccesco o acusar ou procurar algo para o incriminasse. William e ele tiveram muitas brigas, sobretudo por questões musicais, por isso seria um forte suspeito e não podia dar chance ao azar.
Franccesco percebeu o significado daquele momento de silêncio e foi direto ao assunto:
- Gosto de rapazes como você. – estava sendo sincero – Muitos perdem a cabeça e acabam atrapalhando a investigação. Pensei que você seria um desses.
O baixista apenas assentiu.
- E o que você tem a dizer sobre Gabriela? Tem tentado te seduzir? É bonita, pelo menos? Na verdade hoje vocês dizem que uma mulher deve ser gostosa, não é mesmo?
- Quem? Seduzir?
- Não se faça de idiota. – apoiou os cotovelos no joelho - Você sabe muito bem de quem estou falando.
- Não, senhor, eu não sei de quem você está falando. Da onde você tirou isso?
Uma dúvida surgiu na cabeça de Franccesco. Quem estava mentindo: Priscila ao dizer que Wellington era apaixonado por Gabriela; ou Wellington, ao parecer não conhecer a garota que poderia querer seu amigo morto.
- Vou tentar refrescar a sua memória... – levantou de onde estava e aproximou-se do rosto de Wellington, que não se sentiu intimidado. – Estou falando da garota que Priscila, a namorada de seu amigo, tem uma rixa e que você esconde o seu amor por ela. Está lembrado agora?
- Você só pode estar louco por dizer que sou apaixonado por ela. – levantou-se e teve a ousadia de afastar Franccesco, que não se importou e voltou a se sentar. – Essa garota, no passado, era zoada por todos os meus amigos, inclusive por William. Seu apelido era bagaço, de tão feia que era. Eu coloquei esse apelido e não me envergonho por isso. Podia estar errado, mas aquilo foi feito e não posso voltar atrás. Estaria sendo um canalha se dissesse estar apaixonado por ela. E ela seria idiota de aceitar essa paixão.
Franccesco raciocinou e surgiu uma teoria que para muitos era machista, e que nem por isso as pessoas podiam discordar: Um homem nunca esconde o amor por uma mulher. Já as mulheres, não se importam em mentir para conseguir aquilo que querem. – pensou – Dessa vez, preciso acreditar em Wellington.
- Admiro a sua coragem por essa confissão. Ao mesmo tempo sinto nojo de você.
- E nós sentíamos nojo dela – voltou a gargalhar, como se aquilo fosse uma boa piada.
- Só um homem desumano para colocar apelidos como esse em uma garota. Uma garota deve ser tratada como uma princesa. Ou melhor, como uma rainha. Mulher é o ser mais belo do mundo; a melhor criação de Deus.
- Por falar em Zorra Total... Isso é uma bichona! – novamente não conseguiu controlar sua risada.
- Então, - Franccesco ignorou a tentativa de fazê-lo rir – você não é apaixonado por Gabriela e jamais aceitaria matar William em troca de um beijo ou de uma tra...
- O tempo passou e ela ficou muito lin... Gostosa. – o interrompeu - Nunca imaginei essa transformação. Também jamais poderia me deitar com ela. Gabriela não me aceitaria depois de tudo o que fiz, e como disse, não seria canalha a esse ponto.
- E por que Priscila diria que você...
- Talvez quisesse se livrar de suas perguntas. – o interrompeu novamente – Não é estranho ela colocar a culpa em Gabriela. As duas não se batem.
- Interessante. – suspirou – Mas na verdade ela colocou a culpa em você.
- Sério, eu não faria mal algum a ele. Se fizesse, não seria idiota de cometer isso em um lugar fechado. Apesar de que agora o assassino já pode estar bem longe.
- Não tente criticar meu método de investigação. – Porque ninguém me entende?, Franccesco perguntou a si mesmo. - Como você provaria isso em um tribunal?
- Eu estava abraçando William quando tudo se apagou e pensaram que eu estava envolvido... – pausou.
- Interessante, mas prossiga – ordenou.
- Os responsáveis disseram à delegada que o tiro não foi disparado à queima roupa. Isso serve como prova?
- Interessante – repetiu.
- O tiro veio da plateia e a pessoa deveria estar há pelo menos 20 metros. Se você preferir, podemos recriar tudo o que aconteceu. Ficará mais fácil para entender e eu poderei ir para casa. – bocejou - Estou com sono e tenho muito a fazer pela manhã.
- Também tenho muitos serviços, porém ninguém sai daqui enquanto não descobrir a verdade.
- Um detetive com muitos serviços? – Wellington perguntou, com um sorriso irônico. – Conta outra vai.
- Isso não te interessa. Vamos refazer tudo o que aconteceu e espero que você não omita nenhum detalhe. Lembre-se que você pode ser considerado cúmplice.
- Relaxe! – levantou-se – Pretendo ser advogado e sei todos os meus direitos e deveres. E não se preocupe, não vou esconder nada de você. Só quero que esse desgraçado pague pelo que fez.
Franccesco sabia que havia muitas mentiras naquela história. Ainda assim preferiu confiar em Wellington. Só não entendia o que levou Priscila a mentir. Franccesco acreditava que Gabriela nem sabia o que estava acontecendo e resolveu desvendar o mistério sem citar seu nome. Seria difícil e ao mesmo tempo necessário.
O italiano não queria aceitar a culpa de Priscila, que dizia amar William. Para sua tristeza, nada levava a crer na inocência da jovem. Esperava que estivesse errado e que ainda não conhecesse o culpado, já que se identificou com Wellington e seria uma decepção para William descobrir que a própria namorada queria sua morte.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)