- Primeira Suspeita –
Após impedir a saída repentina de uma garota da plateia, Franccesco deixou o palco e ouviu as perguntas de sua amiga, que não entendia a intenção do italiano:
- Ficou louco Franccesco? Que merda foi essa?
- A garota estava chorando como se tivesse perdido alguém. – respondeu – Ela sabia minha intenção, tentou ser esperta e me subestimou. Ela está escondendo algo e preciso descobrir o que.
- Não estou falando disso. Não precisa mudar de assunto.
- Então? – ele realmente não estava entendendo a dúvida de sua amiga.
- Não seja idiota. Estou falando de você liberar esse pessoal. E se o culpado for tão esperto quanto a garota?
- Sabe qual a chance de existir duas pessoas com essa mesma ideia? Praticamente inexistente. – respondeu a própria pergunta – E isso não interessa, já que encontrei o culpado. Ou melhor, a culpada.
- Você e sua velha mania de acusar sem provas. – suspirou - Quando você vai parar de ser tão idiota? Aquela é a namorada do rapaz, ela não teria motivos para isso.
- Sou idiota, mas você não pensou duas vezes antes de me encher o saco. Aliás, namoradas não podem... Bom, isso não interessa. – parou de falar e desviou o olhar para todos os cantos, procurando um bom lugar para conversar com Priscila. Não encontrando, ele pediu a Thaís – Arrume um bom lugar para conversar com essa garota. AGORA!
- Não grite, porque não sou sua esposa. – passou a caminhar e foi seguida por ele - Vou te levar ao camarim, único lugar tranquilo nessa casa de shows. Não sei se você sabe, mas as pessoas estão aqui para se divertir e geralmente isso gera muito barulho, e não lugares calmos.
Franccesco fingiu não escutar a frase de sua amiga. Estava refletindo sobre tudo o que já sabia em relação aos acontecimentos da noite.
Mesmo distraído e sem a intenção de conversar, ele seguiu a delegada até um corredor atrás do palco, onde adentraram em uma porta. Encontraram ali todos os membros da banda, que conversavam e também buscavam respostas para o que havia acontecido. Com autoridade Thaís expulsou todos os integrantes, que ainda ouviram uma ordem do detetive italiano:
- Vocês, fiquem por perto. É possível que eu precise conversar vocês. – sua intenção era que isso não fosse preciso.
- Está bem, senhor – Wellington, o baixista, foi quem respondeu por todos.
Os músicos deixaram o camarim e instantes depois os policiais entraram, acompanhados por Priscila. A jovem parecia revoltada e indignada com a atitude do detetive italiano. Queria apenas saber o estado de saúde de seu namorado e ter certeza de que não o perderia antes mesmo de ter a chance de subir ao altar. Sua vontade de vê-lo era grande; a vontade de atrapalharem esse encontro parecia ainda maior. Pensando sobre o assunto, chegou à conclusão de que ser a primeira interrogada poderia tornar as coisas mais rápidas. Era isso que esperava ao ouvir a voz do detetive, dessa vez sem os ruídos das caixas de som:
- Sente-se, per favore. – apontou para um pequeno banco próximo a parede, enquanto se sentou em uma das poltronas azulada do camarim. Nada cavalheiro deixar uma mulher em um lugar pouco confortável. – Comece me contando porque estava fugindo. Por acaso está envolvida?
- Franccesco, precisa falar desse jeito? – era Thaís intervindo.
- Cala a boca Thaís! – ele gritou, sem medo de ofendê-la – E saía daqui. Você tem mais coisas para fazer.
- Tudo bem. Tudo bem. Depois não diga que não avisei.
A delegada deixou Franccesco a sós com Priscila. Ele respirou aliviado, cruzou a perna direita na altura do joelho esquerdo e antes que pudesse fazer uma nova pergunta, foi surpreendido com a dúvida de Priscila:
- É assim que você trata uma delegada?
- Na verdade é assim que eu trato a minha melhor amiga. – balançava o pé para cima e para baixo. Um tique de infância incontrolável. - E você ainda não respondeu a minha pergunta senhorita...
- Priscila. – ele assentiu, pegando o bloco de anotações que levava no bolso da calça e fazendo sua primeira anotação - E não estou envolvida em nada do que aconteceu essa noite. Jamais tentaria machucar meu namorado. Fico surpresa com essa desconfiança.
- Você quis ser esperta e acabou se entregando. – colocou o pé novamente no chão e então pousou os cotovelos em suas pernas - O que levaria você a matar William? Traição? Dinheiro? Vingança?
- Eu nunca faria mal a ele. Dona Márcia é como uma mãe para mim. Nossas famílias sempre foram amigas e se você quer saber, implorei para William não tocar essa noite. Eu sabia que algo de ruim iria acontecer.
- Como poderia saber disso? Sabe de algum segredo? Eu revelaria se estivesse no seu lugar.
- Se eu soubesse, não teria ficado quieta, não acha? – ela levou as mãos até os olhos, limpando as lágrimas que insistiam em cair por seu belo rosto – Tudo não passou de intuição feminina.
- Sim, claro, intuição feminina. Vocês mulheres sempre com o mesmo discurso. – Franccesco se levantou e antes de prosseguir ajoelhou-se em frente a ela. – Se você não está envolvida, quem mais poderia estar?
- Gabriela. Aquela puta seria capaz de qualquer coisa. Biscate – disse entredentes.
- Ela veio ao show, suponho?
- Claro que não! William proibiu a entrada dela. – olhou nos olhos de Franccesco - Ela seria capaz de organizar tudo isso. É uma psicopata. Você precisa acreditar em mim.
- Ela não estava aqui e você acredita que cometeu algo contra seu namorado? – ele gargalhou.
- Ela deve ter mandado alguém fazer o serviço por ela. Ela é capaz de tudo.
- Quem aceitaria fazer isso em um lugar fechado? – voltou a se sentar na poltrona - Seria muito fácil descobrir a verdade.
- Poucos sabem disso... Uma pessoa faria tudo por ela. Um dos integrantes da banda é apaixonado por ela e sempre escondeu esse amor. Tinha medo da reação dos amigos. – esboçou um singelo sorriso - Conhecendo ela, sei que o seduziria para colocar seu plano em ação.
- Quem é ele? – achou interessante. Nada que afastasse suas conclusões e suspeitas.
- Wellington, o baixista.
- Está certo. Agora vá! – respirou fundo - Chame esse cara. Irei conversar com ele e tentar descobrir algo.
- Só isso? Sempre soube que os detetives da literatura exageravam com a quantidade de perguntas. - se levantou – Agora posso ver meu namorado?
- Pra que continuar falando com você se a verdade parece estar na minha cara? – Franccesco a fuzilou com seus olhos castanhos – E óbvio: você não pode ver seu namorado. Ainda vou precisar de você.
Priscila ficou irritada, contudo aceitou as ordens de Franccesco. Era suspeita de ter armado algo contra o próprio namorado e suas atitudes poderiam complicar sua situação, mesmo que não tivesse culpa. Não tinha medo e nem motivos para isso. Sua preocupação era em lidar com Franccesco Fracalossi, um dos maiores detetives do país. Uma atitude impensada poderia provocar a ira do detetive e ele certamente iria prejudicá-la. Não queria ter esse problema, por isso não poderia seguir igual a um trem desgovernado.
Já sozinho, o detetive pensou: Talvez esse caso se torne mais interessante do que imaginava. – olhou para a forte luz que iluminava o local e sentiu algo diferente em sua visão. Nem por isso fechou olhos. Fechou apenas ao concluir seu pensamento, já com a visão prejudicada – E eu sei que essa garota está escondendo alguma coisa.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)