- Cilada –
Contando com a sua habilidade no volante e o pouco movimento de carros nos primeiros minutos daquela segunda-feira, Franccesco Fracalossi demorou pouco mais de uma hora para se aproximar da casa de shows onde William Herz havia sido baleado. Por sorte ficava na beira da estrada e ele não precisou cruzar a grande cidade, o que o atrasaria e causaria grande estresse.
De longe pôde avistar diversas viaturas estacionadas na entrada do prédio. Querendo evitar perder tempo, estacionou seu carro em um canto afastado do estacionamento e andou alguns metros em direção à porta principal. Era um homem conhecido, mas ainda assim precisou se identificar para que um policial alto e musculoso liberasse sua entrada.
No interior se recordou da última vez em que esteve em um lugar como aquele. Ainda era muito jovem e só aceitou o convite de seu irmão por saber que João Fracalossi iria atormentá-lo durante longos meses. Mesmo em apresentações musicais, Franccesco se sentia desconfortável ao lado de tantas pessoas, por isso preferia o aconchego de sua casa ou de um bom restaurante. Não nasci para aguentar essa confusão, dizia.
Além de diversos policiais, o local estava repleto de jovens que tentavam, a todo custo, voltar para suas casas ou continuar a diversão em outro lugar. A única pessoa autorizada a deixar o local foi dona Márcia, mãe de William. Até mesmo Priscila, a namorada do jovem, continuava ali, sem respostas. Thaís Fontaine, delegada responsável pelo caso, foi clara ao ordenar seus subordinados: Ninguém sai daqui enquanto não encontrarmos o idiota que cometeu o crime. Aquele que autorizar a saída de alguém sentirá uma dor insuportável na parte mais preciosa de seus corpos. Era apenas um blefe, mas ninguém ousava desrespeitar a ordem da delegada.
O detetive italiano precisou dar apenas alguns passos para encontrar sua amiga, que o empurrou com violência, repetindo aquilo que fazia em todos os encontros. Assim como ele, Thaís queria encerrar o assunto o quanto antes, por isso não perdeu tempo e falou com seu amigo:
- Olá Franccesco, tudo bem? – sua verdadeira intensão era dizer que sabia que ele não recusaria ajudar - Espero que você entenda a gravidade do assunto.
- Não pense que vim até aqui por você. Só saí de casa pela memória do meu amigo Marcelo. – ele pausou, antes de perguntar - E como William está?
- Não cheguei a vê-lo, mas pela quantidade de sangue no palco... Só um milagre pode ajudá-lo a tomar depoimento do jovem.
Franccesco engoliu em seco, pensando apenas em Márcia. Marcelo havia falecido poucos meses antes e ela não suportaria uma nova perda. Seria uma grande dor para a mulher e ele não queria que isso acontecesse.
- San Gennaro, proteggere questo ragazzo – rogou, fazendo o sinal da cruz.
- Está bem, depois você reza. – Thaís odiava quando Franccesco orava no meio de uma investigação - Agora temos um caso para desvendar.
Ele assentiu e ela entendeu o que aquilo significava: ela precisava explicar tudo o que tinha acontecido.
- Bom, hoje era o show de lançamento do primeiro CD da banda. Muitos ingressos foram vendidos. O show começou e isso levou o público ao delírio. A banda tocou algumas músicas antes da vítima homenagear o pai. Em seguida ele tocou uma música especial para a namorada e só então recebeu a homenagem feita pelo grupo. Foi então que, surpreendentemente, tudo se apagou. Quando a luz foi restabelecida ele já estava no chão.
- Tudo planejado. – seu olhar estava distante – Duas pessoas estão envolvidas: uma desligou as luzes... Os geradores, - corrigiu-se enquanto havia tempo. Sabia que em um evento como aquele, o uso de geradores era indispensável - e a outra fez o disparo.
- Exatamente. – ela pausou, colocou seus longos cabelos negros atrás da orelha e prosseguiu – O tiro partiu de uma silenciadora. Na minha época só os bandidos barra-pesada usavam isso.
- Na sua época, o governo exilava os jovens músicos.
- Não sou tão velha assim. Estou chegando aos 25. – Só se for em cada perna, ele pensou e teve vontade de sorrir, porém seu rosto não teve nenhuma reação.
- Já descartou problemas com drogas? – ele perguntou, para irritação da delegada.
Ela preferiu ignorar, sabendo que aquilo poderia ser apenas uma pergunta para tirá-la do sério. Quando chamou o amigo, ela jurou a si mesma que isso não aconteceria. Não em uma noite cansativa como aquela.
- E o que você pretende fazer?
- Me leve até o palco e libere o microfone. – Franccesco disse em um tom de exigência.
Mesmo sem entender a intenção de seu amigo, Thaís Fontaine pegou em seu braço e o puxou, levando-o até a pequena escada que dava acesso ao palco principal. Antes de receber o microfone, ele elaborou em sua mente uma forma de tudo sair como planejado. Não era bom com as palavras e precisava tomar cuidado. Só depois de ter certeza do que fazer ele testou o microfone como um amador e sua rouca voz foi ouvida pela primeira vez:
- Pessoal, per favore, preciso da atenção de todos vocês.
- Queremos é sair daqui, e não saber o que você tem a dizer. – um jovem visivelmente alterado gritou, repreendendo o italiano. – Aliás, quem é você afinal?
- Sou o detetive Franccesco Fracalossi. – se apresentou, não com a intenção de responder a pergunta – Sei que vocês estão preocupados e querem ir embora. Infelizmente não sou o responsável por isso. – vaias – Por isso vou direto ao assunto: recebi uma denúncia e preciso saber se o senhor Herz esteve aqui. Alguém o viu?
Poucas pessoas levantaram as mãos, para felicidade de Franccesco. Seu plano saiu como desejado.
- Grazie. Vocês que não levantaram as mãos já estão dispensados.
Ninguém entendeu a atitude de Franccesco, e também não se preocuparam com isso. A vontade de ir embora e se afastar daquele inferno foi mais alta. Aqueles que não sabiam o sobrenome de William deixaram o local calmamente, enquanto as demais pessoas continuaram revoltadas com o detetive.
Ouviu diversas palavras que o ofendiam e ofendiam a memória de sua falecida mãe. Apenas ignorou. Estava acostumado com isso. Sua verdadeira preocupação foi com uma garota de cabelos castanhos e mechas californianas. Franccesco já estava de olho nela desde que subiu ao palco. Ela chorava descontroladamente e aproveitou a brecha dada pelo detetive para deixar o local. Só não contava com a esperteza do italiano, que a repreendeu:
- Você, com mechas loiras no cabelo. – ela olhou em dúvida - Você está proibida de sair. Temos que ter uma conversa.
Ela ficou assustada e tentou atravessar a saída com rapidez, no entanto foi impedida pelos policiais que acompanhavam a tudo. Tentou ser esperta e como sempre Franccesco provou que sua inteligência e esperteza eram incomuns.

Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)