Ser apaixonado e aficionado por certas coisas é algo tão natural que muitas vezes as histórias na ficção se tornam maçantes, por mais que exista algo capaz de surpreender. Nos últimos tempos, nenhuma história foi tão surpreendente como no anime Sankarea, onde essa fixação é pelos famosos zumbis. O problema é que com o decorrer dos episódios, Sankarea perdeu o excepcional ritmo que deu início a série.
Baseado no mangá escrito por Mitsuru Hattori, Sankarea ganhou sua animação pelas mãos do diretor Mamoru Hatakeyama e entre 05 de abril e 28 de junho de 2012 foi transmitido pela TV japonesa. Com uma história inovadora, os primeiros episódios mostraram que Sankarea tinha potencial para alcançar o status de melhor anime da temporada de primavera, mas infelizmente isso se perdeu a cada novo episódio.
Em Sankarea conhecemos a história de Chihiro Furuya (Ryōhei Kimura), um estudante do Ensino Médio que tem uma estranha fixação por zumbis. Seu maior desejo é um dia beijar uma garota zumbi, por isso ele não se importa com as “estranhas garotas”, por mais que sejam lindas e desejadas por todos os seus amigos. Chihiro é tão focado em zumbis que tem uma vasta coleção com diversos objetos sobre eles – o que pode agradar aos fãs desses seres. O que ele não esperava era que estava perto de realizar o grande sonho de sua vida.
O desejo de Chihiro fica próximo de se realizar quando seu gato, Babu, morre. Em uma atitude desesperada, ele segue um antigo manuscrito que diz o passo a passo para a criação de uma poção de ressureição. Enquanto a prepara e tenta reviver Babu, Chihiro conhece Rea Sanka (Maaya Uchida), uma garota que foge de casa após sofrer durante anos nas mãos do pai, Dan'ichirō Sanka (Unshō Ishizuka). Tentando se suicidar para acabar de vez com o sofrimento, Rea bebe a poção preparada por Chihiro e se torna uma linda e fria garota zumbi. A partir desse momento, Chihiro e sua família passam a conviver com um zumbi – isso mesmo.
Com a febre que os zumbis se tornaram nos últimos anos, o mais interessante em Sankarea é ver uma forma diferente dos mortos-vivos, onde em nenhum momento o ser corre atrás do personagem querendo devorar seu cérebro, por exemplo. Acontece justamente o contrário: Rea precisa ter certos cuidados para continuar viva; e a convivência com todos as pessoas vivas, até certo ponto, é totalmente harmoniosa. Situações comuns nas famílias japonesas, como os jantares, dão um lado cômico ao anime que possui doze episódios e mostra ao longo deles a mudança na personalidade de Rea.
O grande problema é que em certo ponto Sankarea perde o foco e o anime se torna cansativo, apesar da ótima produção do Studio Deen. Quando Rea passa a ser zumbi, ela e Chihiro precisam se acostumar com uma nova forma de vida, o que dá diversos momentos engraçados. Já quando isso não é o foco principal, o anime perde o brilho e as histórias “paralelas” – como a relação de Rea com seu pai – conseguem destruir a impressão inicial que tínhamos do anime. A comédia dos episódios iniciais dá espaço ao drama vivido durante anos por Rea e por mais que seja marcante aquilo que o pai fez com a filha, Sankarea mudou. Mudou porque a história, que renderia muita coisa interessante em sua forma engraçada, se torna sem graça e infantil na versão dramática. A personagem que dá nome ao anime se torna apenas uma obsessão e a disputa para ver quem ficará com Rea é totalmente desmotivadora.
Como se nota, Sankarea possui um roteiro muito interessante, porém pouco elaborado; com alguns personagens ricos, e outros sem sal; algumas cenas marcantes, porém com uma cena entre Chihiro e Dan'ichirō que foi totalmente desnecessária. Possui ainda um personagem principal infantil e às vezes com atitudes irritantes, mas que ainda consegue agradar, principalmente quando está ao lado de sua prima Ranko Saōji (Sayuri Yahagi). Ranko, uma das melhores personagens, além de provocar o próprio primo com seus atributos físicos, tem uma disputa interessante com Rea, tentando conquistar o coração do garoto – uma rivalidade bem construída.
Quando existe um drama, independente se seja na literatura, no cinema ou na TV, o que esperamos é algo emocionante ou que ao menos nos faça refletir sobre determinados assuntos. Sankarea tenta se aproximar disso com algo que por mais absurdo que seja está presente na atual sociedade, porém de uma forma incapaz de tocar o espectador. São poucos diálogos capazes de se destacar e apenas as cenas engraçadas – ou que tentam se aproximar da sensualidade com cenas próprias para a idade do público alvo – são realmente diferenciais.
Se Sankarea se definisse apenas pelos primeiros episódios, seria sem dúvida um dos mais criativos animes do ano. Mas isso não aconteceu e se encerrou sem uma grande exibição, ainda que o mangá, publicado pela Bessatsu Shōnen Magazine, seja um sucesso de vendas. Pela premissa e a nova visão dos mortos-vivos, é recomendado, porém aquele que decidir dar uma chance deve apreciar com moderação para não se arrepender disso.