Amizade. Uma palavra; vários significados; 1001 sentimentos. A amizade está presente na vida de todos nós e ela é sempre tema de livros capazes de nos emocionar, simplesmente por narrar histórias comuns. Por trás desses livros, há sempre um autor com seus próprios métodos e que com fé em Deus consegue construir aquilo que o leitor precisa ler. Com doses de romance e aventura; explorando também a amizade verdadeira, Alane S. A. Brito escreveu O Trio (Resenha), lançado pela editora Novo Século. Ela tem o talento para a escrita e sua história se aproxima de um grande clássico, o que mostra que podemos esperar muito dessa autora. Um talento que deve ser explorado, por isso agora estamos De Olho Nela:
Over Shock - Alane, muito obrigado por conceder essa entrevista ao blog que tenta, com esse espaço, divulgar e apoiar a grande literatura nacional. Antes de qualquer coisa, conte um pouco sobre quem é a autora Alane S. A. Brito.
Alane S. A. Brito - Olá, Ricardo! Em primeiro lugar, devo agradecer pela oportunidade, por seu apoio importantíssimo nesse início de minha recente trajetória como escritora. Então, vamos lá... Sou uma baiana muito tímida, neurótica, perfeccionista, muito exigente, especialmente comigo mesma, amo escrever, desenhar, séries, filmes, livros, obcecada por personagens; sonhadora, embora, creio que realista na mesma proporção. Permito-me ter devaneios, mas procuro me preparar para o caso de não dar certo. Acredito muito em Deus, por isso trato sempre de entregar meus anseios e desejos em Suas mãos. Então aguardo... Sei que o melhor para mim está por vir.

Over Shock - Apesar de escrever há anos, você demorou a publicar seu primeiro livro e essa publicação aconteceu com o último livro concluído, O Trio. Essa demora foi um desejo pessoal ou devido a determinadas dificuldades encontradas?
Alane - Principalmente pelas dificuldades encontradas. Eu não tentei antes, para falar a verdade, pois eu achava muitos empecilhos em ter que digitar tudo (sem computador na época), tirar várias cópias e ainda enviar para várias editoras e aguardar meses por uma resposta provavelmente negativa. Isso me desanimava. Porém... Como eu disse antes, entreguei nas mãos de Deus e sei que aconteceu no momento certo por todas as razões possíveis, inclusive com relação à qualidade da escrita, pois anos de treino ajudaram a melhorar um pouquinho e a amadurecer as ideias. E a escolha de O Trio foi basicamente por isso. Além de ter sido recomendado pelo meu esposo (o primeiro a lê-lo ainda escrito a mão, coitado), foi por eu julgar que era o tinha melhores condições de publicação.

Over Shock - Em O Trio, o leitor é levado a uma aventura até certo ponto nostálgica. Momento ou outro nos deparamos com situações que, semelhante ou não, já vivemos ao longo de nossa vida. A inspiração para a construção dessa trama veio de sua própria infância ou apenas de sua imaginação?
Alane - Nossa... Algumas coisas eu imaginei, mas muitas eu tirei da minha infância! Sou a nostalgia em pessoa (risos)! Nasci no interior da Bahia e vivia muito livre! Brincava na rua, subia em árvores, fazia piqueniques na beira de um riacho... Mas sinto que explorei muito mais as recordações de minhas viagens à antiga fazenda de meu avô, que ele infelizmente vendeu... Meu sentimento de saudade vem especialmente de lá. Era muito bom... E gosto desse clima roceiro, de simplicidade...

Over Shock - E como foi o processo de escrita, publicação e divulgação de seu primeiro livro?
Alane - Escrever é sempre maravilhoso. Eu me transformo! Não sinto fome, fico dispersa e em algumas cenas de O Trio eu ficava muito ansiosa para colocar no papel. Meu processo é esse: escrevo tudo a mão, depois passo tudo a limpo, a mão; depois leio e corrijo, vou tirando ou acrescentado algo mais, em seguida digito, corrijo novamente e continuo tirando e acrescentando o que julgo necessário. Mesmo depois do livro publicado já me peguei com o impulso de querer arrumar alguma coisa (risos). Depois que terminei, guardei por uns alguns anos, como era o costume com todos os anteriores a ele. Nesse período engravidei, comecei a passar a limpo, mas acho que ficava tão ansiosa que, na barriga, minha filha se sentia incomodada, se mexia muito! Então resolvi dar um tempo. Tornei a guardar e só voltei a pegar ano passado, quando enfim terminei de digitar – e consertar de novo. Procurei vários meios de publicação, embora, sempre com aquela ideia de fazer várias cópias e enviar para as editoras. Mas aí encontrei sites que ofereciam chances aos autores iniciantes, então preenchi fichas de inscrições de duas editoras. Dois dias depois a Novo Século disse que minha ficha tinha sido aprovada e que era para enviar o manuscrito. Após cinco dias – e eu preparada para aguardar semanas ou meses – me assusto com a informação de que meu livro tinha sido aprovado. Graças a Deus na primeira tentativa! A divulgação é talvez o mais complicado, graças aos blogs literários meu livro tem sido mostrado ao público, e só tenho que agradecer muito a todos eles! Encontrar uma brecha nesse meio não é nada fácil, pois ainda temos que lidar com o preconceito que existe com autores nacionais, especialmente iniciantes...

“Ah, se eu soubesse que era a última vez que eu o veria, teria ao menos aproveitado sua presença e o contemplado até o derradeiro milésimo de segundo. Não tenho fotografias dele, nem sequer uma... Seu rosto vai e vem em minha memória, e eu nem sei mais se é realmente ele”. – pág. 105 (O Trio)

Over Shock - O amor e a amizade são pontos fortes em O Trio, mas essa história se passa em meados da década de 50. Você acredita que esses sentimentos seriam tão intensos se a história se passasse na atualidade?
Alane - Acho que sim... Apesar de nos tempos atuais alguns valores terem se perdido, amizade é sempre amizade, todo mundo busca alguém em quem confiar; com quem possa ter cumplicidade, independente da época em que se viva. Acredito que mesmo quem não tem nenhum, por escolha ou não, se aflige com o desejo de encontrar esse alguém.

Over Shock - “Até que ponto você suportaria o desprezo e a dor? Até que ponto você é capaz de perdoar?”
Alane - Mulheres são sempre mais resistentes a dores que os homens, isso ninguém pode negar (risos)! E eu me considero até resistente... Não sou masoquista, detesto dor, mas não gosto de alarmar, de chamar a atenção de ninguém. Se estiver sentido alguma dor em frente às pessoas, consigo disfarçar na medida do possível. Desprezo já é algo mais complicado de se lidar, já passei por isso e acho mais pungente que a dor propriamente dita, pois parece ferir a alma.  Perdoar... Eu confesso que preciso de um período para digerir a situação. Mas me esforço a esquecer para ficar bem com quem quer que seja... Se bem que até então ninguém tenha feito nada grave demais comigo, então não conheço a proporção exata de minha capacidade de perdoar ainda...

Over Shock - Em 2012 comemoramos o centenário do baiano Jorge Amado, um dos maiores escritores da história desse país. Como você, conterrânea de Jorge, vê a importância desse grande escritor para a literatura de seu estado e do país em geral? Você se espelha de alguma forma em Jorge Amado?
Alane - Eu o considero um ícone. Especialmente porque ajudou a quebrar um pouco o preconceito pelos nordestinos, que são vistos pela maioria da população das outras Regiões como ignorantes. Confesso envergonhada que nunca li um livro sequer de Jorge Amado... Nunca me interessei, de fato. Até comecei a ler “Capitães de Areia”, mas creio que pela minha idade na época, não tive desejo de continuar. Ainda pretendo corrigir esse desleixo.

Over Shock - Como já citado no início, antes de publicar O Trio, você concluiu outros romances, ainda não publicados. Você pretende publicar essas histórias ou se dedicar apenas as ideias que surgirem a partir de agora?
Alane - Pretendo publicar alguns dos prontos, se Deus quiser. Estou revisando meu primeiro romance no momento. E claro que não vejo a hora de iniciar outros! Mas antes preciso me desligar um pouco de O Trio...

Over Shock - E o que você pode adiantar sobre suas possíveis futuras publicações?
Alane - O seguinte será a história de um casal de prometidos que, por culpa de um deles, essa união acabará se tornando bastante conturbada. Inicia-se quando uma menina se muda para a fazenda herdada pelo pai e lá encontra o diário de uma parente, já falecida. Ela começa e lê-lo e a história é transportada para o ano de 1914, onde a autora conta ali como foi a sua relação com o seu prometido e tudo o que fez para impedir essa união, sem se importar com a proporção do amor que ele sentia por ela. Apesar de se tratar da leitura de um diário, a narração é em terceira pessoa. Comecei e parei outro, que é do gênero fantasia, com direito a superpoderes e tudo mais. Tem mais um que ainda precisa de uma boa revisão, mas fala sobre uma seita. Tem um pouco de suspense. E por aí vai...

“Achei que merecia ao menos um beijo no rosto mas ela passou adiante. Não liguei para isso também porque tinha certeza de que, dali em diante me deleitaria em seus lábios sempre que tivéssemos chances de nos ver e tudo seria real e não apenas devaneios em noites solitárias”. – pág. 224 (O Trio)

Over Shock - Como você vê o atual mercado editorial brasileiro? Você acredita que aos poucos as portas das grandes editoras estão se abrindo para os autores iniciantes?
Alane - Sem dúvida alguma que hoje está muito melhor, pois existe um crescimento favorável de leitores, especialmente do público mais jovem, mas devo dizer que é graças aos livros estrangeiros que vêm fazendo sucesso nos últimos anos. Graças a Deus que isso acendeu neles o gosto pela leitura e estão direcionando esse prazer aos nacionais também. E claro que as Editoras estão de olho nisso, embora, eu, particularmente, ainda sinta que dão mais valor aos autores de fora. As portas estão se abrindo sim, mas ainda é preciso dar mais créditos aos iniciantes, porque ainda tem uma dificuldade em especial, que só quem publicou um livro por essas editoras que dão espaço para quem está iniciando, sabe do que estou falando... Eu compreendo perfeitamente, sei que é mais fácil investir em uma coisa em que o lucro é uma certeza. Mas acho que isso pode mudar algum dia, para melhor. Em todo caso, devo agradecer muito a oportunidade que a Novo Século me deu. Conseguir que uma editora de renome publique um livro da gente é bastante recompensador!

Over Shock - Quais seriam as dicas que você daria para os escritores que estão começando uma carreira literária?
Alane - Especialmente para não desistirem. Analisem seus trabalhos como se quem estivesse lendo fosse outra pessoa; peçam opiniões, aceitem críticas e tenham muita paciência. Não tomem decisões precipitadas. Pesquisem sobre as editoras, têm muitas dispostas a publicar obras de novos autores, não é a toa que tanta gente iniciante tem surgido. Seu sonho pode ser realizado e não enxergo uma época melhor para se correr atrás disso. Busquem apoio nos blogs literários, que se tornaram um suporte indispensável! Escolham direitinho, existem muitos de qualidade.

Over Shock - Jogo Rápido:
Deus: A quem eu sirvo.
O Trio: Uma paixão arrebatadora.
Davi Guerrato, Nelson Beltrame ou Jordan Merkel? Os três... Prefiro dizer isso para não influenciar a ninguém... (mas quem souber ler nas entrelinhas saberá a resposta!)
Yola, Ana ou Leonor? Leonor
Amor: Solução para muitos problemas.
Amizade: Alento à alma.
Família: Amo.
Novo Século: Tenho muita gratidão pela chance dada e por não ter desistido de mim.
Jorge Amado: Inteligência.
Blog Literário: Criados por anjos.

Over Shock - Obrigado por essa entrevista, Alane. Espero que você tenha gostado das perguntas e que todos os leitores gostem de conhecer um pouco mais da autora Alane Brito. Para encerrar, deixe sua mensagem final aos leitores do blog Over Shock:
Alane - Não tem como não ter amado suas perguntas, Ricardo! Muito bem elaboradas. Não esperava o contrário! Mais uma vez agradeço pela oportunidade! Espero ter sido clara o suficiente e que tenham se agradado de minhas respostas. A vocês que doaram um pouco do seu tempo para ler essa entrevista também tenho muito a agradecer. Valorizem os autores nacionais, quem ainda tem preconceito tente dar uma chance a nós, garanto que não irão se arrepender! Espero “encontra-los” novamente por aqui quando eu lançar meus próximos trabalhos, se Deus quiser!

 “”Gostar de alguém é bom, embora fique complicado demais de se administrar quando se torna algo mais que só uma paixão infantil”” – pág. 245 (O Trio)