O amor está no ar!
O romantismo esteve presente no Estádio Olímpico de Londres no último domingo (02) e isso só poderia ser algo brasileiro. Participando de sua segunda Paralimpíada, o alagoano Yohansson Nascimento conquistou a medalha de ouro nos 200m rasos da classe T46 (amputados e outros) e aproveitou para pedir sua namorada Thalita em casamento. A resposta não poderia ser outra: “Claro que sim!”, respondeu ela.
O título paraolímpico veio com o tempo de 22s05. Desde a largada, Yohansson fez uma prova perfeita e isso se confirmou com a quebra do recorde mundial. Atrás dele, o cubano Raciel González (22s15) e o australiano Simon Patmore (22s36) completaram o pódio.

Superando o ídolo
Nos Jogos Olímpicos Londres 2012, o sul-africano Oscar Pistorius entrou para a história por ser o primeiro atleta bi-amputado a participar do principal evento esportivo do mundo. Na ocasião, Oscar Pistorius não conquistou nenhuma medalha, mas após quatro ouros nas últimas duas edições dos Jogos Paralímpicos, Pistorius era o grande favorito para a medalha nos 200m rasos da classe T44 (amputados e outros). O sul-africano só não contava com uma reação espetacular do brasileiro Alan Fonteles.
Correndo ao lado de seu grande ídolo, o paraense Alan Fonteles não se intimidou e quando parecia que o ouro estava distante, deu uma arrancada e ultrapassou a linha de chegada à frente de todos os competidores. Alan terminou com o tempo de 21s45, enquanto Pistorius passou em 21s52. Insatisfeito, Pistorius disse que as próteses usadas pelo brasileiro poderiam ser irregulares, porém a acusação foi em vão. O ouro era do Brasil e o grande Oscar Pistorius teve que se contentar com a prata. E também se desculpar pelas palavras.

Dobradinha e pódio totalmente verde-amarelo
A delegação brasileira no atletismo foi responsável por duas dobradinhas. A primeira delas aconteceu no feminino, na prova dos 200m da classe T11 (deficientes visuais). A quebra do recorde paralímpico coroou a participação brasileira na prova para cegos no domingo (02). Com três atletas na final, o Brasil conquistou a medalha de ouro com Terezinha Guilhermina e a prata com Jerusa Geber.
Dominando a prova desde o início, Terezinha não precisou se preocupar com suas adversárias. Atrás dela, Jerusa disputava a medalha de prata com a chinesa Juntingxian Jia, que foi impulsionada por seu guia. A atitude ilegal gerou uma reclamação por parte de Jerusa, mas os juízes, que desclassificaram a chinesa, voltaram atrás e Juntingxian completou o pódio com o bronze, impedindo um pódio totalmente verde-amarelo.
Dois dias depois, Terezinha Guilhermina voltou às pistas em busca do ouro nos 400m da classe T12, mas o guia Guilherme Santana caiu e eles terminaram a prova sem a medalha. Já no dia seguinte, Guilherme e Terezinha se recuperaram a faturaram o segundo ouro em Londres, ao vencer os 100m T11 com o tempo de 12s01.
Se nos 200m o pódio verde-amarelo não foi possível, isso não aconteceu nos 100m. Novamente Jerusa Geber ficou com a prata, ao fazer o tempo 12s75. Logo atrás dela, Jhulia Santos - que ficou sem a medalha na prova dos 200m - completou o pódio com o tempo de 12s76 e disse: “Ainda não acredito que isso esteja acontecendo. Estou naquela: será que é verdade ou não? O que aconteceu me fez refletir muito, fiquei um pouco traumatizada. Mas estou aí de novo, garantindo o que já era meu nos 200. Arrancaram a medalha de mim, mas eu sabia que conseguiria substituí-la”.

Dobradinha brasileira também no masculino
Com uma nova dobradinha, dessa vez no masculino, a delegação brasileira garantiu mais duas medalhas. Lucas Prado, grande esperança de medalha, queria repetir o feito de Pequim 2008 e do mundial realizado em 2011, quando foi o mais veloz. Mas dessa vez ficou apenas na 4ª e última posição, surpreendendo a todos que contavam com seu domínio total na prova.
Os brasileiros no pódio foram Felipe Gomes e Daniel Silva, que foram acompanhados pelo angolano José Sayovo Armando, medalhista de bronze. A distância entre os dois primeiros colocados foi apenas de 0s02: Felipe com 22s97 e Daniel com 22s99.

Uma dupla bicampeã
Alguns esportes são conhecidos por serem praticados por anônimos e muitas vezes o atleta profissional é deixado de lado, simplesmente por falta de visibilidade do esporte. Um desses esportes é a bocha, onde o Brasil é uma grande potência Paralímpica. Na última terça-feira (04) o Brasil garantiu o bicampeonato com a dupla Dirceu Pinto e Eliseu dos Santos.
Quando a competição teve início, a dupla brasileira já era considerada favorita na disputa de pares mistos da classe BC4 (deficiências severas com dificuldade para arremessar) e esse favoritismo se confirmou a cada novo confronto. Na fase classificatória, os brasileiros derrotaram as duplas de Portugal, Hong Kong e da República Tcheca, garantindo a vaga para a semifinal. Na semifinal, a dupla enfrentou os donos da casa, Peter e Stephen McGuire, e não se sentiram intimidados pela torcida a favor dos britânicos. Dirceu e Eliseu venceram por 3 a 2 e passaram para a final, onde reencontraram a dupla tcheca.
Com a possibilidade de encerrar a campanha invicta, na final os brasileiros contaram com o apoio da torcida e venceram Radek Prochazka e Leos Lacina por 5 a 3. Era a segunda medalha de ouro na carreira dos brasileiros e a primeira da bocha em Londres.
Motivo de orgulho para o Brasil, Dirceu Pinto comentou a vitória e a dedicou a todos os deficientes: “Essa medalha é para todos os deficientes do Brasil que estão em casa, que pensam que a vida acabou e que não servem para mais nada. Essa medalha é para mostrar a força do esporte, para mostrar que o esporte pode reintegrar, refazer a vida de muita gente, como fez com as nossas. Somos campeões paralímpicos. É um orgulho que não cabe no peito”.

Melhor campanha da bocha com mais ouros
Após a vitória da dupla Dirceu Pinto e Eliseu dos Santos, o Brasil voltou a disputar medalhas de ouro no sábado (08), com Maciel Souza Santos, na categoria BC2 (com paralisia cerebral), e novamente com Dirceu José Pinto, na categoria BC4.
Na disputa de sua primeira medalha em Londres, Maciel não deu chance ao adversário, o chinês Zhiqianq Yan, vencendo por 8 a 0 a grande final e conquistando assim a segunda medalha dourada para o Brasil no esporte.
Já a segunda medalha de Dirceu chegou junto com mais um bicampeonato olímpico. Apesar de grande favorito, Dirceu sabia da dificuldade que encontraria na final, quando enfrentou o chinês Yuansen Zheng. Em uma disputa apertada, o duelo terminou sua última parcial empatada, o que forçou o tie-break, onde Dirceu venceu por 4 a 3. A medalha consagrou a melhor participação da bocha brasileira em Jogos Paralímpicos.

Aos poucos o maior atleta paralímpico do Brasil
Após conquistar duas medalhas de ouro (Imagem da Semana 87#), o brasileiro Daniel Dias caiu na piscina na terça-feira para buscar mais uma medalha dourada e ficar a uma conquista de igualar o recorde de Clodoaldo Silva e Ádria Santos. Competindo nos 100m peito da classe SB4 (deficiência física), Daniel bateu o recorde ainda nas eliminatórias ao fazer 1m35s82, garantindo sua vaga em mais uma final.
Na final com o também brasileiro Ivanildo Vasconcelos, Daniel Dias fez uma das provas mais espetaculares da natação em Londres. Nadando em um ritmo muito acelerado e sem perder o fôlego em nenhum momento da prova, Daniel abriu mais de 4s de vantagem para o segundo colocado e fechou a prova com o tempo de 1m32s27, indo muito além do recorde quebrado nas eliminatórias. Nadando em 1m36s92, o colombiano Moises Fuentes Garcia ficou com a prata, enquanto o bronze foi para o espanhol Ricardo Ten, que completou em 1m37s23.
Alguns dias depois, quando foi para mais uma prova, Daniel Dias estava decidido e com grandes chances de se tornar o maior atleta paralímpico de nosso país. Na disputa dos 50m costas da classe S5 (deficiência física), Daniel Dias foi soberano, nadou com o tempo de 34s99, e não deu chance ao chinês Junquan He, que terminou a prova logo atrás com 36s41.
A quinta medalha de ouro de Daniel Dias em Londres foi a consagração após atuar com perfeição em dois Jogos Paralímpicos. Com treze medalhas, Daniel se tornou o maior medalhista, mas não parou por aí e também ganhou a medalha de ouro nos 100m livres da classe S5, vencido no sábado (08). O brasileiro completou a prova em 1m09s35 e ficou cinco segundos a frente do americano Roy Perkins, medalhista de prata. O bronze foi para o espanhol Sebastian Rodríguez, de 55 anos. Sobre o espanhol, Daniel disse com risos: “Quem sabe não chego lá”.

Ouro e prata para o Brasil
Outro brasileiro multicampeão paraolímpico, Andre Brasil, conquistou mais uma medalha de ouro, dessa vez nos 100m livres, onde completou a prova com 51s07. Novo recorde paralímpico.
Do lado de Andre Brasil no pódio estava o brasileiro Phelipe Rodrigues, que conquistou a prata ao fazer 52s42, e o australiano Andrew Pasterfield com 52s77. A vitória do brasileiro veio após não conquistar nenhuma medalha nos 400m, prova em que havia sido campeão em 2008.

Uma reação coroada com o ouro
Ser derrotado durante uma competição da Paralimpíada pode ser algo desanimador, principalmente quando isso acontece em duas oportunidades. Quem quer chegar ao ponto mais alto do pódio deve estar preparado para saber o momento certo de reagir e superar uma derrota. Foi o que o brasileiro Jovane Guissone precisou fazer para conquistar o ouro na esgrima em cadeira de rodas masculino.
Único brasileiro competindo no esporte, o gaúcho chegou a ser eliminado na prova do florete, mas na prova de espada ele foi longe. Na primeira fase, derrotou um polonês e um russo, e foi derrotado para os atletas da Bielorrússia e do Canadá. Nas oitavas-de-final Jovane voltou a enfrentar o canadense Pierre Mainville e ao derrotá-lo por 15 a 6 iniciou sua arrancada rumo ao título olímpico.
Na sequência, Jovane enfrentou Marc-Andre Cratere e Alim Latreche, ambos da França. Com as duas vitórias, o brasileiro garantiu a vaga na final, onde enfrentou Chik Sum Tam. Em uma disputa apertada do início ao fim, o duelo chegou a estar empatado em 14 a 14, mas um toque de Jovane lhe garantiu a vitória, a medalha de ouro sofrida e por isso muito comemorada.

O país do futebol de 5
A seleção brasileira de futebol não vive um bom momento e as críticas já fazem parte da rotina, afinal, estamos a menos de dois anos da Copa do Mundo 2014, que será realizada no Brasil. Isso é apenas um detalhe para o país do futebol, que domina o esporte em outras categorias. A conquista da tão sonhada medalha dourada nas Olimpíadas novamente foi adiada, mas nas Paralimpíadas a história é diferente e o Brasil conquistou o tricampeonato do futebol de 5 (com atletas deficientes visuais) ao bater a seleção francesa.
Desde que o futebol de 5 entrou para o calendário dos Jogos Paralímpicos, em 2004, o Brasil é o adversário a ser batido. Os jogadores Marquinhos, Bill e Fábio estiveram presentes nos três títulos brasileiros e entraram para a história com a conquista deste sábado.
Antes de chegar à final, a seleção precisou enfrentar China, Argentina, Turquia e França nas fases anteriores. Ao reencontrar a seleção francesa, o Brasil criou grandes oportunidades de gol, mas também sofreu pressão em alguns momentos da partida. O primeiro gol saiu aos 22 minutos do primeiro tempo, dos pés de Bill que converteu o pênalti sofrido por Ricardinho. Após isso, a França pressionou e criou oportunidades de gol, mas todas pararam nas grandes defesas do goleiro Fábio – único com visão normal.
No segundo tempo, o sistema defensivo brasileiro continuou funcionando, enquanto o ataque tentava aos poucos balançar a rede adversária. Se do lado brasileiro o goleiro Fábio evitava o empate, do lado francês quem brilhava era o goleiro Grangier. Apesar de boa atuação, Grangier não conseguiu evitar o segundo gol, que saiu após uma bela jogada de Ricardinho. Com a diferença de dois gols, o Brasil garantiu mais uma medalha dourada, deixando a França com a prata. O bronze ficou com a Espanha.

A medalha que faltava
Após conquistar a prata em Pequim 2008, a brasileira Shirlene Coelho queria superar sua campanha anterior e subir ao ponto mais alto do pódio no lançamento de dardos da categoria F37/38 (paralisados cerebrais). A confiança e a vontade de Shirlene garantiram a medalha de ouro ainda no primeiro arremesso, quando lançou o dardo a uma distância de 36,86m. Novo recorde mundial.
A superioridade de Shirlene pode ser comparada através do resultado das adversárias. A chinesa Qianqian Jin conquistou a prata ao lançar o dardo a 31,62m, enquanto a medalhista de bronze, a australiana Georgia Beikoff fez 29,84m em seu melhor arremesso.
Sobre a vitória, Shirlene disse logo após conquistar o ouro: “É muita emoção. Esperei quatro anos para sair de uma de Paralimpíada com uma medalha de ouro e recorde mundial novamente. Na primeira (em Pequim 2008), teve recorde mundial, mas foi uma prata com gosto de ouro. Agora foi o ouro verdadeiro. A prata de Pequim estava engasgada, agora desengasgou total”.

Um ouro para consagrar a campanha
A última medalha do Brasil veio na prova mais importante do atletismo: a maratona. Na disputa da categoria T46 (amputados e outros), Tito Sena venceu de forma emocionante, com uma grande arrancada no final, e superou a prata conquistada em Pequim 2008. Com o tempo de 2h30m49s, Tito ficou na frente do espanhol Abderrahman Ait Khamouch e do belga Van den Heede Frederic, medalhista de bronze na prova. Ozivan Bonfim, outro brasileiro na prova, ficou na quarta posição.
A ultrapassagem que garantiu a medalha de ouro para Tito, de 45 anos, ocorreu faltando cerca de 200m do final e segundo Tito, foi Deus quem lhe deu forças para conquistar essa vitória. Ainda em entrevista ele relembrou sua participação nos últimos jogos, quando correu com dores por 14km, e disse não ter palavras para descrever sua vitória.


Missão cumprida e a espera por Rio 2016
Nunca a delegação brasileira fez uma campanha como em Londres 2012. Sob os olhares da rainha Elizabeth II, cada um dos atletas brasileiros disputavam suas provas com a garra e a determinação de um vencedor. E todos eles são. Não importa a cor de suas medalhas; não importa se ganharam medalhas.
Desde o dia 30 de agosto, a bandeira brasileira esteve presente em um dos três lugares do pódio ao menos uma vez por dia. Em 21 oportunidades, o hino da Pátria Amada foi entoado nos ginásios e estádios preparados especialmente para esses jogos. A natação foi o esporte que mais deu alegrias para o Brasil e as lágrimas se juntaram a água da piscina do Parque Aquático em uma mistura emocionante.
Além de movimentar nações do mundo todo, uma Paralimpíada mostra o que o esporte é capaz de fazer na vida de uma pessoa. Se o futebol tira muitos garotos das ruas – o que é muito bom -, os esportes paralímpicos mostram que ter deficiência não é declarar o fim da vida. Ter uma deficiência é declarar que se pode ir muito além; ser um guerreiro e servir de inspiração para deficientes e pessoas ditas “normais”.
Ao todo foram 21 ouros, 14 pratas e oito bronzes. Além das piscinas e das pistas do atletismo, o Brasil conquistou medalhas na bocha, no tatame do judô, nos campos do goalball e do futebol de 5. Foi a melhor campanha da história brasileira nos Jogos Paralímpicos. Foi uma campanha que deixou um breve recado: “No Rio 2016 a história será ainda melhor!”.