Al-Aisha e os Esquecidos, Marcel Colombo, 1ª edição, Barueri-SP: Novo Século, 2012, 432 páginas.

Formado em Publicidade, o autor Marcel Colombo nasceu em São Paulo e logo aos 13 anos publicou seu primeiro livro: O caso Feeney. Mais tarde, participou das antologias Moedas para o Barqueiro Vol. II e Dias Contados Vol. II, ambos pela Andross Editora, antes de lançar seu mais recente trabalho: Al-Aisha e os Esquecidos.
Nessa obra somos apresentados ao garoto Lucas Laporte, que na véspera de seu 5º aniversário se depara com a primeira de muitas situações estranhas que acontecerá em sua vida, mas claro que ninguém liga para suas “besteiras de criança”. Os anos passam, Lucas fica mais maduro e essas situações continuam o atormentando, ao mesmo tempo em que vive novas aventuras com seus amigos Pedrinho e Natalia, e com seu coelho de pelúcia, Sr. Fofinho. É o coelho quem o ajuda a entender sua verdadeira importância.
As aventuras vividas por Lucas e seus amigos ao longo da história irão definir a sobrevivência de todos, afinal, dois mundos podem se colidir e tudo mudar. No começo nada sabemos sobre a relação entre os dois mundos, mas aos poucos tudo se esclarece e a cada nova página nos envolvemos com uma história leve e muito divertida.

“O raio de luz verde caiu finalmente no solo. Nada se escutou, nem o barulho de seu impacto. Uma agulha caindo na sala ao lado seria mais barulhenta. Do silêncio se formou uma imensa bola que crescia rapidamente. Quando atingiu seu tamanho máximo, maior que a edificação mais alta que você já viu, estourou, jogando para fora uma forte luz verde no céu, expulsando todo o negrume da noite para longe” (pág. 149).

Dividido em quatro partes (Quem disse que é fácil ser homenzinho?; Um coelho que não gosta de cenouras; Ter 17 anos não é nada fácil, meus jovens; O caçador de Esquecidos), o livro é narrado por Al-Aisha, uma personagem de outro mundo que não é uma humana e sim um ser, uma entidade – como ela própria diz. Por ser de outro mundo, a narrativa tem passagens engraçadas e Al-Aisha não perde a oportunidade de devanear sobre certos objetos do nosso mundo ou sobre situações dos humanos. Ao contrário do que acontece em muitos livros, essas interrupções não são cansativas, pelo contrário, Marcel Colombo acertou e muito nesse pequeno detalhe.
Outro acerto de Marcel se refere a construção de cada uma das personagens, mas nesse ponto o destaque não vai apenas para o protagonista Lucas. Acredite: você pode ler diversos livros ao longo desse ano, porém nenhum terá dois personagens espetaculares como Pedrinho e Sr. Fofinho. Pedrinho fala sempre a verdade e não poupa ninguém, nem mesmo seus familiares. Tem um jeito característico de falar, misturando palavras e com uma rapidez incomum, até mesmo em momentos que isso não deveria acontecer. Às vezes faz comentários que, desculpa pelo clichê, até Deus duvida e isso deixa tudo mais engraçado.
Já Sr. Fofinho é um coelho de pelúcia ranzinza, que sempre está com um charuto em mãos, tem um humor afiado, de personalidade marcante e capaz de fazer o leitor rir com apenas um comentário, que possui um lado irônico. Não pense que por causa do nome ele é um coelho fofinho, porque isso ele nunca foi e nunca será. E justamente por não ser assim que Sr. Fofinho é o cara! O melhor, e mais misterioso personagem da literatura nacional em 2012!
A narrativa de Marcel é viciante, seja pela curiosidade do que vai acontecer ou apenas pelo humor contido nela. Com ótimas descrições, que mesmo em excesso não cansam, e diálogos marcantes, o livro ainda possui aventura, suspense e romance na medida certa para agradar o leitor – e como disse antes, a grande responsável por isso é Al-Aisha, que nos conta essa história sob seu ponto de vista. Talvez o tema não agrade a todos, o que é natural, mas apenas a escrita é suficiente para uma boa avaliação.

“Lucas olhou-a profundamente nos olhos e seus narizes encostaram. Seus lábios estavam prestes a se tocar, mas ele sentiu a sua mão sendo puxada para baixo. Sua vontade e a de Natalia foram interrompidas pelo puxar desajeitado do coelho de pelúcia” (pág. 222).

Seres de outros mundos podem ser usados por muitos autores e às vezes isso fica até cansativo, mas neste primeiro livro Marcel Colombo consegue se destacar. Apenas alguns acontecimentos mostram as diferenças entre esses dois mundos. A grande e reveladora viagem rumo à Alzirivar acontecerá apenas no segundo volume, ou seja, a história tem tudo para melhorar.
Pensar que Al-Aisha e os Esquecidos começa com um garoto de cinco anos e que tem um coelho falante como grande destaque da história pode levar a crer que se trata de uma história infantil. Ledo engano. Este é um livro fantástico, para todos os públicos, e dá apenas uma prévia do que vamos encontrar no próximo volume, onde a aventura deve aumentar consideravelmente. E a expectativa em relação a essa continuação é enorme, principalmente pelas últimas palavras deste livro. Marcel Colombo conseguiu surpreender quando isso já não parecia ser possível.

“Mas tinha algo além disso. Dessas lembranças que incomodavam o jovem. Algo naquele homem não fazia sentido. Algo naquele sujeito estava de uma forma que não poderia estar. O homem encontrava-se igual à primeira vez que Lucas o vira” (pág. 335).