Manuscrito Encontrado em Accra, Paulo Coelho, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Sextante, 2012, 176 páginas.

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2002, Paulo Coelho é um dos autores brasileiros mais lidos no mundo todo e sua obra já foi traduzida para 73 idiomas. Grande companheiro de Raul Seixas (Majestades Eternas 21#), Paulo Coelho lançou recentemente seu mais novo trabalho: Manuscrito Encontrado em Accra.
No ano de 1974, o arqueólogo inglês Sir Walter Wilkinon encontrou um pergaminho em árabe, hebreu e latim e o encaminhou ao Departamento de Antiguidades do Museu do Cairo, que em testes detectou que o pergaminho foi escrito por volta do ano de 1307. Ao receber esse pergaminho em 2011, o escritor Paulo Coelho o transcreveu nessa obra.
Tudo aconteceu em 14 de julho de 1099, quando a cidade de Jerusalém se preparava para a invasão dos cruzados. Apesar de existir membros de três religiões diferentes (cristãos, judeus e muçulmanos), a relação entre os povos era agradável e todos esperavam juntos pela invasão. Antes disso, um grego conhecido como Copta reúne uma multidão e passa a comentar sobre valores e situações próprias do dia-a-dia da população da cidade sagrada.

“As cicatrizes são medalhas gravadas com ferro e com fogo na carne e deixarão seus inimigos assustados, ao demonstrar que a pessoa diante deles tem muita experiência de combate. Muitas vezes isso os levará a buscar o diálogo e evitará o conflito. As cicatrizes falam mais alto do que a lâmina da espada que as causou” (pág. 28).

Um detalhe que deve ser dito antes de tudo é sobre o trabalho e o cuidado da editora Sextante para levar o melhor da mais recente obra de Paulo Coelho. A arte da capa criada por Raul Fernandes é relativamente simples, mas com o exemplar em mãos, o acabamento aveludado dá uma sensação diferente. No interior, o sombreamento das páginas tenta se aproximar do formato de um verdadeiro pergaminho, outra ideia interessante colocada em prática no exemplar.
Já sobre o livro, para todos os ouvintes das palavras de Copta, a derrota era praticamente certa e por diversos motivos não haveria o porquê lutar pela sobrevivência. Ao longo de diversos capítulos, Copta tenta mostrar exatamente o contrário e apesar de se passar no século XI, todos os ensinamentos contidos no livro podem e devem ser seguidos ainda nos dias de hoje.
O interessante ao longo do livro é a forma como os moradores de Jerusalém recebem o “palestrante” e interagem com ele, fazendo as perguntas das quais realmente serão necessárias uma resposta após o possível ataque. Copta, por sua vez, não se intimida e não teme falar a verdade e impulsionar seus ouvintes a fazer o melhor, independente das consequências.

“E os verdadeiros amantes poderão entrar no jardim da beleza sem temor de serem julgados. Não serão mais dois corpos e duas almas que se encontram, mas uma única fonte de onde jorra a verdadeira água da vida” (pág. 93).

A cada capítulo, encontramos aquilo que precisamos ouvir sobre diversos assuntos: beleza, elegância, amor, sexo, derrota, lealdade etc. Em uma verdadeira reflexão sobre os princípios da humanidade, Copta usa de novas palavras para conquistar o leitor e ensiná-lo. O problema é que nem sempre essas palavras são inovadoras e muitas vezes percebemos que aquilo já foi dito, mesmo que com outro sentido. O livro ainda tem citações da Bíblia, como a Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15: 33-34) e a Parábola do Semeador (Lucas 8: 4-8), que mostram que de uma forma ou outra o livro sagrado também é usado para causar tais reflexões.
Apesar de não ser um livro de crônica/conto - muito menos de auto-ajuda -, Manuscrito Encontrado em Accra deve ser lido com calma e no momento ideal para se aproveitar todas as palavras expostas em suas 173 páginas. Não adianta pegar o exemplar e querer devorá-lo. Isso é possível, mas, ao menos nesse caso, o livro não merece ser lido com pressa.

“Amar significa estar disponível para os milagres, para as vitórias e derrotas, para tudo o que acontece durante cada dia que nos foi concedido caminhar sobre a face da Terra” (pág. 141).