Cuco, Julia Crouch, 1ª edição, tradução de Tiago Novaes, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 464 páginas.

Graduada em Teatro pela Bristol University, Julia Crouch produziu mais de 12 peças de teatro e após cursar mestrado em Ilustração Sequencial, produziu também três livros infantis. Só então a autora inglesa escreveu seu primeiro romance, Cuco, um livro que tinha tudo para ser perfeito.
Ao perder o marido Christos, Polly procura a ajuda de sua mais antiga amiga, Rose. Rose aceita receber a amiga e os filhos em sua casa, mesmo seu marido Gareth sendo contra a essa escolha. Como amiga, Rose sente a responsabilidade de ajudar Polly em um momento delicado como esse, ela só não esperava que essa ajuda trouxesse consequências a ela e a toda sua família. Aos poucos, o mundo de Rose desaba e ela não sabe como reagir para ter tudo de volta.

“Ela era uma mulher em choque. Não qualquer mulher, mas Polly. Sua Polly. E ela decidiu-se ali e naquele momento que iria fazer tudo que estava ao seu alcance para trazê-la de volta à vida. Polly precisava de sua ajuda” (pág. 66).

Na orelha de Cuco, encontramos a seguinte frase: “Este livro é um suspense inteligente e afiado”. Em nenhum momento isso é apenas uma jogada de marketing para conquistar os leitores indecisos. O suspense encontrado em Cuco é realmente muito inteligente, do tipo que prende o leitor pelo que vai acontecer e não apenas pelo que está acontecendo. O grande problema é que o desenvolver da história se perde no momento em que isso não poderia acontecer.
Fazendo uma relação com o pássaro conhecido por ser uma espécie parasita, até determinado momento o livro segue em um ritmo lento, explorando detalhes do presente e também do passado. Com uma narrativa muito descritiva – em todos os momentos – e nem por isso cansativa, nos prendemos na história esperando por atitudes por parte de Polly que possa nos surpreender negativamente. Com exceção de algumas coisas, isso não acontece e também por isso sentimos que poderia ser sim um pouco mais perturbador, fugindo um pouco do drama psicológico em que o livro se foca.
A história de Julia Crouch é um thriller psicológico que tem as principais características do gênero, como os segredos do passado e a estabilidade da protagonista Rose, quando essa descobre que Polly não é totalmente confiável. Apesar de não ser narrado em 1ª pessoa, conseguimos sentir o drama vivido por Rose e percebemos em sua personalidade a ingenuidade e a calma com que tenta resolver os problemas que aparecem em sua vida, mesmo sabendo que dessa forma tudo pode ser prejudicial para ela própria e sua família.
Mas ao mesmo tempo em que Rose quer afastá-la e ter tudo de volta, ela não consegue impor uma atitude firme. A enrolação para que isso aconteça desmotiva a leitura que era até então muito instigante. Não que o suspense deixe de existir, mas passa a ser de uma forma diferente do que esperava antes mesmo da leitura e que fez dar prioridade ao livro. A perturbação passa a ser maior do que as próprias atitudes, o que não é totalmente positivo.

“Rose voltou-se para a sua filha turva, que permanecia deitada na esteira. Havia falhado com ela e não podia reparar isso. Mas precisava obrigar-se a ter esperanças. Tinha simplesmente de nivelar por baixo as suas expectativas, retroceder um ou dois passos. Nada disso era fácil” (pág. 250).

As personagens também não são como esperadas, principalmente Rose. A ingenuidade citada anteriormente chega a irritar, já que inevitavelmente a torcida vai para ela e ela não age como esperávamos – quem esperaria para dar um “basta”?. Isso dá algo diferente para a continuidade da história, mas não é capaz de agradar. Apesar de ser uma personagem que tinha tudo para ser odiada, Polly tem uma personalidade interessante, assim como Anna, uma das filhas de Rose, que em alguns momentos cativa o leitor. Ainda que seja bem construída, Polly consegue irritar por atitudes e é impossível não torcer por sua derrota.
O thriller psicológico é o gênero que cria grandes expectativas aos leitores, mas muitas vezes essas expectativas não são atendidas. A história em Cuco é muito interessante e poderia gerar finais surpreendentes, mas infelizmente no final acontece o que não esperávamos – e nem queríamos. Obviamente a leitura pode agradar a muitos e se você não criar expectativas de algo que não se encontra no gênero, a chance de ser uma leitura agradável aumenta consideravelmente. Afinal, um livro que prende, mesmo sendo cheio de altos e baixos, não é qualquer livro, ainda mais se tratando de um livro que tem muita coisa para acontecer – por mais que a resenha aparente citar tudo.

“Olhou as suas meninas adormecidas. Flossie virara-se para o lado de Anna; Anna tinha um braço protetor ao redor de sua irmãzinha. Rose sentia uma tristeza inconcebível pelas filhas. Elas seriam as sobreviventes do que aconteceria naquele dia. Essas meninas eram os danos colaterais. Não importa como as coisas terminassem, elas iriam sofrer, de um jeito ou de outro” (pág. 446).