- Os culpados –
Nenhuma conversa era propícia para aquele momento. Havia muita coisa para se resolver e Franccesco não pretendia perder tempo com conversa fiada. Passava das 3 da manhã e sua intenção era voltar o quanto antes para Santa Clara de Assis e levar seu filho para a escola, como estava acostumado a fazer desde que Marcos entrou na pré-escola. Já a delegada, Thaís Fontaine, não pretendia deixar seu amigo resolver tudo sem nem ao menos deixá-la por dentro de suas descobertas. Ele só iria se abrir caso ela o pressionasse e pressão era com ela mesma. Thaís, “a rainha de conseguir tudo o que quer”.
Pensando já ter encerrado o assunto, Franccesco deu os primeiros passos se distanciando da amiga e indo em direção ao camarim, onde continuaria interrogando. Thaís não esperou ele se afastar para perguntar, tentando manter a calma:
- O que você quis dizer com isso? Como o assassino pode estar próximo?
Franccesco deu meia volta e olhou no fundo dos olhos da amiga, tentando intimidá-la:
- Due persone. Duas pessoas tiveram uma atitude suspeita. – pausou e dirigiu o olhar para os lados, procurando uma nova maneira de explicar - Posso dizer que os dois envolvidos tiveram uma atitude suspeita.
- Acredita no envolvimento da jovem que iniciou uma confusão?
Franccesco abanou a cabeça.
- Então quem? Dá para explicar direito? Não sou nenhuma deusa para entender suas teorias ridículas.
- Espere e verá. Você com certeza irá se surpreender com a verdade. - O detetive italiano deu as costas e voltou a caminhar em direção ao camarim, ainda falando. – No inicio não imaginava que essa era a verdade e certamente você também não imaginava.
A delegada fez novas perguntas, contudo Franccesco se afastava ao mesmo tempo em que essas perguntas sumiam pelo ar. Ela ainda bateu os pés no chão, o que também foi desnecessário. O grande detetive não queria e não prosseguiria com aquele assunto. Ainda mais com a birra de “sua amiga cinquentona”.
Caminhando pelos espaços vazios da casa de show, Franccesco se lembrou de sua esposa e decidiu tranquilizá-la. Enfiou a mão no bolso e pegou seu celular, aparelho que no passado achava desnecessário e que no momento não sabia viver sem sua companhia. Com rapidez e mostrando uma agilidade incomum, digitou uma mensagem:

Amore mio, me desculpe se acordá-la. Já estamos chegando ao fim. Você ficaria fascinada se estivesse aqui. Um beijo. Ti Amo.

Com o dedo indicador, Franccesco clicou na tela e enviou a mensagem para a esposa que tanto amava. Em seguida, voltando a caminhar, sussurrou para si mesmo, com um sorriso no rosto: Quem poderia imaginar que um dia ficaria antenado com as novas tecnologias?
* * *
A situação não era animadora para eles. O maior detetive do país estava investigando, por isso sabiam que cedo ou tarde seus nomes entrariam na lista de suspeitos. A única chance de se livrarem era fazer com Franccesco Fracalossi o mesmo que fizeram com William. Eram amadores – como a maioria dos bandidos - e desperdiçaram a maior oportunidade. Agora corriam riscos que jamais imaginaram quando planejaram matar William. Pois sim, essa sempre foi a intenção.
Ambos estavam próximos ao palco principal e aproveitaram a movimentação e a ausência de Franccesco para conversar e tentar bolar um novo plano:
- Você fez aquilo que combinamos? Deu um fim na arma?
O mais velho, de olhos miúdos e bigode mexicano que o deixava assustador, respondeu:
- Já está no meio do lixo. - a prova de que eram amadores - Ninguém será louco de revirar um lixo procurando por um objeto que ninguém imagina que existe.
- Todos sabem que existe. – ironizou - Ele foi baleado, esqueceu?
- E você esqueceu que todos foram revistados e não encontraram nada? Eu escondi a pistola por todo esse tempo.
- Onde você escondeu? – a curiosidade era grande.
- Em um lugar que ninguém imagina, pode ter certeza.
- Ainda quero entender por que jogar a pistola no lixo. Você é imbecil? Vai ser muito fácil encontrar a arma em um lixo e reconhecer as impressões digitais.
- Foi o melhor que consegui, - afastou e encostou-se a uma parede próxima – estamos em um lugar fechado e precisei aproveitar a reconstrução. E não se preocupe, estava usando luva. Minhas digitais não ficaram na arma.
- Não pense que apenas eu levarei a culpa. Se ele descobrir, você terá o mesmo fim. Até pior.
- Eu sei.
Aproximou seus lábios do ouvido esquerdo do companheiro e respondeu com um tom sarcástico:
– E se eu me ferrar, vou contar todos os seus podres, bebê. E sei que não são poucos...
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)