- Reconstrução –
- Thaís, - Franccesco disse ao reencontrar a delegada, já no palco principal da casa de shows – fique responsável em desligar o gerador. Vou fazer a reconstrução do que aconteceu.
- Ficou louco?
- No, mio amore. Fiquei interessado.
- Você realmente ficou louco. – estava claramente espantada - Ele pode querer fazer o mesmo com você.
- Ele, ou ela, não seria idiota. – afirmou com convicção e continuou com suas ordens – Por favor, ligue o gerador poucos segundos depois.
A delegada não entendeu a intenção de Franccesco. Confiava em seu potencial e sabia que ele faria o que fosse possível para resolver o mistério. Mesmo cometendo certas loucuras.
O detetive foi rápido ao dispensar Thaís e pegar o microfone para fazer o anúncio da reconstrução do momento em que William foi baleado. Alguns ficaram assustados e tiveram uma atitude semelhante a dos apóstolos na Última Ceia. Achavam um absurdo imaginar que a pessoa que queria matar William estava entre eles; que estiveram ao lado de um assassino durante horas, sem que nada fosse feito. Franccesco por sua vez acreditava que o culpado estava entre eles e nada mudaria sua opinião. Muito menos alguns “adolescentes mimados e revoltados com a vida”.
Wellington foi o responsável por relatar tudo o que se lembrava. Com cuidado mostrou a posição dos membros da banda e do público que assistia ao show. Parecia difícil, ainda assim Wellington conseguiu dar o seu melhor e posicionou todos que ainda estavam entre os suspeitos. Tudo estava indo muito bem até que uma garota iniciou uma discussão, dizendo que o baixista estava lhe colocando em um lugar errado. Ela o xingou, o que não adiantou em nada. O detetive entrou mais uma vez em cena e resolveu a situação:
- Tudo bem, Wellington. Não precisa discutir. – ele dirigiu o olhar para a garota e prosseguiu – Per favore, meu bem, se dirija até o camarim que iremos conversar daqui a pouco.
A garota não gostou do tom de acusação e voltou a xingar a todos, se sentindo ofendida. Parecia estar fora de si e foi ignorada por Franccesco, pelos policiais e principalmente por Wellington. Só então aceitou a instrução dada e seguiu ao camarim. Parecia estar decidida a revelar algo que até então o detetive desconhecia e faria toda a diferença na investigação.
Quando já não havia ninguém atrapalhando, Wellington continuou, sem interrupções, colocando as demais pessoas nos lugares corretos. Quando tudo estava pronto Franccesco deu inicio:
- Peço a colaboração de vocês. O silêncio é fundamental. Wellington vai relatar tudo o que aconteceu de maneira clara. Caso algo esteja errado, no final darei espaço para vocês se manifestarem.
- Bom, - Wellington iniciou seu relato em seguida – até determinado momento o show prosseguiu normalmente, como sempre aconteceu. Como era um show especial, William resolveu fazer uma merecida homenagem ao pai e também a namorada. Cantou uma de nossas músicas e em seguida foi a vez de nossa homenagem ao grande responsável por tudo o que aconteceu com a banda.
- William? – o italiano perguntou, já sabendo a resposta.
- Exatamente. Após uma das músicas, um vídeo que preparamos a ele foi mostrado no telão. Estávamos abraçados e de costas ao público, assistindo a bela homenagem... – pausou - Quando tudo se apagou.
- Ainda não, Thaís – ele alertou.
- Todos começaram a gritar e alguns se movimentaram, sem entender o que estava acontecendo. Antes de nos afastarmos, William disse o nome da namorada. Estava preocupado com ela. Só então se afastou de mim. Não demorou muito para a luz retornar e... O encontrei estirado ao chão, ensanguentado.
- Per favore, Thaís – o detetive pediu a sua amiga, que o atendeu no mesmo instante.
A luz se apagou e ao contrário do que aconteceu mais cedo, o silêncio permaneceu entre os suspeitos. Franccesco pretendia encontrar alguém se movimentando quando a luz se reacendesse e isso aconteceu, para sua alegria e infelicidade de duas pessoas. Ao vê-los se movimentando, Franccesco sorriu, não demonstrando surpresa. Ele dirigiu o olhar por algum tempo ao público, sem dizer uma única palavra.
Priscila, a namorada de William, não pretendia esperar para intervir e aproveitou o silêncio para perguntar:
- Como você pretende descobrir o assassino dessa forma? Aliás, ainda estaríamos na escuridão. Você está fazendo tudo errado.
- Não me interrompa, per favore – pediu ainda refletindo sobre o que viu.
- Você não sabe, mas Wellington não gostava de William e isso ele não citou em nenhum momento. Ele deveria ser o principal suspeito – acusou, apontando o indicador para o baixista.
- Silêncio, Dio mio.
- Ele é um amigo da onça. Não merece sua confiança e fará de tudo para se livrar das acusações.
- Cazzo, eu pedi silêncio! – gritou, assustando a todos. Era um homem impaciente e em raros momentos conseguia se controlar. E gritava apenas quando algo o tirava do sério e neste caso foi a insistência da jovem.
Priscila não gostou da ordem dada por Franccesco, contudo obedeceu e se silenciou. Já o detetive permaneceu observando o público. Quando a casa de shows foi novamente iluminada, teve a certeza de que a verdade estava próxima. Precisava apenas encontrar o motivo para o crime. Três pessoas tiveram atitudes suspeitas e não poderia ignorar esse detalhe. Também precisava saber se estava pensando mais uma besteira. Olhar para aqueles rostos aflitos em busca de respostas o ajudou a chegar a uma conclusão que parecia óbvia: a garota que iniciou uma discussão e os dois que se movimentaram estavam escondendo algo. Com a decisão em mente, Franccesco não enrolou e tratou de tranquilizar a todos:
- Obrigado pela atenção de vocês. Em pouco tempo vocês estarão liberados.
Algumas pessoas se manifestaram, contudo ele não deu atenção e continuou:
- Vou apenas conversar com três pessoas e espero encontrar a verdade. Espero também que me entendam.
Ignorando a presença dos membros da banda, Franccesco deixou o palco e foi ao encontro de Thaís Fontaine, que continuava próxima ao gerador de energia. Sua expressão, que normalmente já era de poucos amigos, dava a impressão de que não desejava conversar com ninguém. Sua verdadeira intenção era acabar com a palhaçada que o detetive estava armando, contudo não poderia ter essa atitude. O chamou para ajudar e precisava levar aquilo até o fim.
Ao vê-lo, a delegada apenas perguntou totalmente irritada:
- Posso saber o que você descobriu fazendo essa merda? Você não entende que isso não ajudará em nada? Larga mão de ser amador, Franccesco.
- Não enche, Thaís! – respondeu com o mesmo tom – Foi você quem me chamou aqui.
- Você não respondeu a minha pergunta.
 - Ora, descobri que o assassino estava próximo a mim e que seu cúmplice estava ainda mais perto. Ou o contrário.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)