O Reino, Clive Cussler e Grant Blackwood, tradução de Marcos Maffei Jordan, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 336 páginas.

Na grande maioria de seus livros, o autor best-seller Clive CusslerO Espião (Resenha) – conta com a parceria de especialistas em algumas áreas exploradas em determinados livros. Em O Reino, mais recente trabalho do autor lançado no Brasil, a parceria é com Grant Blackwood, veterano da Marinha dos Estados Unidos, autor de uma série e co-autor de duas outras séries.
O Reino é o terceiro livro da série As Aventuras dos Fargo e começa narrando acontecimentos de uma época muito distante. Voltando para os dias atuais, somos apresentados – já que é o primeiro da série a ser lançado no país - ao casal Sam e Remi Fargo, dois aventureiros caçadores de tesouros. Apesar de serem especialistas em tesouros e não em pessoas, o casal é chamado por Charles King, um rico empresário da área petroleira, para descobrir sobre o desaparecimento de um antigo amigo dos Fargo que estava trabalhando em busca do pai de Charles King. Pouca coisa é revelada ao casal, que aceita entrar nessa aventura sem imaginar que a história é muito mais complexa.

“De cada lado e à frente deles, caixões de madeira erodidos estavam empilhados, oito na altura e quatro na profundidade, formando um corredor que era pouco mais largo que os ombros deles. Lanternas de cabeça iluminando o caminho, foram até o fim do corredor. Descobriram-se numa encruzilhada em T. Para a esquerdar e a direita, mais caixões” (pág. 213).

Diferente de O Espião, onde havia muitos termos técnicos que deixaram a leitura cansativa, em O Reino isso é praticamente inexistente e quando usado de alguma forma é com algo comum para o leitor, principalmente por se passar no século XXI. Dessa vez, o autor explora a descrição de tesouros e de lugares que os protagonistas se aventuraram ao longo da história, dando uma realidade maior ao livro – já que não importa se está fora ou dentro de uma caverna; em um lugar misterioso ou não. Entre os países, as aventuras no Nepal, China e Bulgária são as mais empolgantes, por inúmeros motivos, e também pela importância na história.
Até determinado momento, o leitor pode pensar que tudo não passa de uma invenção da cabeça genial de Clive Cussler, mas o autor demonstra mais uma vez trabalhar ficção e realidade como ninguém - tanto que o título se deve a essa junção. Nesse caso os tesouros estão relacionados ao século XVII, quando o italiano Francesco Lana Terzi projetou uma aeronave mais leve que o ar – assim como sugere a capa e o prólogo. Cussler se aproveitou de uma parte perdida da história de Terzi para construir o enredo de O Reino, que ligou presente e passado em diversos pontos, explorando segredos, lendas e tesouros, sejam eles arqueológicos ou não.
Mas quando se trata de uma caça ao tesouro, o espectador/leitor espera que a história seja repleta de aventura e ação, não deixando de lado a investigação para que a história chegue em seu clímax de uma forma convincente. Cussler sabe como elaborar um enredo do início ao fim, porém neste caso há momentos desnecessários e que às vezes se estendem mais do que deveria, ainda que se trate de um livro relativamente curto. Demorar alguns capítulos para deixar um lugar fácil – para os personagens, que fique claro - não é o que se espera de um livro que deveria prezar pela agilidade, afinal, qualquer erro pode ser fatal.
Um dos grandes destaques no livro O Espião é o protagonista Isaac Bell, que começa de forma pouco agradável, mas que aos poucos mostra sua verdadeira personalidade. Já em O Reino, os protagonistas não chamam a atenção se estiverem sozinhos e sim pela união perfeita de Sam e Remi. Mais do que um simples casal, os personagens se completam pelo estilo aventureiro, o romantismo característico e os diálogos marcantes que têm um tom bem humorado. Não importa a situação. Sam e Remi conseguem encantar e tirar diversas gargalhadas do leitor, ao contrário dos vilões da história, que não têm nenhuma atitude digna de um grande vilão, que no caso de O Espião era uma atração à parte.
O Reino e O Espião são histórias distintas e ainda assim é impossível deixar de fazer comparações, afinal, Clive Cussler conquistou a admiração a cada troca de páginas em ambas as leituras. Ao contrário da aventura de Isaac Bell, dificilmente O Reino vai conquistar a grande maioria dos leitores, apesar de ter uma história complexa, algumas aventuras empolgantes e ao menos dois personagens incríveis. Uma coisa é certa: ler esse livro é ter a certeza de que os Fargo têm muito para passar e vindo de um grande mestre a expectativa será sempre das melhores. Quando chegarem, os demais livros têm muita chance de serem tão bons – ou até melhores - quanto os dois primeiros de um dos maiores autores de espionagem, e agora também de aventura, do mundo.

“- Na pouco provável chance de não conseguirmos uma aterrissagem perfeita, macia como uma pluma, a nossa melhor alternativa são os pinheiros... encontrar um grupo bem denso e tentar voar direto para ele.
- O que você acabou de descrever é um pouso de emergência, só que sem o pouso.
- Essencialmente.
- Exatamente.
- Ok, exatamente.” (pág. 290).