A Ira de Nasi, Mauro Beting e Alexandre Petillo, 1ª edição, Caxias do Sul-RS: Belas-Letras, 2012, 320 páginas + fotos.

Apaixonado pelo rock, o jornalista Mauro Beting foi o responsável ao lado do especialista em música, Alexandre Petillo, em escrever a biografia de Marcos Valadão Rodolfo, conhecido como Nasi, vocalista de uma das bandas mais importantes do rock brasileiro na década de 80: o Ira!.
Quem acompanha o trabalho de Mauro Beting sabe que ele é um dos maiores jornalistas esportivos do país e tem um jeito único de tratar suas matérias, independente de quais sejam elas – o que não o impede de ser criticado. Assim como acontece em algumas de suas reportagens, em A Ira de Nasi, seu primeiro livro sobre rock, Mauro Beting mostra que com ele um trabalho simples pode se tornar valioso – ainda que não seja perfeito.

“Com o Ira!, várias outras bandas foram convidadas. Poucos minutos antes de ir ao ar, uma ordem da produção: todo mundo que aparecesse no vídeo era obrigado a usar um meigo gorro de Papai Noel. Os roqueiros todos vestiram. Menos o Ira!. A produção bateu o pé. O Ira! puxou o carro da Globo” (pág. 128).

Não é preciso conhecer e acompanhar a história do rock no Brasil para saber que Nasi é um dos principais nomes do gênero musical no país. Líder de uma banda que influenciou músicos que surgiram principalmente nas últimas duas décadas, Nasi sempre foi conhecido por sua voz e personalidade marcantes, mas também por algumas de suas declarações. É a polêmica em forma de músico.
Em A Ira de Nasi, Beting e Petillo fazem um relato sobre a infância, adolescência e a vida adulta de Nasi, mostrando os problemas enfrentados no início da carreira do cantor – quando a banda se chamava apenas Ira, sem exclamação - e também ao decorrer dela. Para os fãs, é uma ótima oportunidade de saber detalhes sobre a criação de álbuns e principalmente sobre o relacionamento entre os integrantes da banda, que por vezes foi muito conturbado e isso fica claro ao longo do livro. O relacionamento com outras bandas, sobretudo do cenário underground da capital paulista, também é exposto na obra que mostra todos os lados do músico biografado.
Mais do que uma simples biografia, que muitas vezes é deixada de lado pelos leitores, os autores conseguiram deixar a obra com o seu lado jornalístico e também romanceado, parte disso pelo estilo único de Mauro Beting. Com diversas entrevistas e depoimentos, inclusive do próprio Nasi, conhecemos as várias opiniões sobre o vocalista, o que não passa a imagem de que ele é um santo, já que não mostra apenas o seu lado bom. Afinal, como está explícito na sinopse, “Nasi não nasceu para ser santo”. O livro ainda inclui fotos de toda a vida de Nasi, além de reportagens e resenhas publicadas em algumas revistas especializadas, o que deixa a obra mais rica.

“Nasi: Foi um momento de encruzilhada... Na época eu tinha uma arma... Juro que pensei em ir até a casa da mãe da Maysa e acabar com eles... Mas foi bom não ter ido. Se me deixassem subir para conversar, não sei o que teria feito. Ou até sei...” (pág. 217).

Independente do gênero musical, todos sabemos que em décadas passadas o que realmente importava para o músico era fazer sua arte e apresentá-la ao público, ao contrário do que acontece hoje quando grande parte dos músicos de sucesso pensa apenas em tornar suas músicas conhecidas e ganhar dinheiro. Em A Ira de Nasi percebemos que tanto Nasi como também todos os membros da banda Ira! se importavam mesmo com a música, independente do sucesso. A vontade era tão grande, que carregaram os problemas durante anos para que pudessem fazer o que mais gostavam.
Um dos principais objetivos do livro era revelar o verdadeiro motivo de a banda ter chegado ao fim no ano de 2007. Esse motivo é revelado, mas para o produtor Rick Bonadio, um dos entrevistados, o sucesso do álbum Acústico MTV (2004) também contribuiu para o fim da banda, já que era “mal estruturada para o sucesso”. Outras histórias, que permaneciam guardadas a sete chaves, foram contadas apenas com a publicação da principal aposta da editora Belas-Letras no ano de 2012. Já outras histórias, como as brigas de Nasi com o irmão e ex-empresário da banda, Airton Valadão Júnior, não ficam de fora e é responsável para parte que se foca na emoção.
A sinopse não exagera ao dizer que “você ficará vermelho de raiva e de paixão com a história de um dos roqueiros mais polêmicos do Brasil”, mas ainda assim não é uma biografia que segue uma estrutura, por isso possui fatos irrelevantes – pelo menos na opinião de um leitor que não conhecia nada da história do músico – e algumas repetições desnecessárias.
As relações com as mulheres, as brigas e reconciliações, os problemas de Nasi com as drogas e sua recuperação, além de histórias reais que mais se parecem com ficção e a relação do músico com o candomblé, fazem de A Ira de Nasi uma verdadeira mistura de emoções. Para os fãs de carteirinha, é certamente uma nova forma de admirar a figura de Nasi e por isso a leitura é mais do que obrigatória. Os que sabem pouco sobre a história do cantor e da banda, tem nesse livro a chance de conhecer um homem que não sabemos se deve ser considerado um herói ou um anti-herói. Em 320 páginas A Ira de Nasi vai emocionar e irritar com a mesma facilidade que o leitor vai rir e aprender com os erros do músico.

“Ele pode até se trapacear, mas Nasi é um cara melhor. Uma pessoa melhor. Mais madura. Mais confiante - não arrogante. Mais humana. E que saca melhor as próprias limitações, e enxerga as dos outros” (pág. 297).