Um Lugar para se Perder, Alexandre Staut, 2ª edição, São Paulo-SP: Dobra Editorial, 2012, 160 páginas.

Autor dos livros Jazz Band na Sala da Gente e Um Lugar para se Perder, Alexandre Staut nasceu em Espírito Santo do Pinhal-SP em 1973 e antes de se aventurar nas páginas dos livros, trabalhou como cozinheiro na Inglaterra e na França. Atualmente trabalha como jornalista freelancer e romancista.
Seu novo livro, Um Lugar para se Perder, é narrado em primeira pessoa por um funcionário público que leva uma vida simples em uma cidade do interior. Todo dia, após o expediente, o protagonista passa na biblioteca e em seguida se senta em um banco da praça principal da cidade, onde passa horas devorando seus livros. Uma rotina completamente monótona.
Certa vez, enquanto está lendo, o funcionário público é interrompido por outro homem que se senta ao seu lado. Aos poucos ele descobre que esse homem é um ex-morador de um asilo, que passa a contar sua história e revelar segredos da própria cidade que o narrador-personagem até então desconhecia.

“Cada letra brotou-lhe na boca com algum esforço e um tanto de paciência, de forma incompleta, não satisfatória, até que as palavras se instalaram no céu da boca, no coração” (pág. 69).

Na primeira experiência com uma obra de Alexandre Staut, é fácil perceber seu estilo único de escrever e estruturar uma história, tanto que Um Lugar para se Perder não é dividido em capítulos, muitas vezes seus parágrafos são longos e as descrições excessivas, porém inteligentes. A falta de capítulos que poderia ser visto como um ponto negativo é rapidamente entendido quando percebemos que a história se passa em uma única noite, dando assim uma agilidade maior na leitura e no próprio desenvolvimento do enredo.
O problema, se é que pode ser considerado assim, é que o narrador é quem conta a história do ex-asilado – não há separação de diálogos, por exemplo -, mas em diversos momentos ele deixa a história de lado e se foca em seus devaneios. Para quem quer saber a verdade sobre esse homem, os devaneios podem ser considerados uma pedra no caminho, atrasando assim o desenrolar dessa história.
Mas ao mesmo tempo, esses devaneios mostram a personalidade e certa evolução do narrador, apesar de tudo se passar em uma única noite. Ele, que não gosta do contato com as pessoas e que no início tem receio de se aproximar do ex-asilado, aos poucos entra na história e quer saber seu desfecho e os segredos da cidade, ignorando o fato da noite avançar e ele continuar naquela praça que tem seu clima de solidão.

“Mas ele não se lastimou da penúria, comemorou estar no meio do lixo, festejou calado a podridão das coisas, o ruído das pessoas, as aves presas em pequenas gaiolas, tudo isso fazia com que se sentisse vivo, e isso era um milagre” (pág. 111).

Em nenhum momento o autor cita o nome de seu protagonista, o que dá ideia de que essa experiência poderia acontecer com qualquer um de nós, e nem mesmo o nome da cidade que é cenário para essa história. No entanto, para os conterrâneos de Alexandre, é fácil perceber que Um Lugar para se Perder se passa em sua cidade natal, isso porque ele faz referências a lugares e os descreve com maestria. Sendo assim, seus conterrâneos têm tudo para se sentirem ainda mais dentro da história.
Já a capa, criada por Leonardo Mathias, dá a falsa impressão de que é um livro destinado ao público infantil, porém é exatamente o contrário. Não que seja uma história adulta, mas sua linguagem e alguns trechos fazem com que o livro seja recomendado aos demais públicos. Vale ressaltar também que a capa tem todo o sentido, já que embarcamos em uma viagem buscando um lugar para se perder.
Com o clima encantador de uma cidade interiorana, Um Lugar para se Perder tem um enredo simples e que revela o que acontece em um asilo, tirando a imagem de que tudo é uma tranquilidade sem fim, como particularmente imaginava antes dessa leitura. O livro é uma viagem que prende o leitor, mesmo quando existem passagens que podem não interessar, como os devaneios, por exemplo. Uma viagem, que ao seu final, revelará uma nova forma de se ver a vida e tudo o que está ao redor de nós mesmos. Uma viagem por segredos e mudanças interiores.

“Cheguei a formular que, sem nunca ter me dado conta, eu vivia na Idade Média, num município sem progresso, que se perder no tempo, lugar de gente diversa, que mira o chão em busca de pequenas porcarias” (pág. 149).