A Primeira Oração de Jéssica, Hesba Stretton (Sarah Smith), tradução de Vagner Barbosa, 1ª edição, Içara-SC: Dracaena, 2012, 152 páginas

Conhecida pelo pseudônimo Hesba Stretton, Sarah Smith nasceu em julho de 1832 e é considerada uma das escritoras evangélicas mais populares do século XIX. Seus livros eram usados em escolas do Reino Unido e de outros países, como a Rússia, e mostravam a vida de crianças nas ruas em histórias com princípios cristãos.
Em sua obra mais conhecida, A Primeira Oração de Jéssica, Stretton conta a história de uma menina pobre que sofre com a mãe alcóolatra e que vive nas ruas em busca de comida. Certo dia, sem saber se terá o que comer, Jéssica conhece Sr. Daniel, que tem uma barraca de café e aparentemente não é um homem de bom coração. Porém, ele aos poucos vai ajudando a menina, mostra sua verdadeira personalidade, e então nasce uma bonita história de amizade.
No início, Jéssica nada sabe sobre Sr. Daniel e por isso resolve segui-lo e descobre que ele também é o zelador de uma capela. Jéssica não entende sobre o que acontece naquele local, mas isso vai sendo revelado e ela entenderá o poder da fé, da esperança e principalmente da bondade entre os homens, sendo que tudo será explicado de maneira clara e objetiva.

“Pela luz fraca da vela, Daniel viu os olhos de Jéssica fixados sobre ele, com um ar triste e amoroso. Então ela levantou a mão, fraca, até o rosto dele, colocando-a sobre os olhos fechados. Seus lábios febris se moveram lentamente. "Deus", disse ela, “por favor, faça com que o coração do Sr. Daniel fique macio Em nome de Jesus, amém”” (pág. 65).

A Primeira Oração de Jéssica pode ser considerada a grande surpresa da literatura em 2012, isso porque apesar da sinopse demonstrar ser uma bonita história, o interesse por ela era praticamente inexistente. Nada chamava atenção, pelo menos não antes de iniciar a leitura desse que é um dos grandes clássicos da literatura inglesa.
A história é aparentemente simples e é justamente essa simplicidade que dá um toque especial ao livro, já que dificilmente é possível explicar sobre a fé para uma pessoa e quando essa pessoa é uma criança, que nunca passou por qualquer tipo de ensinamento sobre Deus, isso pode se tornar ainda mais difícil. Com isso, A Primeira Oração de Jéssica busca mostrar a importância do amor, da amizade, da fé e, sobretudo da presença de um Deus onipotente em nossas vidas. Todos esses assuntos tratados de uma forma capaz de prender a atenção dos mais jovens já que é o público alvo e quem tem muito mais a aprender.
O livro é dividido em duas partes: A Primeira Oração de Jéssica, publicado originalmente em 1866 e em formato de livro no ano seguinte, e A Mãe de Jéssica, também de 1866 e publicado em livro em 1904. Sendo assim, ainda que brevemente, é possível perceber a evolução da personagem principal entre as duas histórias, sendo que na segunda sua importância para Sr. Daniel e os demais personagens é ainda mais clara. Além da relação entre Daniel e Jéssica, a participação do ministro da igreja é de grande destaque, já que ele é o responsável por passar a palavra de Deus à pequena garota, usando alguns trechos da Bíblia, por exemplo.
Em relação ao exemplar, apesar da linda capa criada por César Oliveira, o livro peca quando se trata da revisão, com erros que geralmente não encontramos nas obras da editora. Porém esse é o menor dos problemas, já que o pior é a divisão, apenas com aspas, dos diálogos da primeira história. Isso pode ser da versão original, mas de qualquer forma deixa a leitura confusa no início do livro. O interessante é que mesmo escrito há mais de um século, Stretton possui uma linguagem fácil, contrariando todos que menosprezam a literatura clássica, às vezes até mesmo sem motivo algum.
Como já dito, A Primeira Oração de Jéssica é um grande clássico da literatura inglesa e aparentemente destinada ao público infantil, porém sua história é rica e recomendada a leitores de todas as idades. Mais do que é isso, a leitura é recomendada aos que acreditam na importância de Deus e de tudo o que está ao redor Dele, independente de sua religião. Ao mesmo tempo em que pode ser chocante imaginar alguém O desconhecendo, é emocionante perceber a mudança que Deus e Sua palavra é capaz de fazer na vida de todos, independente de idade ou poder aquisitivo. Essa mensagem que o livro tenta e consegue transmitir aos seus leitores desde a primeira publicação.

“Sentia como se pudesse colocar em seu coração todo o mundo e pecadores perdidos e arruinados e, como o próprio Cristo, entregar sua vida a eles simplesmente por amor” (pág. 131).