- Descobertas –
- Olha, já vou avisando: não tenho culpa de nada. – a jovem que iniciou uma discussão minutos antes disse histérica, antes mesmo que Franccesco fizesse alguma pergunta. – Isso é uma calúnia.
- Calúnia? – o detetive perguntou, fingindo não entender.
- Sim, calúnia. Você está acusando uma pessoa injustamente.
- Ora, não estou acusando ninguém, só preciso fazer algumas perguntinhas. Você não se incomoda, não é mesmo? – perguntou com ironia. Não houve resposta e Franccesco teve a certeza de que ela escondia alguma coisa. Ele pretendia revelar a verdade o quanto antes e não poderia demonstrar suspeita, mesmo que ainda fosse irrelevante. Ana Paula, sua esposa, ficaria orgulhosa de vê-lo pensando dessa forma. – Você é uma garota muito linda e parece ser educada, espero não me decepcionar – não teve respostas.
Ela não vai colaborar. – deduziu – Como descobrir a verdade? – e se perguntou.
Já havia investigado pessoas dos mais variados tipos de personalidade. Compreendia a dificuldade de encontrar uma brecha para uma conversa simples e ao mesmo tempo reveladora. Às vezes conseguia trazer as pessoas para o seu lado, sem que elas imaginassem que isso fosse realmente possível; outras vezes apenas fazia perguntas e torcia para que algo fosse revelado involuntariamente e ele pudesse se aproveitar disso. Naquele caso, não sabia como proceder. Apenas esperava que a conversa o ajudasse a encontrar as provas necessárias para uma acusação, e que os motivos de tentarem assassinar William Herz fossem enfim revelados.
- Vamos ver o que os integrantes da banda têm nesse camarim. – Em busca de uma garrafa de vinho, Franccesco abriu um frigobar até então escondido ao lado da poltrona – Vejamos... Aceita uma Coca-Cola? Ou prefere uma cerveja?
- Odeio cerveja e não posso tomar refrigerante. Preciso manter a boa forma.
Mulheres, sempre com esses pensamentos. Como se um homem de verdade se importasse com isso. – o detetive se orgulhava de pensar assim. Para ele, a figura feminina era mais do que especial e não precisava de cuidados especiais. Nenhuma mulher concordaria com tal afirmação, porém ele não se importava.
- Bom, eu também odeio cerveja e prefiro um suco natural. – ignorou as bebidas e voltou a se sentar em uma poltrona. Sentia-se confortável ao fazer a primeira pergunta – Agora me diga por que você acusou Wellington? Creio que você não gosta muito dele, estou certo?
- Claro que gosto. Se não gostasse, por que viria em um show dele? – se corrigiu antes que o detetive pudesse responder a pergunta. – Na verdade, não tenho nada contra ele. Como também não tenho nada a favor.
- Interessante. – respondeu com desgosto. Em seguida apoiou os cotovelos sob os joelhos. Gesto típico de Franccesco. – Por isso o acusou? Queria que tudo acabasse e achou mais fácil acusar um cara inocente?
- O acusei porque senti que ele não estava posicionando as pessoas corretamente. Se eu ficasse no meio, como ele me posicionou, poderiam pensar que eu estava envolvida. Queria apenas me defender.
- Sua teoria faz sentido, porém acho que você deveria dar um desconto. As luzes estavam apagadas e as pessoas costumam se movimentar na hora da apresentação. Não estamos em um teatro. – levantou por alguns segundos e ao sentar novamente concluiu - Ele fez o melhor que pôde.
- Pensando dessa forma, você pode estar defendendo um possível culpado.
- Ora, ora, acredita mesmo que Wellington seja o culpado? Ele estava muito próximo ao vocalista e já ficou provado que o culpado, ou a culpada, estava distante.
- E se ele esticasse o braço, - com o braço direito a jovem mostrou o possível gesto de Wellington na hora em que o amigo foi baleado -, ou se movimentasse para dar certa distância? Estava completamente escuro e ninguém iria perceber.
- O tiro veio da plateia. Eles estavam de costas, - o detetive explicou, enquanto imaginava a cena – se Wellington movimentasse, ele teria caído... A não ser que William fizesse isso, então...
- Então?
- É isso. – ignorou a pergunta. Seria mais fácil assim. - Acabei de descobrir quem queria assassinar William. Na verdade já estava entre os meus suspeitos, só que pensava ser apenas um cúmplice.
- Quem?
- Logo você ficará sabendo. – levantou com pressa e caminhou até a saída do camarim. Antes de deixar o local ainda disse para a garota: – Ah, acho que você deveria trocar de cabelereira, porque a sua fez um trabalhinho de merda. Onde já se viu pintar seu cabelo de loiro e deixar fios castanhos atrás da orelha?
A jovem se assustou. Não esperava que o detetive percebesse que ela usava uma peruca loira. Na verdade sua torcida era para que ele não tivesse notado. Sabia que seria ingênua se pensasse dessa forma, afinal, não era uma pessoa qualquer – era Franccesco Fracalossi.
Ela entendeu na hora que Franccesco a acusaria, ou descobriria seu envolvimento com o que aconteceu horas antes. Ficou revoltada consigo mesma, afinal, entrou naquela confusão sabendo que os companheiros iriam prejudicar William. Só não esperava que fossem tão longe.
Se pudesse, voltaria algumas horas antes e recusaria o convite. Sua única participação foi na escolha das perucas e esse simples gesto poderia colocá-la na cadeia. Ela sabia que se descobrissem seu envolvimento, esse seria seu destino.
Refletiu sobre o assunto e decidiu fugir. Tentou, mas a exemplo de Priscila horas antes, ela também foi barrada por dois policiais que apareceram para não deixá-la escapar. Francesco se mostrou mais esperto do que ela esperava e agora tinha uma única escolha: pensar em uma boa e convincente desculpa. Não seria fácil. Ela sabia.
* * *
Ao deixar o camarim, o detetive italiano voltou ao palco principal da casa de shows para buscar todas as pessoas que tinham real interesse em descobrir a verdade. Pediu para que Thaís Fontaine e alguns policiais fossem ao camarim preparados para prender os culpados. Também chamou Priscila, a namorada de William, que não via a hora de deixar o local. Não queria mais rever o namorado e sim ir para casa esperar por boas notícias. Por fim, o detetive chamou os integrantes da banda – incluindo Wellington, por quem conquistou grande empatia -, que precisavam saber quem queria matar o vocalista.
Em seguida, o detetive pegou o microfone novamente. Não estava acostumado a isso, mas seria necessário para conversar com as demais pessoas, que eufóricas aguardavam pela solução do mistério. Sem enrolar, disse:
- Como disse alguns minutos atrás, estava perto de descobrir a verdade. Tinha certa dúvida, e felizmente ela já não existe mais. – pausou por alguns instantes – Preciso que você, de cabelo louro e usando um vestido tomara-que-caia me acompanhe. – uma nova pausa - Os demais estão dispensados. Obrigado pela compreensão de todos. Buona notte.
Todos ficaram sem entender a reação do detetive, e nem por isso hesitaram em deixar o local. A bela jovem, que usava um provocante vestido vermelho capaz de deixar qualquer homem maluco se revoltou e tentou relutar, sendo repreendida por Thaís Fontaine, que usou de sua autoridade para levá-la ao camarim. Ela ainda precisava ter a mesma atitude com o amigo e fuzilando-o com os olhos ironizou:
- Eu acho que a idade não está fazendo bem a você. Que porra foi essa?
- Já disse: você me chamou e eu faço as coisas do meu jeito. Vamos voltar ao camarim que você tem três prisões a fazer.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)