- O Início do Fim –
Após trabalhar para que tudo estivesse pronto, Thaís Fontaine deixou a casa de shows e encontrou Franccesco Fracalossi que a esperava sentado em uma mureta. Já passava das seis horas da manhã e os primeiros raios de sol surgiam do horizonte. Luciano, o baterista, e Gabriela já estavam dentro de um veículo da polícia, algemados e esperando que fossem levados a uma delegacia. Jéssica também esperava e, para sua felicidade, sem que fossem necessárias as algemas. Seria vergonhoso para uma possível vítima.
O corpo de Franccesco pedia por descanso. Como não teve tempo suficiente para dormir, podia-se dizer que estava há quase 24 horas acordado e trabalhando muito. Precisava de uma xícara de café, um banho e uma cama para se jogar e dormir sem ter hora para acordar. Ao mesmo tempo em que seu corpo pedia por uma pausa, seu coração queria que ele fosse ao hospital para se encontrar com dona Márcia e dar todo o apoio que a mãe necessitava naquele momento. Desde o enterro do marido de Márcia que Franccesco não a encontrava e era um bom momento para mostrar que a amizade continuaria mesmo com a ausência do mentor da família Herz.
Ele estava preocupado com William. Lembrava-se do menino carinhoso que anos antes o admirava e fazia diversas perguntas sobre suas investigações. Os anos se passaram e as famílias acabaram se afastando, porém todos tinham um pequeno espaço guardado dentro do peito do detetive italiano, que assim como seus pais, procurava ser amigo de todos. Seu coração era grande e tinha espaço suficiente para todos. Carregava o mundo em seu coração se fosse preciso.
Antes daquela noite, Franccesco não podia imaginar que William havia se tornado um péssimo exemplo e uma má influência, no entanto não era novidade que o dinheiro tinha o poder de prejudicar a vida de pessoas como o rapaz. O que o consolava era saber que o jovem havia tomado jeito e agora era um importante empresário. O mais jovem e bem-sucedido do país. Independente de onde estivesse o amigo de Franccesco deveria estar orgulhoso pelas conquistas do filho e tudo o que ele estava conquistando para a família; orgulhoso por ser uma boa pessoa, mesmo com diversas opiniões contrárias.
Ao ver seu melhor amigo sentado, Thaís Fontaine foi até ele, o abraçou e agradeceu:
- Franccesco, mais uma vez muito obrigada por ter me ajudado. Nem sei como posso te agradecer.
- Que tal me pagando? – a expressão da delegada era de poucos amigos. Ele tentou novamente: - Dizendo que você não é nada sem mim? – sorriu, envolvendo-a com o braço direito. Abraçados, os amigos caminharam até o veículo de Franccesco.
- Você é muito convencido, sabia?
- Não é a primeira vez que você me diz isso, sabia?
A relação de Franccesco e Thaís era de amor e ódio. Viviam trocando ironias e brigando por besteiras. Seus corações estavam ligados por uma amizade que já durava quase trinta anos. Ele negava, porém sempre que precisava de ajuda, Thaís era sua primeira e única opção. Já ela, não negava a sua dependência, pelo contrário, dizia sempre que pediria ajuda a ele, até mesmo quando isso não fosse necessário. O que Thaís negava era o amor que sentia por Franccesco. O amor de irmão que estava ali para lhe proteger; amor de pai, que sempre iria lhe aconselhar da melhor forma; de primo, para as brincadeiras idiotas que a fariam feliz. Eram unha e carne. Por mais que brigassem, se amavam. Era uma linda e eterna amizade que naquela noite ganhara um novo capítulo.
- Preciso ir. – ele disse ao se afastar de sua amiga - Ana Paula deve estar preocupada e ainda quero fazer uma visita a William. Aliás, você tem alguma notícia?
- Você não vai pegar nesse carro. Você vai dormir em casa e quando acordar você volta para Santa Clara. Não quero correr o risco de perder meu amigo. – estava mesmo preocupada.
- Você tem notícias sobre William? – insistiu.
- Não me ignore, Franccesco. Você está cansado e precisa dormir.
- Você tem notícias sobre William?
Franccesco era um homem teimoso e decidido. Tipicamente italiano. Conhecia os riscos e sabia tudo o que podia ou não ser feito. Aquele não era o momento certo para pegar a estrada, por mais necessário que fosse. Ele iria aceitar o pedido de Thaís. Apenas não podia perder a chance de irritá-la, afinal, esse era seu esporte favorito.
Se passaram alguns instantes e Franccesco continuou encarando a amiga, na espera de uma resposta. Ao responder, Thaís estava irritada e ele feliz por alcançar seu objetivo:
- Mandei um policial para o hospital e ele está por dentro de tudo.
- Cazzo, como William está?
- A situação dele é grave. – ela sentou-se no capô do carro de Franccesco antes de prosseguir - Teve uma parada cardíaca algumas horas atrás e por cerca de cinco minutos esteve praticamente morto. Os médicos fizeram um ótimo trabalho, mas...
- Então a coisa foi realmente séria? – a interrompeu.
- Felizmente a bala não acertou nenhum órgão.
Ele gesticulou com as mãos, tentando entender o que havia de fato acontecido. Thaís entendeu o recado e continuou:
- Isso não impediu que ele perdesse muito sangue. Agora precisa de um doador, o que não está fácil de encontrar. Você sabe como nossos hospitais são uma merda.
Franccesco queria novas explicações.
- Ele tem um tipo sanguíneo muito raro.
- Qual?
- O-.
- Se você não quer que eu pegue no volante, me leve para o hospital agora! – ordenou, dando uma volta em direção a porta do passageiro e jogando as chaves de seu carro para a amiga – Vou ser o doador e salvarei a vida de William.
Também estava cansada, entretanto Thaís não poderia recusar ajuda; não era egoísta a esse ponto.
Ela então entrou no carro de seu amigo e em questão de segundos colocou o veículo em movimento. Partiram para o hospital. Após descobrir um assassino, eles precisavam salvar uma vida. Seria a segunda boa ação do dia para a inseparável dupla.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)