- Motivos –
A ironia no tom de voz do detetive apenas aumentou a fúria das garotas acusadas de participar da tentativa de homicídio. Ignorando os policiais, que tentavam evitar a agressão, as garotas continuaram desferindo tapas no italiano e o empurravam tentando descontar a raiva que sentiam. Thaís Fontaine precisou intervir.
A mais interessada em que aquela palhaçada terminasse era Priscila. A namorada de William estava curiosa e ao mesmo tempo com um desejo assassino que não tinha motivos para se orgulhar, mas seria incapaz de cometer qualquer loucura. Sua única atitude foi se aproximar das garotas e enquanto elas continuavam tentando agredir Franccesco, Priscila tirou com facilidade as duas perucas loiras. Seu espanto e decepção foram maiores do que ela podia imaginar:
- Gabriela? – perguntou ao ver o rosto de uma delas. - Jéssica? Não, isso não pode ser verdade... Você está envolvida nisso, Jéh? Sua traíra! – Priscila não controlou a sua raiva. Não teve pena de Jéssica, sua melhor amiga. Quem teria em seu lugar? Com lágrimas nos olhos prosseguiu: – Eu sabia que conhecia esse rosto. Como não pensei nisso antes? – acertou a face esquerda de Jéssica - Pensava que você fosse minha amiga. Sempre confiei em você, sua vagabunda...
- Pri, minha amiga, me deixa explicar. Eu juro, não tenho culpa...
- Amiga é a puta que te pariu. – parecia uma nova pessoa. Quem não a conhecesse poderia ter medo de uma possível aproximação. Não parecia com a garota delicada que encantava a todos, sobretudo a William – Se não tivesse culpa não estaria com essa peruca ridícula.
- Eu posso explicar. Por favor, acredite em mim.
- Geralmente as pessoas não acreditam em pessoas como você. – ela elevou o tom de voz e fuzilando Jéssica com os olhos prosseguiu. Queria mesmo era ter uma AK-47 em mãos. – Como não pensei nisso antes? Você sempre o criticou e não aceitava que eu continuasse com ele... Precisava chegar a esse limite? Ele pode estar morto, sua desgraçada! Você é uma maluca!
- Estou dizendo que não faço parte disso. – disse, sem a intenção de repetir novamente.
- Con licenza, - era Franccesco, com o sotaque italiano que nunca deixou de existir em seu tom de voz – vamos nos sentar e deixar ela se explicar. Todos merecem esse espaço, Priscila.
Com toda a educação que herdara de seus pais, ele acompanhou Priscila até um dos cantos da sala e deu a oportunidade para Jéssica se explicar. Também estava nervosa. O arrependimento estava claro em seus olhos e na dificuldade de expressar suas palavras. Procurava as palavras certas para se defender, mesmo sabendo que ninguém iria acreditar em nada do que dissesse. Já estava desistindo e pensando na possibilidade de não se defender quando o baterista da banda tomou a palavra. A maioria não queria ouvir a voz de um assassino, porém era realmente necessário. Os motivos eram mais importantes do que qualquer revolta ou implicância.
- Ela não tem nenhuma relação com o que aconteceu hoje. Pode parecer estranho, mas mentimos para ela. Nós... Gabriela e eu, sabíamos que Jéssica não gostava de William e isso poderia ser um ponto positivo para nós. – ainda sentado, continuou sua explicação – Assumo a culpa e vou responder por tudo o que fiz. Só peço que acreditem na inocência de Jéssica.
- Interessante, mio caro – Franccesco ironizou.
- Na verdade também não tenho culpa. A ideia não foi minha. Eu realmente amo essa garota, - apontou para Gabriela – e vi uma chance de conquistá-la. Foi o que pensei ao aceitar...
- Como vocês prepararam tudo isso? – Thaís o interrompeu.
- Isso não interessa delegada. Nossa intenção era matá-lo e acabar com o legado de um mocinho falso. Na verdade ele não passa de um idiota que se acha o fodão por ter dinheiro. Pensa que pode comprar tudo com a merda do dinheiro.
- Ele pode. – Thaís voltou a falar - O dinheiro é capaz de tudo e você deveria saber disso.
- Sim, ele realmente é capaz de tudo. O dinheiro só não pode definir o caráter de uma pessoa.
- Quem é você pra falar de caráter? – Priscila e Franccesco perguntaram juntos e gargalharam ironicamente.
O baterista da banda preferiu não responder e o silêncio tomou conta do camarim. Em cada olhar, perguntas que tinham suas respostas ocultas pela falsidade e pela maldade do ser humano; em cada coração, um sentimento angustiante. Estar próximos a pessoas frias capazes de atitudes desumanas era doloroso. Queriam entender o que motivava o lado assassino das pessoas. Isso ninguém teria condições de responder. A frieza de uma pessoa cria limites e mistérios que nem especialistas compreendem.
O silêncio mortal e que anunciava a presença de assassinos teve fim com a voz de Franccesco:
- E você, não vai dizer nada?
- Não tenho nada a dizer. – Gabriela respondeu. – Por anos aquele desgraçado me humilhou. Quis apenas dar o troco. Pena que esse incompetente não acertou em cheio – sorriu com falsidade e ironia.
- Chega a ser nojento olhar para essa sua cara imunda! – o italiano não costumava guardar suas opiniões. Naquele caso não poderia ser diferente, por isso se aproximou e ficou cara a cara com Gabriela. Ele sentia o hálito fresco da garota quando continuou: – Saiba que William nunca esteve errado em te humilhar, aliás, deveria ter feito pior. Espero que você mofe atrás das grades.
O detetive se afastou da garota, olhou aos policiais e ordenou:
- Algeme os dois e leve nossa doce garota para prestar um depoimento. – dirigiu o olhar para Jéssica – Você vai precisar passar por isso, mas não se preocupe, eu sei que você não tem culpa. A delegada fará o que for possível para te liberar o quanto antes.
- Vou ser presa? Isso não pode acontecer. Eu também sou uma vítima.
- Ninguém está questionando isso. – não reparou que poderia estar sendo grosseiro – Será necessário alguns procedimentos para evitar que isso aconteça. Até o entardecer você precisará ficar na delegacia.
- Preciso de um advogado?
- Serei seu advogado e vou te livrar dessa situação. – pausou e caminhou em direção a porta do camarim antes de prosseguir – Thaís, preciso voltar para Santa Clara.
A delegada correu até ele e teve inicio uma nova conversa entre os amigos. Os ânimos estavam mais calmos e em nenhum momento Franccesco a criticou. Ele estava satisfeito por encerrar, em questão de horas, mais um caso que poderia ajudar em seu futuro. Só tinha o que agradecer a Thaís. Graças a ela poderia ter mais um item em sua longa lista de sucessos investigativos. Seu legado continuava sendo construído.
Com sinceridade disse:
- Obrigado por me chamar, Thaís. – ele se aproximou da amiga e lhe deu um beijo em sua face esquerda – Não é a minha melhor experiência, porém gostei de participar disso. – um beijo na outra face – Agora pague o que você me deve.
- Vai te catar, Franccesco. – Thaís o afastou – Você sabe que não contratei os seus serviços. Apenas pedi sua ajuda. Você nunca ganhou dinheiro nas minhas custas. Dessa vez não será diferente.  – a delegada deu as costas ao seu amigo – Vou voltar ao camarim que tenho algumas prisões a fazer.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)