- A verdade –
Antes que chegassem ao camarim onde todos esperavam por respostas, Franccesco pensou na maneira correta de revelar a verdade. Não podia dizer algo que pudesse assustar e nem mesmo irritar os envolvidos na tentativa de homicídio. O melhor a se fazer era explicar tudo calmamente e no final, quando menos esperassem, pedir para que Thaís Fontaine e seus subordinados algemassem os culpados. Demorou a encontrar a melhor forma de proceder. Era típico do italiano, que preferia fazer tudo com calma. E tem gente que ainda o considera um homem estressado.
Quando entraram no local, o detetive chutou a porta que bateu violentamente e os deixou isolados do exterior. De fato era um homem estressado.
Priscila, ansiosa e ao mesmo tempo com medo de estar próxima a um assassino, estava encostada em um dos cantos. Abraçando-a, Wellington tentava consolá-la e evitar que ela tivesse alguma atitude irresponsável. As duas jovens misteriosas preferiram sentar-se nas poltronas usadas por Franccesco durante o interrogatório. Baterista e guitarrista tentavam intimidar a todos com o rosto fechado e os olhos espremidos. Já os policiais ficaram parados próximos a porta, impedindo que qualquer engraçadinho tentasse uma fuga indesejada.
Sempre com um trejeito autoritário, Thaís Fontaine sentou-se no braço da poltrona usada pelas garotas. Andando de um lado para o outro, Franccesco iniciou seu relato:
- Tre persone. De todos aqui presente, três pessoas estão envolvidas de alguma forma com o que aconteceu mais cedo. Tirando os policiais e nossa delegada, restam os membros da banda e as lindas e simpáticas garotas, o que para mim é uma pena, nunca gosto...
- Você pode estar cometendo um erro ao acusar as garotas. – Wellington o interrompeu.
- Cala boca, Wellington. Deixe-o terminar.
- Grazie, Thaís. – agradeceu a sua amiga sem direcionar o olhar e não entendendo a intimidade entre eles – Como ia dizendo, não gosto de ver mulheres envolvidas em crimes como esse. Sabemos que elas não são santas e cometem loucuras, principalmente por amor. – Priscila escondeu o rosto com a mão, sentindo que aquilo era uma indireta – Mulheres também cometem crimes por simples ódio. O antigo ódio que causou guerras e destruição também silencia pessoas maravilhosas e o objetivo do nosso assassino, ou assassina, foi justamente este.
- O que todos querem saber, - continuou – é o que levou essa pessoa a tentar assassinar William, que pelo que percebo, é um rapaz complicado, não deixando de ser uma boa pessoa. Infelizmente posso dizer o motivo de apenas uma pessoa. – parou no centro do camarim e lentamente girou em 360°, olhando cada um dos suspeitos. Só então prosseguiu. – Como disse, temos mais de uma pessoa envolvida. Por que digo isso? Simples: nenhum crime é cometido com essa perfeição se o culpado estiver trabalhando sozinho. É claro que todo crime tem seus erros e neste caso não é diferente... Bom, isso não interessa.
- Olhando para vocês, - Franccesco voltava a encarar cada um deles – vejo medo, revolta, ansiedade e culpa. É fácil perceber quando alguém está com vergonha ou arrependido do que fez. Infelizmente, na maioria das vezes, esse arrependimento é tardio. Agora William está em uma cama de hospital, entre a vida e a morte, graças a estupidez de alguns idiotas que se acham donos do mundo. Mas ninguém é dono do mundo e por isso o destino dos culpados é a cadeia.
- Francesco, direto ao assunto, por favor. – era Thaís, com medo do que Franccesco poderia fazer.
- Claro, vamos ao que interessa. – Franccesco finalmente parou no centro do camarim – Uma coisa é certa: a tentativa de homicídio não poderia ser concluída se não houvesse duas pessoas em lugares diferentes. Como ficou provado na reconstrução, para que a luz se apagasse alguém precisava estar próximo ao gerador; e para William ser baleado, alguém precisava estar a certa distância do palco. Isso de fato aconteceu e nunca foi segredo.
- Outra pergunta feita era quem teria a capacidade de acertar o tiro com a escuridão que tomava conta do local. A resposta também é simples: aquele que tivesse certeza da posição de William no palco. E quem saberia disso? Alguém que conhecia os costumes de William. Podem ter certeza que não era um fã qualquer. É justamente por isso que surgiu a suspeita de que Priscila estivesse envolvida.
- Eu não estou envolvida. Quantas vezes preciso dizer isso?
- Então por que essas duas garotas estão aqui? – Wellington ignorou a jovem e perguntou, apontando para as demais garotas – Elas nunca vieram aos shows.
- Sim, elas vieram, Wellington. Elas são tímidas, não é mesmo? – apenas assentiram – Continuando... Já que o Wellington gosta de interromper, vou resolver as coisas para o lado dele. Ele e William tinham suas desavenças, o que geraria motivo para um assassinato, porém o tiro não foi à queima-roupa. Surgiu então a teoria de que ele tivesse se movimentado, pensando justamente na possibilidade de livrar sua culpa. Isso sim seria possível, caso o tiro não tivesse acertado as costas de William. Como sabemos, caso Wellington se afastasse, cairia do palco e o tiro dificilmente teria acertado o seu alvo. Foi pensando dessa forma que descobri quem é o culpado.
- Claro que essa pessoa não iria cometer o erro de ficar com a arma do crime e precisava esconder o mais rápido possível. Era uma das únicas pessoas que conseguiriam esconder a arma em pouco tempo e foi o que fez. – uma pausa e se aproximou dos membros da banda – E se ao invés de Wellington ter se movimentado, William ter feito isso? Afinal, sua namorada estava na plateia e como um bom homem apaixonado, pensar no perigo que ela corria o assustou, tanto que ele perguntou sobre ela. Graças ao medo de que algo acontecesse a Priscila que esse caso ganhou algumas complicações. Nada que impedisse que a verdade fosse revelada, afinal, sou Franccesco Fracalossi e costumam dizer que sou um detetive fantástico.
- O que você faria se estivesse de costas e percebesse que algo errado poderia estar acontecendo com sua namorada? – perguntou ao baterista e ao guitarrista da banda.
- Procuraria por ela, mesmo que a escuridão atrapalhasse. – foi a resposta de ambos.
- Exatamente isso que William fez e impediu que você o matasse com apenas um disparo. – apontou para o baterista.
- Você está louco? Por que eu faria isso? Eu amo aquele cara como se fosse meu irmão.
- Não duvido disso. Mas sabemos que um homem apaixonado faz tudo pela mulher amada, inclusive assassinar um amigo. Você sabia que William iria virar para o público, em busca de respostas pela escuridão, e quando a investigação tivesse início, todos iriam pensar que o tiro veio da plateia, por isso acertou as costas. E em quem a culpa cairia? Na namorada, é claro. Agora eu te pergunto Thaís: o que Priscila tem a ganhar com a morte do namorado?
- Exatamente nada. Não são casados. Ela não tem direito a nada.
- Como você pode ter certeza que ele se virou? E se ele continuou olhando para o telão e o tiro veio de quem assistia ao show?
- Wellington, você entende tudo de música, não é mesmo? – ele confirmou com a cabeça – Se algum integrante fosse esconder a arma do crime em um instrumento, quem teria mais chance de fazer isso?
- O... O... – os segundos passaram e a pergunta continuou sem resposta.
- Cazzo, fala de uma vez! – perdeu a paciência e gritou.
- O baterista. Bastava rasgar a pele do surdo e colocar a arma. Ninguém pensaria em procurá-la.
- Ache a arma do crime e descubra se tenho realmente culpa.
- Wellington, qual o único integrante que usa luva na banda de vocês? – perguntou novamente.
Wellington não se manifestou. Sabia que o baterista era o único que usava luvas nas apresentações da banda e não queria prejudicar um amigo, por mais que este fosse um assassino. Sentiu um aperto no coração por pensar que ele queria ver William morto. Preferia pensar que a intenção era matá-lo, contudo o baterista nunca engoliu a mudança de estilo da banda e culpava William por isso. Teria motivos para assassiná-lo. Se ele fosse matar alguém, esse alguém seria o vocalista, que transformou a banda de hardcore em algo próximo as músicas emotivas. Wellington não tinha dúvidas disso.
- Grazie, Wellington. Às vezes o silêncio é a resposta necessária para todas as nossas perguntas.
- Franccesco, quem são as duas outras pessoas envolvidas? – Priscila perguntou, aliviada por não ser mais acusada pelo crime cometido contra seu namorado.
- As duas pessoas que estão com perucas. – apontou para as jovens sentadas na poltrona, que se levantaram e instintivamente partiram para cima de Franccesco. Alguns tapas o acertaram e isso apenas aumentou o seu divertimento. Gargalhando, disse com um tom irônico: – Como se bater em mim pudesse tirar a sujeira que está em vocês. Vocês são podres iguais ao pulmão de um homem que passou a vida fumando. Vocês não prestam para nada, nem mesmo para matar alguém com eficiência. - sorriu de orelha a orelha - Medíocres!
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)