Quis o destino que a temporada mais equilibrada da história da Fórmula 1 terminasse em uma corrida que pode ser considerada a mais emocionante da história. E mais uma vez ficou provado: Interlagos é um espetáculo a parte.
No início do ano, quando as equipes preparavam seus carros para a 63ª temporada da principal categoria do automobilismo, ninguém apostava que a Fórmula 1 pudesse voltar a ser disputada corrida a corrida; ninguém imaginava  que um piloto da Ferrari, escuderia italiana que no último ano conseguiu apenas uma vitória, chegasse na última corrida com chances de título. Mas o que o espanhol Fernando Alonso fez ao longo da temporada foi apenas o retrato de um ano em que não houve um soberano. Seja entre pilotos ou construtores.
No GP da Austrália, primeira corrida da temporada, a Pole Position de Lewis Hamilton e a vitória de Jenson Button, ambos britânicos, deu a falsa ideia de que a McLaren estaria na disputa até o final, já que a Ferrari ainda aparentava não ter condições de levar seus pilotos muito longe. Essa ideia passou a mudar logo na corrida seguinte, no GP da Malásia, quando Fernando Alonso venceu sua primeira corrida no ano.
Por mais cinco corridas o vencedor não se repetiu. Nico Rosberg (Mercedes), Pastor Maldonado (Williams), Lewis Hamilton e os dois pilotos da RBR, Mark Webber e Sebastian Vettel, conseguiram chegar na primeira posição nas corridas seguintes. Até então, Vettel, grande favorito ao título, não mostrava o mesmo rendimento de 2011, quando foi bicampeão (Imagem da Semana 41#) de forma incontestável.
O primeiro a vencer duas vezes na temporada foi o próprio Alonso, quando subiu ao lugar mais alto do pódio no GP da Europa. Feito que conseguiu novamente duas corridas depois, na Alemanha. As três vitórias de Alonso tiraram de Vettel seu favoritismo e faltando nove corridas para o final, todos apostavam no tricampeonato de Fernando Alonso das Astúrias. Só se esqueceram do talento de Sebastian Vettel.
A partir da segunda metade do campeonato o rendimento de Alonso caiu, enquanto Vettel voltou a ser o grande nome da temporada. O primeiro passo para uma reviravolta aconteceu no GP de Cingapura, onde Vettel conquistou a primeira de uma série de quatro vitórias. Faltando três corridas para o final, Vettel já estava na frente de Alonso com uma diferença de 13 pontos.
Alonso, que no primeiro momento era a caça, se tornou o caçador. Com 75 pontos em disputa, ele precisava tirar essa diferença caso quisesse conquistar o seu tricampeonato da Fórmula 1. Ao subir no pódio em Abu Dhabi, mostrou nos dedos da mão que faltavam duas corridas; nos Estados Unidos fez o mesmo, mas agora faltavam apenas uma corrida e ele estava a 13 pontos do líder Vettel. Para Alonso, restava apenas contar com sua inegável sorte e com as situações que só acontecem em Interlagos. E que em 2012 voltaram a acontecer.

A Corrida do Título
Um dos fatores que poderiam ajudar Fernando Alonso era a chuva, elemento comum no GP do Brasil. Mas, além de torcer por água, o espanhol precisava vencer e torcer para que o líder do campeonato chegasse ao menos em quinto. Uma tarefa difícil até mesmo para o sortudo Alonso.
Logo na largada, a Ferrari mostrou que iria lutar bravamente para que seu piloto fosse o campeão. Os ferraristas partiram pra cima. Alonso subiu de sétimo para quarto, enquanto Felipe Massa do quinto passou para o segundo lugar. Atrás deles, Sebastian Vettel bateu no brasileiro Bruno Senna (Williams) e caiu para a 20ª posição. Fernando Alonso pôde sentir o gostinho do título, mas isso durou muito pouco.
Como já havia acontecido em outras corridas, Vettel fez uma brilhante corrida de recuperação e não demorou muito para ultrapassar os carros lentos das pequenas equipes da categoria e chegar à zona de pontuação.
Cerca de quinze voltas depois do início da prova, a chuva apertou. Isso era tudo o que Alonso queria. Todos os pilotos foram obrigados a entrar nos boxes para a troca de pneus, porém a chuva logo parou e Nico Hulkenberg (Force India) e Button, que não pararam, se deram bem. Eram os líderes, seguidos por Hamilton, Alonso e Vettel quando o Safety Car entrou na pista na 23ª volta e ali permaneceu por mais seis.
Na relargada, novamente com a pista molhada, Vettel não deu resistência para as ultrapassagens de Kamui Kobayashi (Sauber) e Massa. O alemão parecia saber que o sétimo lugar seria suficiente para o seu título.
Pouco tempo depois, a chuva era forte quando Hamilton ultrapassou Hulkenberg e pulou para a primeira posição. Atrás, Vettel não conseguia se comunicar com sua equipe, mas recebeu ordem para entrar no box para a troca de pneus. Uma decisão arriscada de um piloto que sabia que qualquer falha – na pista ou na estratégia – poderia resultar na perca do título. Ele voltou em décimo e precisava novamente se recuperar.
Nas primeiras posições, Hamilton, que fazia sua última corrida pela McLaren teve tempo de saborear a liderança por apenas algumas voltas. Isso até carros retardatários apareceram na sua frente e durante uma curva, ele acabar se chocando com Hulkenberg, que tentava recuperar a primeira posição. Pior para Hamilton, que se despediu da equipe onde passou grande parte da sua vida abandonando uma prova; Hulkenberg, que de qualquer forma fazia uma prova excepcional, precisou passar pelos boxes como forma de punição.
Nessa altura da corrida, Vettel novamente trocou os pneus e dessa vez voltou em 11º lugar. Com Alonso subindo ao pódio, o título seria do espanhol, mas ainda faltava muita corrida pela frente e ele também precisou parar.
Voltando na mesma posição, o espanhol não se esforçou para ultrapassar Felipe Massa e com a 2ª posição, era preciso que Vettel chegasse ao menos em oitavo para que o título permanecesse com Alonso. Buscando recuperar o título, Vettel ultrapassou cada um dos pilotos a sua frente, até que chegou Michael Schumacher (Mercedes). Quem pensava que o heptacampeão pudesse dar alguma resistência ao compatriota se enganou. Ao ultrapassar Schumacher e garantir a 6ª posição, apenas uma vitória de Alonso tirava o título do alemão.
Com 21s atrás de Button, a missão de Alonso era praticamente impossível e tudo piorou quando Paul Di Resta (Force India) se acidentou e o Safety Car voltou à pista, faltando duas voltas para o final. O título de Vettel estava garantido, porém ninguém de sua equipe ousou comemorar. Na última curva, o carro de segurança deixou a pista para que os pilotos passassem pela bandeira quadriculada. Faltando uma curva e agora apenas 2s atrás do líder, havia uma pequena chance de Alonso ultrapassar Button, mas o samurai espanhol nem tentou e com isso Sebastian Vettel se tornou o piloto mais jovem a conquistar um tricampeonato, ficando com três pontos a mais do que Alonso. Além de Button e Alonso, Felipe Massa também subiu ao pódio e ficou visivelmente emocionado por mais uma vez estar entre os três melhores em uma corrida no Brasil.
Com o título, Vettel ainda se igualou a Michael Schumacher (2000-2001-2002) e o argentino Juan Manuel Fangio (1954-1955-1956) como os únicos a conquistarem três títulos seguidos. Sua equipe, a RBR, também conquistou o tricampeonato de construtores, deixando Ferrari em segundo e McLaren logo atrás.

Despedida de um gênio
Após conquistar sete títulos, cinco deles seguidos, Michael Schumacher se despediu da Fórmula 1 em 2006. Para os amantes da categoria, um piloto que faria muita falta, mesmo com todas as suas características que muitas vezes não agradou. Longe da categoria em que se tornou rei, continuou ligado ao automobilismo, participando de treinos da Ferrari e também de provas importantes de kart, por exemplo. Em 2009, foi anunciado como novo piloto da Mercedes e no ano seguinte voltou para a Fórmula 1.
Nas três temporadas após o seu retorno, Schumacher não repetiu as mesmas atuações de quando era mais jovem e subiu apenas uma vez ao pódio. Um retorno talvez desnecessário, porém que deu mais uma chance dos amantes do automobilismo rever um dos seus maiores gênios. Com a sétima posição no GP do Brasil, Schumacher se despede de vez das pistas e mesmo com um desempenho abaixo do que o esperado, o gênio fará muita falta.