Um escritor sabe que é impossível escrever sem usar referências de sua própria história ou de sua personalidade. Alguns inclusive usufruem desses elementos para fazer críticas e aproveitam para contar sobre os vários níveis de uma sociedade. Em apenas 41 anos de vida, Afonso Henrique de Lima Barreto tratou a pobreza e a riqueza de um Rio de Janeiro não tão distante de nosso tempo.
Filho de um tipógrafo nascido escravo e de uma professora filha de escravos, Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, sete anos antes de a escravatura ser abolida no Brasil, e com apenas seis anos perdeu a mãe. Após essa perda, seu pai passou a trabalhar dobrado para sustentar os quatro filhos e sua relação com o Visconde de Ouro Preto, padrinho do jovem Afonso, rendeu ao futuro escritor uma educação de qualidade, algo que poucos conseguiam na época.
Apesar de ter todos os seus estudos custeados pelo padrinho, Lima Barreto passava grande parte de seu dia na Biblioteca Nacional e também por isso não conseguiu concluir o curso de Mecânica. Uma de suas primeiras fontes de renda foi como amanuense no Ministério da Guerra, que foi também quando passou a colaborar com a imprensa, sendo que a primeira vez foi em 1902, então com 20 anos.
No início a participação do escritor era em pequenos jornais, porém não demorou a escrever também para os principais jornais da época, como o Correio da Manhã, que circulou entre 1901 e 1974. Consta inclusive que a inspiração para seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (Skoob), surgiu na redação do jornal.
Publicado em 1909, o livro possui traços autobiográficos e retrata o racismo, a corrupção, a injustiça e outros graves problemas que atingiam a sociedade jornalística da época. Isaías Caminha, o narrador, desabafa sobre a realidade usando o sarcasmo e a ironia, em uma obra de ficção que facilmente pode ser vista com uma história real.
Dois anos mais tarde, Lima Barreto iniciou a publicação, em folhetins, de sua obra mais importante: Triste Fim de Policarpo Quaresma (Skoob). Seu Magnum Opus tem como principal tema o nacionalismo e critica, entre outras coisas, o governo de Floriano Peixoto, segundo presidente do Brasil.
O protagonista é um homem sonhador e que acredita ter o poder de mudar o país para melhor, porém com algumas ideias improváveis, que não o impedem de ser um dos personagens mais característicos de nossa literatura. Considerado por alguns como um livro monótono e por outros uma verdadeira obra-prima, Triste Fim de Policarpo Quaresma ganhou uma adaptação cinematográfica em 1998, quando Paulo José interpretou o principal personagem da obra de Lima Barreto no filme Policarpo Quaresma, Herói do Brasil.
Apesar da atual importância das duas obras citadas, na época Lima Barreto foi criticado por grande parte dos famosos escritores por fazer uma literatura diferente e não atingiu qualquer tipo de sucesso, sendo rejeitado em suas candidaturas para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Sendo assim, o reconhecimento do escritor carioca só aconteceu após a sua morte.
Ao longo de seus 41 anos, Lima Barreto publicou oito livros e teve outras dez obras publicadas postumamente, entre elas Clara dos Anjos (Skoob) de 1948. Nessa obra, o autor narra a história de uma garota ingênua e frágil que querendo descobrir sobre a vida, acaba sendo enganada. Além disso, Clara dos Anjos também faz uma crítica a forma como os negros eram vistos pela sociedade.
Lima Barreto tinha uma forte ligação com o anarquismo e socialismo, que também estiveram presentes em sua vida literária. Vida essa que chegou ao fim em 01 de novembro de 1922, quando uma profunda depressão e o alcoolismo resultaram em crises psiquiátricas que acabaram causando a sua morte prematura. Lima deixou uma vasta obra como romancista, contista e cronista, e depois de décadas de seu falecimento ainda é considerado um Imortal da Literatura. Se no passado Lima Barreto sofreu pelo preconceito, no presente é um verdadeiro gênio de nossa literatura.

“Havia-me preparado para todas as eventualidades da vida. Imaginei-me amarrado para ser fuzilado, esforçando-me para não tremer nem chorar; imaginei-me assaltado por facínoras e ter coragem para enfrentá-los; supus-me reduzido à maior miséria e a mendigar; mas por aquele transe eu jamais pensei ter de passar. Como é difícil controlar o amor.” – Lima Barreto

Lima Barreto - 13/05/1881 - 01/11/1922