Corcovado: A Conquista da Montanha de Deus, Jorge Scévola de Semenovitch, 3ª edição, Rio de Janeiro-RJ: Lutécia, 2010, 160 páginas (total 192)

Mineiro de Belo Horizonte, Jorge Scévola de Semenovitch é arquiteto e trabalhou como auditor fiscal da Receita Federal. Como autor, escreveu o livro Viagem à História da URSS (1974), prefaciado por Juscelino Kubitscheck, e Corcovado: A Conquista da Montanha de Deus, publicado originalmente em 1997, e fruto de estudos e de seu trabalho na diretoria da Estrada de Ferro do Corcovado.
O Corcovado, bem como a imagem do Cristo Redentor, é o retrato do Brasil no exterior e parte disso devido a importância turística, religiosa e social que morro e monumento conquistaram ao longo dos anos. Em Corcovado: A Conquista da Montanha de Deus, Jorge Semenovitch faz um grande relato de toda a história do Corcovado, desde as aventuras da família real no século XIX, até o momento em que o Cristo Redentor se tornou uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo, em 2007.

“Quase um ano depois, no início de setembro de 1923, foi promovida por D. Sebastião Leme, com o apoio de toda a população, a “Semana do Monumento”. De toda a Cidade e de vários pontos do País, surgiram contribuições, os óbolos, as esmolas, para a construção do Monumento ao Cristo Redentor [...] Encerrada a campanha, mais de mil contos de réis haviam sido arrecadados, quase a metade do que era necessário para toda a obra (2.500 contos de réis ou cerca de 400.000 dólares daquela época)” (pág. 42).

Com prefácio de Luiz Paulo Fernandez Conde, escrito para a primeira edição, o livro inicia revelando que o primeiro homem branco a chegar ao cume do Corcovado foi o príncipe D. Pedro, antes de proclamar a Independência do Brasil, em 1822. Mas a importância da família real para um dos nossos maiores símbolos ganharia um novo capítulo, quando no governo de D. Pedro II surgiu a ideia de construir uma estrada de ferro que levasse ao alto do grande morro. A tarefa não foi fácil, porém não demorou até que essa estrada de ferro se tornasse uma referência mundial por sua estrutura – vale lembrar que o morro possui 710 metros de altura, por isso a construção foi ainda mais difícil.
Da inauguração, em meados da década de 1880, até a construção do Cristo Redentor, inaugurado em 1931, foram longos anos de luta para que essa ideia fosse levada a sério. Houve inclusive críticas em relação aos possíveis monumentos que seriam construídos, e várias discussões até que a imagem atual fosse escolhida, sem existir qualquer referência de uma determinada religião. Um dos responsáveis pela construção do Cristo Redentor foi o cardeal Sebastião Leme, biografado na obra História Sincera de Dom Sebastião Leme (Resenha).
Após a inauguração, o Cristo Redentor não demorou a se tornar um símbolo nacional. Foi visitado por importantes nomes da igreja, por príncipes e reis, políticos e artistas do mundo todo, e por turistas, que também apoiaram a candidatura do monumento na votação que o colocou entre as Maravilhas do Mundo.

“- “Ah! Moço, a gente vê tanta coisa... Quantos amores desfeitos, quantos lares foram desmanchados... Uma vez, um fugitivo da polícia escondeu-se lá em cima. Ninguém o encontrou. Tempos depois, encontraram um esqueleto no meio da mata. Ah, se este Cristo falasse...” (pág. 61).

Assim como Laurentino Gomes1822 (Resenha) -, Jorge Semenovitch tem uma forma característica de escrever, fazendo com que seu livro ganhe um tom jornalístico e por vezes se torne um texto romanceado. Isso acontece, em partes, devido à forma como Jorge se refere a ele mesmo, usando a expressão “o autor”. Apenas na parte exclusiva da versão revisada que são usadas palavras em 1ª pessoa, segundo o autor por ele ter presenciado todos os acontecimentos posteriores ao lançamento original de sua obra.
Por seu estilo de escrita, a leitura se torna rápida e agradável, porém as inúmeras vezes em que são citados nomes de pessoas ou anos importantes para a história do Corcovado, tudo fica mais confuso, já que é necessário retomar a leitura de capítulos anteriores para saber de quem se trata. Porém isso também pode ser visto como um fator positivo, já que Jorge Semenovitch não deixa de lado nenhum fato importante dessa história que deve ser conhecida por todos os brasileiros.
Além disso, o livro inclui fotos raras, como da presença de toda a família real na inauguração da Estrada de Ferro do Corcovado. Fotos da construção do Cristo Redentor, até mesmo a montagem da cabeça que aconteceu em Niterói, também estão presentes, assim como imagens que mostram a presença de líderes da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa, que já realizaram celebrações no alto do Corcovado.
Tirando as principais informações sobre tudo o que envolve esse ponto turístico do Rio de Janeiro, o autor revela detalhes sobre a visita do cardeal Eugênio Pacelli, futuro Papa Pio XII, representando o Vaticano; os importantes pontos em relação ao funcionamento do trem – parte essa bem cansativa de ler -; que caso ficasse mais dois anos sem a manutenção que ocorreu no início da década de 90, a cabeça do Cristo poderia ter ido ao chão; e o mais importante: que durante mais de um século desde a construção da estrada de ferro, nunca houve qualquer acidente ou morte em construções, reformas ou limpezas em toda a extensão do morro, e por isso o Corcovado é considerado a montanha de Deus.

“No alto do seu imenso pedestal rochoso, maravilhosa obra pairando sobre a Cidade, lá está o Cristo Redentor. Recortado sobre o céu azul ou brilhando na amplidão da noite, é a materialização dos sonhos do passado, a lembrança da inspiração e do trabalho de seus idealizadores, o símbolo do Brasil de hoje, projetando a sua luz sobre o futuro” (pág. 108).