- Doação –
Franccesco Fracalossi sempre agradeceu a São Januário, seu santo protetor, por morar em uma cidade pequena onde raramente os carros tumultuavam as ruas e o congestionamento era praticamente inexistente, diferente do que normalmente acontecia na cidade onde estava desde o início da madrugada. O que ele temia ao deixar a casa de shows era enfrentar algum tipo de lentidão no trânsito e que isso dificultasse sua chegada ao hospital. Queria ajudar William Herz o quanto antes e não poderia demorar. Por sorte era uma segunda-feira sem movimento e em questão de minutos os amigos estavam em frente a um grande prédio: o Hospital Camilo Lellis, um hospital particular respeitado na cidade e no país.
Eles deixaram o veículo com rapidez e foram direto à recepção, onde algumas pessoas aguardavam para serem atendidas ou buscavam por informações de pacientes que permaneciam internados. Com toda a educação e charme italiano, Franccesco se aproximou de uma das atendentes e disse que estava ali por causa de William Herz. O plantão da jovem de cabelos negros encaracolados acabara de se iniciar, no entanto a notícia da tentativa de assassinato de um grande empresário corria pelos corredores do hospital e ela não demorou a reconhecer o assunto. Com um sorriso tímido perguntou em que podia ajudar. Quando Franccesco disse que seria o doador de sangue que poderia salvar a vida de William o sorriso da atendente se alargou. Estava encantada pela gentileza do detetive. Os doadores eram cada vez mais raros na região e encontrar alguém capaz de ajudar por livre e espontânea vontade era motivo de alegria para todos os funcionários da saúde.
A jovem saiu de trás do balcão, estendeu sua mão ao detetive e à Thaís, e indicou uma porta para que entrassem. Ela ainda disse:
- Irei ligar para o hemocentro e já encontro vocês. Peço que, por gentileza, me esperem enquanto faço a ligação. – o sorriso continuava estampado em seu rosto – Quero realizar todos os procedimentos possíveis.
- E como ele está? – a preocupação de Franccesco era visível em seu tom de voz.
- O último boletim dizia que sua situação ainda é grave.
- A mãe dele está aqui?
- Ela teve um desmaio e precisou ser atendida. – explicou – Os médicos acharam melhor a deixaram sob observação.
O detetive assentiu e caminhou até a porta indicada pela funcionária, dando espaço para que ela iniciasse os preparativos para a doação de sangue.
Aguardando pela funcionária do hospital, Thaís não poderia deixar de irritar seu amigo um pouco mais:
- Não vai ficar com medo da agulha, Fran? – sorriu, evitando a gargalhada apenas para não atrapalhar os pacientes e funcionários do hospital.
- Quantas vezes preciso pedir para não me chamar de Fran? – respondeu entredentes.
- Ah, eu olho para seu rosto e esse é o único apelido que vem na cabeça.
- Cazzo, que mulher chata! – fez uma careta e se afastou de Thaís - Você não pode perder a chance, não é?
- Ora, Franccesco, não seja assim. Eu sei que você ama esse meu jeito e queria estar comigo o tempo todo...
- Não seja convencida! Sua amizade é importante e eu jamais vou esquecer tudo aquilo que passamos juntos. O que não significa que tenho paciência para aguentar sua chatice. – pausou – Passou da hora de você parar de implicância. Parar de ser criança.
- Também te amo – ironizou.
- Saí da minha casa para te ajudar e você não reconheceu nada do que fiz essa noite. Você só pensa em criticar e fazer piadas desnecessárias...
- Preciso que vocês me sigam.
- Não, não vou te seguir. – respondeu, sem notar uma voz diferente no ambiente.
A atendente já estava ao lado deles esperando para levá-los ao local onde aconteceria a doação que poderia salvar a vida de Wiliam Herz. Quando percebeu o equívoco, o detetive pediu perdão envergonhado. Inventou a desculpa de que estava acordado há muito tempo e aproveitou para também provocar a amiga, que sem o que fazer, sorriu silenciosamente.
Juntos, os três caminharam pelos corredores do hospital. Chegando ao local exato, Thaís Fontaine preferiu esperar sentada em um sofá colocado no corredor. Franccesco e a funcionária adentraram em uma grande sala, que em seu interior havia diversas cadeiras próprias para a doação. Ele foi orientado a se sentar em uma delas e logo as primeiras perguntas foram ouvidas:
- Nome e idade?
- Franccesco Fracalossi, cinquenta anos.
- Suba na balança, por favor. – ele obedeceu, já sabendo que seu peso não passaria dos 80kg - Quando foi sua última doação? – perguntou ao preencher as primeiras informações na ficha que tinha em mãos.
- Há dois anos. – não deu espaço para novas perguntas e prosseguiu – Nesse tempo não recebi transfusões de sangue. Ah, não tenho doenças infectocontagiosas e minha esposa não é soropositivo.
- Está alimentado? – Franccesco assentiu - Tem epilepsia, diabetes ou hipertensão?
O detetive abanou a cabeça e sem deixar a educação de lado, disse com uma expressão de exigência:
- Mia cara, poderia apressar esse procedimento? Já passei por isso várias vezes e posso garantir que não há nada que impeça essa doação. – tocando o ombro da jovem, ele disse: - No final eu respondo, per favore?
Não era o certo a se fazer, porém Franccesco Fracalossi tinha a habilidade de convencer as pessoas com o uso de poucas palavras e com seu olhar marcante. A funcionária do hospital concordou com a proposta do detetive e o deixou sozinho por alguns instantes. A delegada, que ouviu toda a conversa, entrou na sala e repreendeu seu amigo:
- Você está louco? Estamos há horas sem colocar nada na boca e pelo seu silêncio você disse que estava alimentado.
- Eu preciso ajudar uma pessoa – não mostrava arrependimento – Não me preocupo se acontecer algo comigo. Pra mim, o que importa, é ele estar bem e fora de perigo.
- Não posso...
- Nem ouse em abrir essa sua boca. Eu sei o que estou fazendo.
- Espero que realmente saiba – respondeu e o deixou novamente sozinho.
Era um momento para se refletir. Poderia ser uma atitude infantil e essa mesma atitude ajudar uma pessoa, o que seu irmão, anos antes, não teve a oportunidade. Franccesco era feliz por saber que estava sempre ajudando as pessoas em momentos difíceis e naquele momento tinha a chance de ajudar de uma maneira que não estava acostumado. William Herz era jovem e com um futuro brilhante pela frente. O detetive sentia-se na obrigação de ajudar. Acreditava que um dia o mundo iria estar feliz por sua simples e vital atitude. Queria que um dia seu filho olhasse para seu rosto e sorrisse orgulhoso por ter um pai como ele. Queria fazer a diferença na vida de uma pessoa e ser lembrado por isso e não apenas por ser um detetive capaz de desvendar os maiores mistérios de uma morte ou de crimes tão absurdos quanto as próprias.
Não vou desistir aos 45 do segundo tempo – disse com seus botões – Oh, mio San Gennaro, esteja ao meu lado e me proteja, para que tudo saia conforme a minha intenção.
- Bom dia, Franccesco Fracalossi. – foi despertado de seus devaneios por uma voz masculina – Vamos iniciar a doação?
O italiano balançou a cabeça, concordando.
- Parabéns por sua atitude. – o homem disse, enquanto colocava as luvas medicinais em suas mãos – É de pessoas como você que o mundo precisa. Sei que é uma frase muito usada, mas saiba que doar sangue significa doar vida e isso é fantástico. Um gesto muito simples, rápido e seguro que sem dúvidas mostra o comportamento solidário que existe dentro de você. Parabéns!
- Grazie – Franccesco sorriu, satisfeito e orgulhoso de si mesmo.
- Lembrando que o material é todo descartável e que não leva mais do que dez minutos. – colocou o material ao lado de Franccesco e perguntou: - Podemos começar?
Franccesco Fracalossi suspirou, novamente pediu proteção ao seu santo e assentiu. Estava fazendo a segunda boa ação em menos de doze horas e esperava que tudo desse certo para ele e para William, o maior beneficiado com aquela doação.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)