- Inocente ou Culpado? –
Já no estacionamento do hospital, Thaís demonstrou a intenção de irem em carros diferentes e pela primeira vez, desde que começaram a trabalhar juntos, Franccesco Fracalossi foi do contra. Queria ter a agilidade de um carro da polícia. Passou a semana admirando a personalidade de Wellington e imaginar seu envolvimento o deixou descontrolado. Não queria sentir a sensação de ser traído, assim como William Herz sentiu dias antes.
A delegada relutou e foi obrigada a aceitar. Ao entrarem no veículo, Franccesco não se preocupou com a segurança e foi rápido em fazer sua pergunta:
- Cazzo, você sempre pedia para que eu te acompanhasse. Por que mudou isso exatamente hoje?
- Não queria deixar seu carro no estacionamento do hospital. – mentiu ao dar partida e colocar o veículo em movimento – E não pegaria bem se alguém me visse cometendo infrações junto com um homem qualquer. – na verdade queria encontrar com Wellington sozinha e poderia enganar o amigo caso ele estivesse em outro carro.
- Você é uma delegada! – alterou seu tom de voz.
- Sou uma delegada e cometo muitos erros para te ajudar.
- Foi você quem me colocou nessa merda. – repetiu a frase mais uma vez, gritando ao mesmo tempo em que foi jogado de lado pela maneira brusca com que ela fez uma curva – E se não fosse eu, você ainda estaria tentando resolver o mistério.
- Larga mão de ser convencido e idiota. E se você calasse essa boca, faria um bem para todos nós.
Franccesco preferiu não responder. Por algum motivo o clima ficou tenso o suficiente para uma briga desnecessária acontecer e ele não tinha essa intenção. Em silêncio, apenas a observava cometendo loucuras no trânsito. Aproveitou para refletir e tentou entender o que de errado estava acontecendo. Tudo estava bem até que surgiu uma reviravolta no caso. Franccesco conhecia Thaís como ninguém e percebia em seu olhar que algo estava incomodando-a. Só não conseguia enxergar o que e qual seria o motivo para isso.
Em alta velocidade, a delegada fazia manobras arriscadas e ultrapassava os veículos mais lentos, mesmo quando eles não cediam passagem a ela. Ultrapassou o sinal vermelho e não respeitou nenhuma placa de trânsito. Seguiu por um lugar desconhecido, o que assustou Franccesco. Ele ainda permaneceu calado por alguns instantes antes de perguntar:
- Cazzo, onde você está indo? Não deveríamos ir para a delegacia?
- Para de falar cazzo! – não foi um pedido e sim uma ordem – Estamos indo para a casa de Wellington.
- Desde quando você sabe onde ele mora?
- Não te interessa – a resposta veio seca, o que mostrou a intenção de que o silêncio permanecesse. Ele não costumava contrariar uma mulher e respeitou. Não era submissão, apenas respeito. Um dos princípios de Franccesco sempre foi respeitar uma mulher como quem respeita um ser divino, pois a mulher nada mais é do que o ser mais incrível criado por Deus. Para ele, Thaís era muito mais do que isso.
O silêncio deu espaço para que ele continuasse sua reflexão em busca de uma resposta para repentina mudança de humor da amiga. TPM? – perguntou, mas a resposta apareceu em seguida – Não, já aguentei a fera nesses dias e sei que nem assim ela fica tão irritada. Alguma coisa está tirando-a do sério. Só preciso descobrir o que.
O veículo seguia em alta velocidade e o italiano já não tentava se localizar. Seria em vão, já que não conhecia a cidade tão bem. Ficou sem entender onde estava até que o carro parou bruscamente em frente a uma casa, deixando marcas de pneu sobre o asfalto. Os dois desceram do carro e sem pegar uma arma, como os policiais normais fariam, ela tocou a campainha e aguardou que alguém abrisse a porta.
Ninguém apareceu, o que a deixou ainda mais nervosa. Sem hesitar, enfiou o dedo no botão da campainha e assim permaneceu até que a porta do lado de dentro do portão se abriu e revelou Wellington, que parecia ter acordado naquele momento. Vestia apenas shorts e deixava seu abdômen bem definido à mostra, querendo alimentar a autoestima e conquistar os olhares femininos. Limpava os olhos ao se aproximar do portão e abri-lo:
- Aconteceu alguma coisa?
- Não é o que você está pensando. – Thaís o alertou e pressionou os ombros do rapaz, perguntando com agressividade – Cadê a arma?
- Que arma?
- A arma que foi usada para tentar matar William. Ele acordou e disse que você está envolvido. Você tem uma arma, não é mesmo? Cadê ela? Vamos, mostre logo, porra.
- Eu não sei do que você está falando e sim, eu tenho uma arma, que está guardada como sempre esteve.
- Por que você tem uma arma? Não acha que é muito jovem para isso? – era Franccesco.
- A arma é dela e eu já tenho 25 anos, se é o que você quer saber.
- Por que um rapaz como você precisaria de uma arma? – Franccesco pausou – E quem é ela?
- A mãe dele. Ela é minha amiga e também trabalha com a polícia. – Thaís não esperou ser convidada para entrar na casa. Passou então a procurar a arma escondida, jogando tudo que encontrava ao chão. O italiano a seguiu, tentando acalmá-la; Wellington fez o mesmo, tentando entender o que estava acontecendo – Onde você escondeu a porra da arma?
- Se você puder parar de jogar as minhas coisas eu iria agradecer. – a repreendeu, sem se importar com o tratamento a uma delegada – Já disse que a arma não é minha. Dizia ser minha apenas para intimidar os trouxas.
- Cazzo, fala onde está essa merda de uma vez.
- O senhor também? Já disse que a arma não é minha. Ela costuma ficar no quarto da minha mãe. Eu nunca faço nada com ela. – seu braço apontou em direção a uma ponta, no fim do corredor principal da casa.
Thaís Fontaine voltou a andar livremente por ela e foi até o cômodo onde Wellington indicou ser o quarto de sua mãe. Com a mesma agressividade de antes, ela tirou a colcha da cama, empurrou o colchão para o chão, jogou porta-retratos, quebrou vidros de perfumes, revirou gavetas e nada encontrou. Por fim abriu o guarda-roupa e fez a mesma bagunça, não se importando de jogar ao chão calças jeans, camisetas e as roupas íntimas da mãe do rapaz. Quando estava prestes a desistir, percebeu uma saliência diferente no interior de um travesseiro. O rasgou rapidamente e encontrou uma arma de fogo. Imediatamente mostrou a arma para Franccesco Fracalossi, que deixou o sangue subir a cabeça pela primeira vez no dia:
- Seu desgraçado, então você está mesmo envolvido? Eu confiei em você! – empurrou o jovem contra a parede – Pensei que poderíamos criar uma grande amizade, figlio di puttana...
- Pare com isso, Franccesco. Ele não está envolvido. – ele não largou Wellington e Thaís precisou prosseguir. – Como imaginava, essa é uma Taurus PT 100, calibre 38. A arma usada no dia do crime era provavelmente uma Desert Eagle, calibre 50. – Thaís se aproximou dos dois homens, os afastando. Em seguida disse, olhando nos olhos de Franccesco – Como desejávamos, Wellington é inocente. Ele sempre disse a verdade.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)