Foto: Blog do Jaime
- Reviravolta –
Alguns dias depois.
- É hoje que você vai visitar aquele garoto... O que foi baleado? – Ana Paula, esposa de Franccesco Fracalossi, perguntou enquanto almoçavam em um restaurante italiano no inicio da tarde de sexta-feira.
- Sí, sí. Vou sair de Santa Clara após o almoço. Ele está acordado há quase dois dias e ainda não tive tempo de ir até lá. – com a mão direita levantou uma taça de vinho e com a esquerda tocou o braço de sua esposa, que repousava sobre a mesa – Sabe, mio amore, não é de hoje que penso em criar uma rotina para os meus dias. Não tenho tido tempo para você, para nosso filho... Já vivi meio século e não posso dizer que fiz tudo aquilo que desejava. Sinto que tenho que aproveitar o tempo que ainda me resta.
- Você quer saber o que eu realmente penso sobre isso? – Ana Paula tinha pouco mais de trinta anos. Era uma mulher experiente e madura. Podia dar sua opinião sobre diversos assuntos sem que soasse moderno ou antiquado demais. Ela sempre sabia o que fazer e tinha razão em tudo o que dizia. Era uma mulher única.
- Claro, sua opinião é sempre importante.
- Passou da hora de você criar uma verdadeira agência de detetives. Sei que você está acostumado a trabalhar sozinho, antes contando com a ajuda de seu irmão e agora apenas com a minha ajuda, mas você precisa aproveitar o bom momento que vivemos nessa área. São casos atrás de casos e isso está se tornando cansativo para todos nós. Funcionários apenas irão engrandecer o seu trabalho.
- Você acha que pode dar certo?
- Realmente tem dúvidas? Querido, tenho certeza que você encontraria pessoas interessadas em trabalhar ao seu lado – ela sorriu, com orgulho estampando em sua face - Não precisam ser detetives profissionais. Comece com assistentes e se tudo der certo, você expande.
- É exatamente por isso que eu me apaixonei por você. – beijou as costas da mão de Ana Paula – Obrigado, amore.
O casal permaneceu conversando e saboreando os pratos italianos que Franccesco fazia questão de ter em seu dia-a-dia. Apreciador de vinhos, o detetive escolheu o Tannat, um vinho que no início não via muita graça e só depois de muito tempo aprendeu a apreciar. Só quando ambos se sentiram satisfeitos que o casal Fracalossi combinou como seria o dia a partir daquele momento: ele visitaria William Herz; ela ficaria no escritório, enquanto esperava a hora certa de buscar o filho que estudaria por mais duas horas.
Franccesco Fracalossi fez questão de deixar a esposa em frente ao prédio onde funcionava a Agência de Detetives Irmãos Fracalossi, criada quando o irmão caçula, João, ainda era vivo. Em seguida, o italiano pegou a estrada ao som dos grandes tenores de seu país e seguiu à cidade onde William permanecia internado. Não teve a mesma sorte do dia em que foi para resolver o caso e graças a um acidente enfrentou um grande congestionamento ao chegar à cidade. Como pessoas conseguem se acidentar com essa naturalidade?, ele se perguntou. Para evitar um estresse desnecessário deixou que a música entrasse em seus ouvidos. Para ele, e para qualquer outra pessoa, uma boa música é o melhor remédio para situações estressantes.
Durante o congestionamento, que o deixou parado por mais de quarenta minutos, o italiano digitou uma mensagem em seu celular e enviou para Thaís Fontaine. Conhecia Thaís muito bem e sabia o que aconteceria: Do jeito que aquela mulher é, vai acabar chegando antes do horário marcado, disse com seus botões.
Ele estava certo. Ao chegar ao hospital se deparou com a silhueta inconfundível de sua amiga parada ao pé da escada principal. Não foi um abraço ou um beijo amigável que selou o reencontro. Mais uma vez a velha e sempre usada ironia fez parte do primeiro contato dos amigos:
- Você está dezessete minutos atrasado. – ela o repreendeu, olhando para o visor de seu relógio de pulso – Como italiano você tinha a obrigação de chegar na hora certa.
- Estava preso no trânsito e não usei a sirene para ganhar tempo, como você costuma fazer. Aliás, sou italiano e não britânico. Não tenho esse tipo de obrigação.
- Não interessa, foi você quem me chamou até aqui. – apertou o braço do amigo e o puxou – Vamos, tem um jovem nos esperando e ao contrário de você, tenho muito trabalho a fazer.
Seguindo os mesmos passos da primeira ida ao hospital, foram ao elevador e subiram para o andar onde encontrariam William. O jovem não estava mais na UTI, porém os cuidados continuavam intensos. Dona Márcia, já mais calma, sempre que possível estava ao lado de seu filho. Pela idade de William, foi proibida de permanecer ali o dia todo. Ainda assim, tinha um papel de mãe a fazer e não se importava com as críticas e nem com o cansaço, que insistia em mostrar que a idade estava começando a chegar. Não cheguei nem aos sessenta, pensava com revolta, não posso deixar o cansaço me abalar.
Quando detetive e delegada entraram no quarto, Márcia estava sentada ao lado do filho. Vê-los causou uma forte emoção em seu grande coração de mãe. Ela se levantou e exclamou:
- Franccesco Fracalossi, o salvador do meu filho! – o abraçou antes de se voltar ao filho e prosseguir – William, graças a este homem descobrimos quem tentou te matar. E essa é Thaís Fontaine, delegada responsável pelo caso. – A amizade ali já aparentava ser maior do que um simples gesto de gratidão.
- Obrigado. – foi a única coisa que William respondeu. Ainda estava sonolento e sobre os efeitos dos fortes medicamentos que continuariam em seu corpo por mais alguns dias.
- É um prazer revê-lo, William. Você era muito pequeno quando costumava conversar com seu pai.
- Sinto falta daquela época.
- Todos nós sentimos, pena que não é um bom momento para recordações. – na verdade tinha medo de se emocionar e isso prejudicar a recuperação de William. – Vim aqui para contar a verdade. Claro, se você realmente desejar.
- Por favor.
Franccesco atendeu ao pedido do jovem e iniciou o relato de tudo o que aconteceu na noite do dia 04 de agosto. Explicou e se desculpou por ter acreditado na culpa de Priscila, sua namorada. Disse que fez a reconstrução do momento em que aconteceu o disparo e que assim descobriu o envolvimento de Jéssica, a amiga de Priscila. Sabia que a reação de William não seria das melhores, no entanto contou que Gabriela e o baterista de sua banda estavam envolvidos. Foi neste momento que William se manifestou pela primeira vez:
- Eu sabia que aquele desgraçado era o culpado.
- Tinha certeza que você sabia. Se eu estivesse em seu lugar e tudo se apagasse, a primeira coisa que faria seria buscar por minha esposa. Não ficaria de costas para ela e foi exatamente isso que você fez, estou certo? Você deu as costas ao culpado e isso confundiu a todos.
William assentiu e no instante seguinte disse algo que pegou todos desprevenidos:
- Wellington. A arma era dele.
- Claro que não. Wellington é uma pessoa boa. Nos ajudou a solucionar esse caso. – era Thaís Fontaine, defendendo o baixista da banda como não estava acostumada a fazer com mais ninguém.
- Não pode ter feito apenas para se livrar da culpa?
- Não, dona Márcia. É fácil perceber quando alguém está mentindo e este não é o caso. Sou delegada há mais de dez anos e...
- Chega Thaís! – Franccesco a interrompeu – Se existe uma peça faltando nesse quebra-cabeça precisamos investigar. Vamos descobrir se ele tem algum envolvimento... E se tiver, também será preso. Isso se não matá-lo.
- Mas, Franccesco...
- Não se preocupe William. – ele voltou a interrompê-la – Vamos solucionar esse mistério agora mesmo. – e puxou a amiga para fora do quarto. Tinham uma nova missão e precisavam agir.
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)