O mundo da arquitetura perdeu na última quarta-feira (05) um dos seus maiores gênios, o brasileiro Oscar Niemeyer. Às vésperas de completar 105 anos, Niemeyer estava internado no Hospital Samaritano, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde faleceu às 21h55, deixando uma imensa obra admirada por leigos e arquitetos do mundo todo.
Fernando Gjorup, médico do arquiteto, disse que mesmo aos 104 anos, Oscar Niemeyer pensava em continuar trabalhando e tinha novos projetos em mente. Ele ainda afirmou que até a manhã de quarta-feira, quando foi sedado, Niemeyer continuava lúcido e chegou a conversar com a equipe sobre o assunto, além de nunca falar sobre a morte.
O corpo de Oscar Niemeyer foi levado a Brasília, cidade que projetou durante o mandato de Juscelino Kubitschek, onde foi velado no Palácio do Planalto. A cerimônia, que também foi aberta ao público, contou com a presença da presidente Dilma Rousseff, do vice-presidente Michel Temer e do senador José Sarney. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, também participou do velório. Como homenagem, os presentes fizeram um minuto de silêncio.
Após o velório em Brasília, o corpo do arquiteto seguiu no avião presidencial de volta ao Rio de Janeiro, onde foi velado por parentes e amigos durante a madrugada de sexta-feira. Às 8h30 as portas do Palácio da Cidade foram abertas ao público, que foram até o local para prestar a última homenagem a Niemeyer. Um ato ecumênico, reunindo representantes de algumas religiões, marcou o velório do arquiteto que era ateu.
Vera Lúcia Cabreira, esposa do arquiteto, permaneceu ao lado do caixão durante todo o dia. O poeta Ferreira Gullar, o prefeito do Rio de Janeiro, bem como o governado do estado, e a viúva do amigo Luiz Carlos Prestes também comparecem ao local.
Por volta das 17h, o corpo foi levado ao Cemitério São João Batista, onde foi enterrado ao som da música Cidade Maravilhosa. Era o fim da história carnal de um homem que será lembrado para todo o sempre por suas curvas e projetos arquitetônicos únicos.

Repercussão Internacional
A morte de Niemeyer foi destaque em jornais do mundo todos e suas principais obras também foram lembradas. No francês Le Monde, Niemeyer foi chamado de “O arquiteto da sensualidade”; já o espanhol El Mundo disse que Niemeyer era o “último símbolo do século XX”; por fim, a BBC destacou a fidelidade do brasileiro aos ideais comunistas.

Vida e Obra
Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares nasceu no Rio de Janeiro em 15 de dezembro de 1907. Em seus primeiros anos de vida, Niemeyer frequentou clubes e viveu na boêmia, mas casou-se cedo com Anita Baldo, com quem teve uma única filha: Anna Maria Niemeyer (1930-2012).
Após o casamento ele se afastou da boêmia e dedicou seu tempo ao trabalho e aos estudos, se formando na Escola Nacional de Belas Artes em 1934, ano em que começa seus primeiros projetos arquitetônicos. Apesar de já estar formado, o primeiro projeto individual foi a Obra do Berço, inaugurado apenas em 1938 e que já possuía algumas características que seriam marcantes na obra do arquiteto.
Com o passar dos anos, Niemeyer participou do projeto do edifício que seria sede do Ministério da Educação e Saúde. O edifício, concluído em 1943, reuniu importantes nomes da arquitetura da época e é considerado o primeiro marco da Arquitetura Moderna no Brasil.
Antes disso, em 1939, ele foi chamado para ir à Nova York onde projetou o Pavilhão Brasileiro na Feira Mundial realizada na cidade entre 1939 e 1940. O projeto não existe mais, porém já possuía as curvas que ganhariam fama a partir da década de 40, quando Oscar Niemeyer conheceu Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, e este encomendou a construção do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, um cartão-postal da capital mineira.
Os projetos se superavam e com isso o brasileiro ganhava fama internacional. Isso rendeu o convite para integrar o grupo que desenvolveu o prédio da sede das Nações Unidas. Por ser comunista, Niemeyer encontrou dificuldade para entrar nos Estados Unidos, porém foi ele o responsável pela ideia do prédio construído entre 1949 e 1952.
Voltando ao Brasil, iniciam os projetos de diversas outras obras construídas a partir de ideias de Niemeyer, como o Parque do Ibirapuera e o Edifício Copan, ambos em São Paulo. Já com a eleição de Juscelino Kubitschek em 1956, surgiu o projeto de uma nova capital federal e Oscar Niemeyer participou ativamente da construção de Brasília, cidade levantada em tempo recorde. Entre as principais obras na atual capital federal, estão o Palácio da Alvorada, o Edifício do Congresso Nacional, a Catedral de Brasília, entre outros.
Durante parte da Ditadura Militar, o arquiteto é impedido de trabalhar no Brasil e por isso se muda para Paris, onde permanece durante anos. Nesse período, o nome de Niemeyer, que já era reconhecido internacionalmente, se torna ainda mais respeitado, principalmente pelo fato de suas obras serem construídas em várias partes do mundo, como na Argélia e na própria França.
Ao voltar para o Brasil, já na década de 80, projeta o Memorial JK e o Sambódromo do Rio de Janeiro, onde além dos desfiles de escolas de samba do carnaval carioca acontecem outros eventos, sejam eles esportivos ou não. Já com 84 anos, Oscar Niemeyer projeta o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, uma de suas mais belas e importantes obras.
Às vésperas de completar 100 anos, perde a esposa Anita Baldo e ainda trabalhando, projeta o museu que leva seu nome e que foi construído em Curitiba. Na mesma época o Auditório do Ibirapuera e o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, na Espanha, também são projetados. Aos 99 anos, se casa com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira, 39 anos mais jovem.
Já com 101 anos, Oscar Niemeyer é internado e a partir de então deixa de ir diariamente ao seu escritório em Copacabana, mas continuava lúcido e trabalhando normalmente. Porém, aos poucos a saúde do arquiteto começa a fragilizar, sendo internado diversas vezes em seus últimos dois anos de vida. Em junho de 2012 perde sua única filha, Anna Maria, e vive os últimos meses entre o hospital e sua casa, até que vem a falecer na noite da última quarta-feira, aos 104 anos, deixando arquitetos e seguidores do mundo inteiro órfãos de um grande gênio das curvas; um verdadeiro orgulho para todo o povo brasileiro.

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos sentidos, nas nuvens do céu. No corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo” – Oscar Niemeyer sobre o Edifício Copan.

Oscar Niemeyer - 15/12/1907 - 05/12/2012