O Começo do Adeus, Anne Tyler, tradução de Ana Paula Corradini, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 208 páginas.

Autora best-seller do The New York Times, Anny Tyler atualmente vive em Baltimore e já publicou dezenove obras, sendo que várias delas foram premiadas e tiveram adaptações, sobretudo para a televisão. Membro da Academia Americana de Artes e Letras, Tyler lançou em 2012 o seu mais recente romance: O Começo do Adeus.
O Começo do Adeus é narrado em primeira pessoa por Aaron, um homem de meia-idade, que possui uma deficiência no braço e na perna direita, e que sempre enfrentou alguns problemas em sua vida. Tudo passa a mudar quando ele conhece Dorothy, a mulher por quem se apaixonaria e se casaria.
Apesar de algumas dificuldades normais em um casamento, Aaron e Dorothy vivem felizes, pelo menos até o dia em que uma árvore cai na casa do casal e mata Dorothy, tirando o sentido da vida do narrador da história. O que reconforta Aaron são as aparições de sua esposa, que mostram que ele precisa encontrar uma forma de dizer adeus, algo que parece impossível para um homem apaixonado.

“Nada mais havia para qualquer um de nós dizer, apesar de sentir uma estranha relutância em permitir que ele desligasse. Por um momento, enquanto ele falava, Dorothy tinha sido, de novo, como era antes: voluntariosa, firma e teimosa. Não a vítima passiva que tinha se tornado em seus últimos dias” (pág. 47).

Com a quantidade de citações sobre O Começo do Adeus na orelha do livro, o mínimo que se espera é que a história seja capaz de emocionar e conquistar, mesmo que pela simplicidade. Além de tais citações, o que o livro propõe através de suas primeiras páginas dá a entender que será uma história marcante, mas ao final ficou faltando algo. Faltou o que provavelmente existe nos premiados livros de Anne Tyler, que possui uma narrativa delicada e que sabe o momento certo de intercalar a história entre o presente e o passado, dando uma fluidez maior a leitura – apesar de muitos terem encontrado dificuldade em continuar com o livro, ainda que não seja uma narrativa cansativa.
Se não bastasse ser narrado em primeira pessoa, o que já dá a impressão de que estamos lendo um diário, a forma como a história é contada coloca o leitor definitivamente dentro da história e o problema está no fato de que, assim como muitos diários, encontramos coisas desnecessárias e que nada engrandecem ou enriquecem a leitura.
O livro é tão dramático, que em grande parte da história o narrador-personagem lamenta a morte da esposa, se culpando e pensando o que teria acontecido caso algumas situações tivessem sido diferentes, por isso essa lamentação chega a irritar. Mas o drama criado por Anne Tyler em nada se assemelha aos dos principais autores do gênero e talvez não tenha conquistado como poderia acontecer – nem mesmo a emoção chega a ser tão grande.
Em partes a forma como o personagem se livra de seu luto não é convincente, principalmente quando se trata dos livros lançados pela editora da família de Aaron, porém existe uma relação bacana entre ele e sua irmã, e também com seus amigos, por mais que essas amizades não tenham sido totalmente exploradas ao longo do livro. De qualquer forma, mesmo que não sejam convincentes, muitas das coisas que acontecem são previsíveis e isso, diferente do que costuma ocorrer, não é nenhum fator negativo, pelo contrário, era exatamente o que torcíamos para acontecer, já que o leitor sabe o que seria necessário para o reencontro do protagonista com a vida.
Certos personagens, como o próprio Aaron, não chegam a se destacar e alguns inclusive não demostram qualquer tipo de emoção e sensibilidade com as situações encontradas na história, mas uma personagem, que quase não possui destaque algum, conquista de uma maneira tão intensa que fica impossível não dizer: “ela precisava ter sido revelada antes”.
Segundo o Kirkus Reviews, “O tom desta fábula extravagante é tão sutil que é praticamente imperceptível” e com certeza isso foi o ponto forte do livro. Essa citação não tem nada de exagerado, pois a essência da obra é exposta com uma sutileza quase única por parte de Anne Tyler, que ao final de apenas 208 páginas mostra que apesar de difícil de enfrentar, o adeus é essencial para transformar a vida de uma pessoa enlutada e mostrar a ela que a outra pessoa precisa partir – seja antes ou depois do perdão.

“Mas ponha-se em meu lugar: pense em uma pessoa que você perdeu e de quem vai sentir saudade até o fim de seus dias e então imagine encontrar essa pessoa em público [...] Você não questionaria sua sanidade, porque não suportaria pensar que não é real. E com certeza não exigiria explicações, nem alertaria as pessoas ao redor ou estenderia a mão para tentar tocá-la, nem que sentisse que um toque valeria desistir de qualquer coisa. Você seguraria a respiração. Ficaria o mais imóvel possível. Pediria à pessoa amada que não fosse embora de novo” (pág. 153).