Não Conte a Ninguém, Harlan Coben, tradução de Ivo Korytowski, 1ª edição, São Paulo-SP: Arqueiro, 2009, 256 páginas.

Adaptado para o cinema francês com o filme Ne le dis à personne, o livro Não Conte a Ninguém é um dos mais aclamados do autor americano Harlan Coben - Jogada Mortal (Resenha) -, único autor a ganhar o Shamus, o Anthony e o Edgar Allan Poe, a trinca de ases da literatura policial americana.
Na obra lançada originalmente em 2001, conhecemos o Dr. David Beck, que há oito anos, enquanto comemorava o aniversário do primeiro beijo com a esposa, Elizabeth, sofre um ataque que acaba no brutal assassinato da mulher. Depois de muitos anos, a polícia encontra dois corpos enterrados próximos ao local onde aconteceu o crime, ao mesmo tempo em que Dr. Beck recebe misteriosos e-mails que só podem ter sido enviados pela esposa.
Os novos acontecimentos ligam David Beck aos assassinatos e ele passa a ser perseguido pelo FBI. Se não bastasse essa perseguição, um perigoso assassino de aluguel também está atrás do pediatra, que conta apenas com a ajuda de três pessoas: sua melhor amiga, uma importante advogada e de um traficante de drogas. David Beck precisa então correr contra o tempo, caso queira voltar a ter uma vida normal.

“Não me diga que ainda sou jovem. Não me diga que vou ficar bem. Não me diga que ela está num lugar melhor. Não me diga que sua morte faz parte de algum plano divino. Não me diga que tive a sorte de viver aquele amor. Cada um desses lugares-comuns me deixava furioso. Eles só me faziam - sei que você vai me achar cruel - pensar no idiota que estava dizendo aquilo e me perguntar por que ele ou ela ainda respirava enquanto Elizabeth apodrecia” (pág. 20).

A leitura de dois livros ainda é insuficiente para fazer qualquer avaliação sobre as obras de Harlan Coben, afinal são mais de quinze livros lançados em pouco mais de vinte anos de carreira. Porém, ao comparar os livros obviamente sentimos uma grande evolução da forma como o autor cria um mistério que, ao mesmo tempo em que parece muito óbvio, é impossível dizer com clareza o que de fato aconteceu.
Assim como na leitura anterior, em Não Conte a Ninguém o autor se foca na construção de um passado que pode perturbar todo o presente dos personagens, e mais uma vez nos encontramos em um verdadeiro beco sem saída, ao constatar que para solucionar o mistério precisamos prosseguir com a leitura até a última página. Dessa vez as coisas só são esclarecidas quando narradas e fica impossível deixar de pensar no livro, mesmo quando não podemos se dedicar a leitura.
Em alguns momentos, a narrativa acontece sob a visão de David Beck, enquanto em outros a narrativa em terceira pessoa mostra os acontecimentos dos inúmeros personagens relacionados direta ou indiretamente com o protagonista. Independente da forma como é narrado, o livro é recheado de mistério e muita ação, deixando qualquer leitor sem fôlego nas perseguições, brigas, mortes e até mesmo nos interrogatórios, sempre muito bem construídos e esclarecedores.

“Fitei o teto por alguns momentos. Depois olhei para a direita - onde Elizabeth dormia. Eu sempre adormecia antes. Costumava me deitar daquela maneira e observá-la com seu livro, o perfil do seu rosto, totalmente concentrada no que estava lendo. Era a última coisa que eu via antes que meus olhos se fechassem e eu dormisse” (pág. 56).

O grande e único problema acaba sendo David Beck, que ao contrário de Myron Bolitar, não possui uma personalidade tão marcante e algumas de suas atitudes chegam a ser infantis, enquanto outras até são compreensíveis. Já uma coisa que novamente foi colocada e muito bem usada pelo autor foi a relação entre as personagens, nesse caso Beck e Shauna se saem muito bem juntos e mostram a amizade verdadeira entre eles.
Há quem diga que o autor deixou a desejar no final, quando muita coisa foi esclarecida e algumas de uma forma inesperada, porém com a existência de tantas histórias que se interligam, é natural que algo do tipo aconteça. Com isso a apreensão pós-leitura é maior, principalmente com a última revelação do livro. Mesmo com isso, o brilhantismo de Não Conte a Ninguém continua o mesmo e se torna uma das melhores e mais viciantes leituras dos últimos tempos.
Acima de tudo, Não Conte a Ninguém reúne tudo o que um livro policial necessita, além de mostrar que o amor pode ultrapassar as barreiras da morte e continuar vivo mesmo com o passar dos anos. Sucesso no cinema francês, o livro foi adquirido em 2011 e será adaptado pela indústria hollywoodiana, que pode ter mais um premiado filme próximo de ser lançado nos cinemas mundiais.

“A gente ouve falar que a adrenalina é capaz de impelir uma pessoa para a frente e que lhe dá uma força incomum, mas existe o outro lado da moeda. A sensação é inebriante, fora de controle. Ela aguça os sentidos a ponto de paralisar. Esse poder precisa ser controlado para que ele não o derrube” (pág. 126).