A Aprendiz, Trudi Canavan, tradução de Frank de Oliveira e Júlio Monteiro de Oliveira, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 544 páginas.

Trudi Canavan é uma premiada autora de fantasia conhecida por algumas trilogias, entre elas a Trilogia do Mago Negro, e teve seus primeiros livros lançados no Brasil através da editora Novo Conceito. Em A Aprendiz, segundo livro da trilogia, a autora continua nos surpreendendo em uma história que conquista a cada capítulo por inúmeros motivos.
Após os acontecimentos do primeiro livro, a protagonista Sonea continua rodeada por magos e sofrendo as consequências de ser a única oriunda das favelas de Imardin. Enquanto Sonea aprende tudo o que é essencial para a vida de um mago, ela precisa enfrentar a fúria dos demais aprendizes, que não aceitam o fato de uma favelada estar entre eles, além de guardar um segredo que pode motivar inúmeros problemas para o Clã dos Magos. Inclusive esse segredo motiva as ações de outros personagens, transformando o livro em algo muito mais explorado do que o imaginado.

“Ela era a pária. Mas, ao contrário dos garotos que haviam tentado e falhado em ser aceitos na gangue de Harrin, ela não era capaz de encontrar outro lugar para ir. Estava presa a eles” (pág. 80).

Tudo o que se esperava da Trilogia do Mago Negro e que não encontramos no primeiro livro existe em A Aprendiz. Ao contrário de O Clã dos Magos (Resenha), nesse livro não existe um único momento em que a leitura se torna cansativa ou se perde ao longo da história. Tudo pode e deve ser aproveitado ao máximo e nem mesmo o fato da história ser dividida em pelo menos quatro personagens é um problema, já que nos acostumamos com essa forma de escrever ainda no primeiro livro.
O que também se diferenciou do livro anterior foi a quantidade de informações sobre o reino de Kyralia e de todos os aliados e inimigos. O grande responsável por essas informações é Lorde Dannyl, que foi enviado para outros domínios tentando desvendar segredos do passado. Com isso conhecemos a cultura, os costumes e as características de cada um dos povos e a autora nos brinda com uma riqueza de detalhes históricos, algo que não havia acontecido em O Clã dos Magos.
Sendo assim, percebemos que A Trilogia do Mago Negro é muito mais do que uma simples aventura. A autora se preocupa em mostrar, na fantasia, muito do que acontece na atual sociedade, como a aceitação de relacionamentos de pessoas do mesmo sexo e de pessoas de outras classes sociais, além das diferenças culturais que podem ou não chocar os demais povos. Esse tipo de abordagem faz dessa uma trilogia diferente, apesar de muitos detalhes semelhantes a outros conhecidos livros.

“”Para de lutar contra mim”, ordenava ela.
Sentiu mãos pressionando fortemente as têmporas. Ela foi empurrada para o recôndito da mente. Desorientada e chocada com a dor, tentou recuperar um pouco do seu senso de equilíbrio. A presença retomou a tarefa de escavar as lembranças que procurava. Sem dó, acessou imagem por imagem” (pág. 292).

O que ainda acontece é uma perseguição, talvez desnecessária, e novamente Sonea é o alvo, dessa vez de um pseudovilão que consegue tirar do sério qualquer leitor. Regin, membro de uma família importante, chega ao mesmo nível do antagonista do livro anterior e com isso fica a certeza de que a autora tem a incrível capacidade de criar personagens agradáveis e desprezíveis com a mesma genialidade.
Apesar de ser a protagonista e ter um poder incrível, Sonea continua não despertando interesse por sua personalidade, enquanto Rothen e Dannyl ainda se destacam em relação aos demais personagens. Finalmente conhecemos melhor Akkarin, o Lorde Supremo, porém também é o personagem mais intrigante e ainda não sabemos o que esperar dele, a não ser que muita coisa ainda deve ser revelada.
Em A Aprendiz, o Clã dos Magos é explorado, bem como suas estruturas, regras e histórias; encontramos também viagens, romances, batalhas, segredos, magia e ensinamentos. Por fim um mistério é deixado no ar e a chance da autora nos surpreender é muito grande, já que ao mesmo tempo em que tudo está claro, sabemos que há muitos segredos. De qualquer forma, a trilogia tem tudo para se encerrar com chave de ouro em Lorde Supremo.
No maior livro da trilogia, a autora atende todas as expectativas e mostra uma clara evolução em relação ao livro anterior. Em sua tradução e revisão, A Aprendiz também supera O Clã dos Magos, porém nem tudo foi consertado como deveria, e isso realmente precisa acontecer no próximo livro, um dos mais aguardados do início de 2013.

“Sonea começou a avançar na direção de Regin, diminuindo a distância entre eles, de modo a forçá-lo a reagir mais rápido. Quando a dupla estava separada por dez passos apenas, os golpes de Regin pareceram se reverter de repente. Ele cambaleou para trás e deu um grito de surpresa. A Arena esvaziou-se de magia de forma abrupta” (pág. 520).