- Mudanças –
- Mandou me chamar, William? – Francesco Fracalossi perguntou ao entrar no leito de William.
Ele assentiu e respondeu ainda sonolento:
- Gostaria de agradecer por tudo o que fez por mim nos últimos dias e pedir um favor. Se possível, claro.
- Não tem necessidade disso, amico mio. Fiz aquilo que todos fariam em meu lugar. Você é um cara especial e não poderia deixar de te ajudar em um momento difícil – o detetive estendeu o braço direito e com sua mão apertou o ombro do jovem.
- Nunca vou me esquecer de sua atitude. Valeu de coração. Você foi um herói. O meu herói.
- Você queria pedir um favor? O que posso fazer por você? – Não sabia como reagir a elogios e preferiu mudar de assunto para evitar que a emoção ficasse clara em seu rosto. Isso não demoraria a acontecer.
- Minha namorada... Preciso falar com ela o quanto antes. – limpou a garganta antes de continuar – Ela ainda não veio me visitar e temos muito que conversar.
- Só isso? Não se preocupe, vou pessoalmente até ela e a trago, mesmo que seja amarrada – riu, como se tivesse feito uma piada engraçada. Ainda assim, aquilo contagiou William, que não evitou sorrir. Estava fraco e o detetive era o único que lhe fazia bem.
- Franccesco, posso fazer outra pergunta?
Foi a vez de o detetive assentir e deixar que o jovem fizesse a pergunta:
- De onde surgiu a sua amizade com o meu pai?
- Como posso dizer... Foi no momento que saímos de nossos países, quando ainda erámos crianças.
- Vocês atravessaram o Atlântico em um navio como nos filmes?
- Claro que não! Pode não aparentar, mas não sou tão velho assim. Na época essa longa viagem já era feita com avião. Meus pais estavam saindo da Itália para cuidar do meu avô que estava doente. Esse sim veio de navio, ainda no início do século passado.
- E por que meus avôs vieram para cá?
- Fazia mais de duas décadas que a guerra tinha chegado ao fim, mas sua família ainda não tinha se recuperado economicamente, apesar de serem gênios da indústria têxtil. Era muito novo, mas eu me lembro de seu avô dizendo que por causa de Hitler a família Herz nunca voltaria a ser importante na Alemanha e não queria que seu pai sofresse o mesmo que eles sofreram durante a guerra.
- Então só não sou alemão por causa de Hitler? – William sorriu.
- Basicamente isso. – ele deu as costas para o jovem antes de concluir – Agora vou trazer sua namorada até aqui. Vamos deixar essa história para outro dia.
* * *
Desde que seu namorado foi baleado, dias antes, Priscila não conseguia desviar seus pensamentos. Passava as horas tentando entender o motivo de tudo aquilo estar acontecendo com a pessoa que mais amava. Sua futura sogra lhe avisou que William estava se recuperando, o que não a motivou. Não tinha coragem de sair de casa para uma visita que poderia aumentar seu sofrimento.
Quando alguém está entre a vida e a morte, todos dizem que o quadro está evoluindo e que o risco de morte é menor. – pensava - Nem sempre isso é verdade. Se for para acontecer algo, prefiro lembrar-se do namorado que me fazia feliz, e não dele impotente, deitado em uma cama.
Priscila só aceitou deixar sua casa e visitar o namorado ao receber a visita do detetive responsável pelo caso, que revelou o desejo de William em vê-la. Estava totalmente depressiva. Há dias não colocava nenhum alimento na boca e as olheiras provavam que as noites estavam sendo longas para aquela garota apaixonada. Ficou horrorizada quando se olhou no espelho e deparou-se com alguém diferente do que estava acostumada a ser. Não poderia ir assim ao hospital, que já era um lugar triste e depressivo por si só. Querendo se produzir ao máximo para a única pessoa que se importava, deixou Franccesco Fracalossi a vontade e entrou em seu quarto, de onde saiu apenas uma hora depois, mostrando a verdadeira beleza que encantara William Herz.
Já preparada e com a expectativa de rever seu namorado, Priscila aceitou o cavalheirismo de Franccesco, que a ajudou a entrar em seu veículo. Só então partiram ao Hospital Camilo Lellis. Em questão de minutos estaria ao lado de William, porém o ponteiro dos relógios pareciam não andar, tamanha sua ansiedade. A distância pareceu dobrar e ficou aliviada quando pôde ver o prédio pela primeira vez.
O coração de Priscila batia na velocidade de um carro de automobilismo quando entrou no quarto e reviu William, ainda ligado a diversos aparelhos que o monitoravam durante o dia todo. Não gostou de vê-lo daquela forma, entretanto ver alguém que amamos é motivo de renovação e ela não conseguiu esconder o sorriso encantador. Sem hesitação, se aproximou do namorado, deu um rápido beijo nos lábios e o abraçou fortemente, causando uma leve dor no local onde fora baleado.
Um novo beijo, dessa vez apaixonado e refletindo a emoção do reencontro. O beijo era tão esperado por ambos que ele não se incomodou com qualquer dor que pudesse sentir. Queria apenas aproveitar o momento.
O beijo foi interrompido com as perguntas de Priscila, que precisava saber se William estava realmente bem; se estava com dores; quando poderia deixar o hospital; se precisava de algo. Com calma, William respondeu a todas as perguntas e foi surpreendido com a declaração da garota:
- Eu amo você, meu amor. Muito, muito, muito. Não consegui dormir esses dias todos. Tive medo de te perder... – novamente o abraçou e não conseguiu segurar as lágrimas, que caíam desesperadamente de seus olhos verdes, refletindo uma paixão incomum. – O senhor está proibido de fazer isso novamente, está me ouvindo Sr. Herz? – seu rosto era um contraste entre lágrimas e um sorriso tímido.
- Eu também te amo e bem que eu percebi que tinha algo errado com você. Sua cara está péssima – também sorriu, acariciando a delicada pele da jovem.
- Minha cara? – ficou espantada e instintivamente se afastou, vasculhando sua bolsa a procura de um espelho – Eu fiquei mais de uma hora me arrumando para você e...
- Brincadeirinha, meu amor. Você está linda, como sempre! – gargalhou, se esquecendo de que estava em uma cama de hospital – Adoro te irritar, já disse isso?
- Você. – como uma adolescente, colocou seus braços no ombro do namorado e beijou seus lábios. – É – repetiu o gesto. – Um – novamente. – Chato. – e concluiu repetindo o longo beijo de minutos antes.
Dessa vez foi William quem interrompeu o beijo, afastando seu rosto de Priscila e pedindo que ela se sentasse ao seu lado. Com delicadeza e tentando ser o mais carinhoso possível, pegou a mão de sua namorada e acariciando-a disse as primeiras palavras, que foram suficientes para assustá-la:
- Amor, precisamos ter uma conversa.
Nenhuma reação por parte da garota, que apenas o encarou.
- Não quero que você me entenda mal. Pode prometer isso a mim?
- O que aconteceu?
- Desde que acordei, - falava calmamente – estive pensando em tudo o que me aconteceu nos últimos meses. Você sabe... Algum tempo atrás não me importava com ninguém, a não ser com meu dinheiro, as mulheres, drogas...
- Pode ir direto ao assunto, por favor? – pediu, não querendo se lembrar do antigo William, porém ele a ignorou.
- Naquela situação com a Gabriela, percebi como estava sendo ignorante. Estúpido... Naquela época aprendi a gostar das pessoas, principalmente de você, e valorizar aquilo que todos faziam por mim. – se ajeitou na cama – Demorei a perceber que você era uma das poucas pessoas que se importavam comigo. Felizmente fiz isso a tempo e o William que sempre esteve dentro de mim apareceu.
- Aonde você quer chegar, amor?
- Priscila, minha querida, quero que saiba que eu te amo, mas... – engoliu em seco - Não podemos continuar juntos. As pessoas não querem isso e tenho medo de algo acabar te prejudicando por continuar comigo.
- Está terminando nosso namoro por causa dos outros? – se levantou e perguntou, elevando o tom de voz – É isso mesmo que eu entendi?
- Não é pelos outros. É por nós. Tenho medo de acontecer algo com você, por isso acho melhor esse tempo. – disse com sinceridade. – Algumas pessoas querem acabar comigo e não hesitariam em fazer o mesmo...
- Não existe essa de tempo. Nunca vi um relacionamento voltar após dar um tempo – fez aspas no ar.
- Com nós será diferente, eu prometo. Tenho alguns planos e não seria o melhor para você.
- O que você pretende fazer, posso saber?
- Claro, eu pretendia te contar desde o início. – pediu para ela se aproximar – Vou abandonar o dinheiro. Não quero mais essa vida mansa. Vou larga tudo: minha banda; minha casa; meus instrumentos e minha família. Quero passar algum tempo sentindo as dificuldades da vida. Morar na rua ou viajar sem um destino certo, ainda não sei qual será minha escolha.
- Você, por acaso, bateu a cabeça quando foi baleado e caiu no chão? Está maluco, William? Morar na rua? Com toda a grana que você tem, quer viver na rua?
- É justamente por ter essa grana, meu amor. Cansei de ser visto como o cara que tem tudo na vida. Que tem dinheiro e pode comprar o que bem entender. Quero que as pessoas me vejam como alguém normal, como um ser humano qualquer. Vou começar do zero e crescer na vida, e nesse dia, se você ainda me amar, ficaremos juntos.
- Então nosso relacionamento chegou ao fim?
- Ao menos por enquanto, sim. Por favor, entenda meu ponto de vista.
- Não, William. Eu sempre te amei e você demorou a dar valor a esse amor. Não vou mais correr atrás. Se você quer terminar nosso relacionamento, iremos terminar. Só nunca mude de ideia. Fique sozinho com suas paranoias, porque a partir de agora não existe mais nós. Existe apenas você, um cara louco; e eu, uma garota que cansou de correr atrás e nunca ter o valor merecido.
- Amor, por favor, me entenda. Precisamos desse tempo.
- Não me chame de amor. – ela caminhou até a porta e com lágrimas nos olhos falou com William pela última vez. – Nosso namoro terminou e nossa intimidade também.
William pensou muito antes de anunciar sua atitude – atitude essa que surgiu com o sonho que teve em uma das vezes em que quase perdeu a vida. Ainda assim, sentiu uma forte dor no peito. Uma dor emocional, não física. Queria que ela entendesse que aquilo era um mal necessário e que ele esperava colher bons frutos em um futuro próximo. Quando saísse do hospital, iria se aventurar pelo mundo e o dinheiro, que esteve sempre em sua vida e que o ajudou em todos os momentos, não mais causaria problemas a ele e a sua família. Deixaria a empresa sob responsabilidade da mãe ou de alguém de confiança. Wellington tomaria conta da banda e encontraria um vocalista, mesmo que provisório. William iria começar do zero e provaria que era possível ser feliz, mesmo sem ter condições financeiras para isso. Mostraria que o dinheiro poderia comprar coisas boas, mas não a verdadeira felicidade, que estava no coração e na forma de viver das boas pessoas.
Não é preciso sentir inveja e torcer pelo mal das outras pessoas para conquistar o que te satisfaz – refletiu, olhando para o teto pintado de branco.
William Herz foi baleado e isso causou grandes consequências a ele. Também ensinou uma importante lição: o dinheiro é capaz de comprar tudo; é também a principal causa de ódio entre pessoas. O que ele queria, a partir dali, era mudar sua vida sem se aproveitar das coisas boas que herdou. Iria para as ruas e entregaria sua vida nas mãos de Deus. Para conquistar uma vitória ou para sentir mais uma derrota na pele, não importava. Queria apenas ser visto com outros olhos. Queria ser William Herz, o jovem com capacidade de conquistar tudo; não aquele que usa o dinheiro para esnobar e tentar comprar um bem sem preço: a felicidade.

Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)