- Passado -
Abril. 1987
Era sexta-feira e o dia da tão aguardada formatura da turma de Direito de 1983 havia chegado. A partir daquele dia, Franccesco Fracalossi e Thaís Fontaine teriam um diploma e poderiam exercer a profissão que escolheram e que tanto admiravam.
Após as festividades formais, toda a turma se dirigiu a uma boate, aonde aconteceria a festa exclusiva aos formandos e seus parceiros, o que não era o caso de Franccesco. Apesar de ser simpático e com uma beleza tipicamente italiana, teve apenas alguns namoros universitários, nada sério. Permanecia solteiro e essa situação o entristecia, afinal, era romântico e apaixonado pela vida. Queria transmitir todo o seu amor para uma mulher, porém não queria uma mulher qualquer. Queria que sua situação amorosa mudasse como também que encontrasse a mulher perfeita; a mulher que lhe fizesse feliz até o seu último suspiro. Queria alguém diferente...
Como a maioria das festas de jovens na faixa dos vinte anos, o álcool foi o ponto principal naquela noite e a intenção era que todos saíssem dali bêbados. No início, o jovem italiano achou a ideia ridícula e prometeu para si mesmo que não beberia uma única gota sequer. Via a bebida – mais precisamente o vinho – como algo para se apreciar junto com as refeições; sentir a essência dos variados gostos. Não era um fã das bebidas alcoólicas e criticava todos os dependentes, acreditando que esse problema seria um dia resolvido. Porém, naquela noite a pressão de seus colegas foi maior do que ele pôde suportar. Tomou o primeiro drink e como sempre acontece, após o primeiro drink foi impossível parar.
Passava das cinco da manhã e todos os jovens presentes estavam alterados, sem exceção. A boate precisava encerrar as atividades, antes que o problema ficasse intenso e a solução inexistente. Os organizadores desligaram o som e aos poucos todos foram deixando o prédio.
Na época, Franccesco e Thaís Fontaine eram inseparáveis. Estavam juntos em tudo o que faziam. Isso gerou diversos boatos. Não havia uma única pessoa que não dissesse que aquele era o casal mais bonito da história da Universidade. Poderia ser verdade, porém eles nunca tiveram nenhum tipo de relação. Pelo menos até aquele dia...
Os amigos deixaram a boate se abraçando e cambaleando em direção ao estacionamento. Com dificuldade, abriram a porta do carro do italiano. Ele estava sem condições para dirigir e para sorte – parcial - de ambos, nem ao menos tentou colocar o veículo em movimento. Não tinha condições para isso e uma fatalidade aconteceria em poucos metros.
Sentados lado a lado, os amigos trocaram olhares e caíram na gargalhada, sem que houvesse uma explicação plausível para os risos. A troca de olhares foi suficiente para surgir um sentimento que jamais havia passado por suas cabeças: o desejo carnal.
Não sabiam o que estavam fazendo e no calor do momento, Thaís despiu seu longo vestido que a deixou bela durante a festa – ainda mais bela era sem aquele pano que cobria as curvas de seu corpo. Em seguida, a mulher pegou a mão do amigo e a levou até a altura de seus seios. Ele involuntariamente desabotoou seu sutiã, acariciando os fartos seios da mulher. Ela por fim se jogou contra o corpo masculino e encarou o amigo, enquanto ele observava seu belo rosto, instantes antes de beijar os lábios de Thaís, sem se lembrar de que era a amiga que jurou respeitar até o fim de seus dias.
Já estavam excitados e o efeito da bebida aumentou o desejo entre eles. Após o beijo, voltaram a gargalhar, ainda sem saber o verdadeiro motivo. Riam como crianças ingênuas, mas essa ingenuidade não demorou a desaparecer. Para suas versões alteradas, estavam com uma pessoa desconhecida e precisavam aproveitar o momento único de prazer envolvendo um homem e uma mulher.
Chegou a vez de ela ajudá-lo a tirar sua camisa e a calça social que ele odiava, e que segundo Thaís, era necessária em uma festa de formatura. Ela deu dicas de figurino, o que não já importava mais. Estavam completamente nus e puderam aproveitar a sensação de uma primeira noite de amor, sem imaginar que isso jamais iria se repetir e que esse amor, verdadeiro e que desconheciam, ficaria perdido no tempo.
Quando acordou algumas horas depois, Thaís Fontaine se espantou ao perceber que estava nua deitada sob o peito de seu melhor amigo. Não se lembrava de nada, o que não impediu que ela entendesse que chegaram ao extremo. Não era boba a esse ponto e sabia que eles abusaram de todas as regras de uma verdadeira amizade entre homem e mulher.
Tomando cuidado para não acordá-lo, a recém-formada em Direito se vestiu e deixou o carro, se envergonhando de ter tido uma noite de amor com seu melhor amigo.
Apesar disso, a pior notícia ainda estava por vir.
Algumas semanas depois Thaís descobriu que estava grávida. Ainda que tivesse um namorado, tinha convicção de que o filho era de Franccesco Fracalossi. Uma mulher sabe o que acontece em seu próprio corpo e com ela não seria diferente.
Em prantos, refletiu: Não posso contar a verdade. Vou precisar cuidar desse filho, mesmo que seja sozinha. – outras perguntas surgiram em sua mente e ela não hesitou ao responder cada uma delas – Quando ele ficar maior e perguntar sobre o pai, vou dizer que faleceu antes do parto ou que o pai desapareceu ao descobrir que eu estava grávida. É injusto com Franccesco, e com meu filho, mas não tenho coragem de... – Thaís era uma boa pessoa e sabia que era um erro, mas que escolha uma mulher tem em uma situação como essa? – O que ninguém pode saber, continuou em devaneio, é que tenho um filho do meu melhor amigo... – e colocou a mão em seu ventre, onde crescia o pequeno garoto que receberia o nome de Wellington.
Em nenhum momento Thaís Fontaine pensou em abortar seu filho. Também não tinha coragem de dizer a verdade. Sabia sim que Franccesco iria aceitar a criança e daria o maior amor do mundo, seria um pai coruja. O que ele não aceitaria era a mentira e depois que fez a escolha, não poderia voltar atrás. O amava e uma gravidez poderia significar o velho golpe da barriga. Isso não era verdade. O problema era a sociedade da época, ainda muito careta. Ninguém acreditaria, mesmo que dissesse a verdade.
Quando tomou essa decisão, não pretendia voltar a vê-lo. Sentiu saudade. Chorava dia após dia. Quis voltar atrás. Contar a verdade. Declarar que o amava. Era uma mulher forte e ao mesmo tempo tinha medo das consequências de seus atos. Era muito nova e sua jovem cabeça tomou a decisão de guardar segredo por anos. Não tinha como mudar essa escolha.
Ficaram afastados até que o destino voltou a uni-los em abril de 2003. A partir de então, não se afastaram novamente. Nem por isso a verdade foi revelada. Jamais seria. Thaís pensou em contar tudo a ele, porém na época Franccesco estava conhecendo sua futura esposa e a delegada não julgou ter o direito de estragar a vida do detetive, que logo se casou e teve um novo filho. Era feliz com essa vida, por isso Thaís precisava levar esse segredo ao túmulo.
Ninguém saberia que Wellington era filho de Franccesco Fracalossi, o maior detetive do país. Ainda que o italiano se identificasse com a personalidade do jovem baixista, jamais desconfiaria que o belo rapaz, que encantava todas as garotas e era educado e perfeccionista, na verdade tinha o sangue da família Fracalossi circulando por seu corpo.
Thaís Fontaine guardaria seu sentimento. Não teria nenhum outro relacionamento com um homem. Não revelaria a ninguém que o sexo afastou o seu verdadeiro amor. Não revelaria a ninguém que amava Franccesco como um homem e não apenas como um amigo...
Ricardo Biazotto (@ricbiazotto)