Pela janela, vejo fumaças, vejo pessoas...
Esses versos jamais fizeram sentido após como tantas noites, perder o sono e admirar a vista da janela do edifício. Me perdi ao fantasiar vendo fumaças, vendo pessoas...
Jamais quis, ao perdão da palavra, cuidar da vida alheia, mas admirar as pessoas passeando, me deixou intrigado: O que fazem altas horas da madrugada, andando pelo calçadão? Será também têm insônia? Será sofrem de algum mal? Então me dei conta dos outros apartamentos acesos, ainda no mesmo bloco, ou no prédio vizinho, e imaginei o que as pessoas poderiam estar fazendo? Satisfazendo-se? Assistindo tevê? - as luzes que ora apagavam, ora aumentavam, denunciavam a troca de canais. Será estavam à dormir, com as luzes acesas? Algum problema de existência?
Na rua, uma moto passou roncando na pressa, para entregar a encomenda de algum vizinho abaixo... o pobre motoboy perdendo a noite para alguém que buscava a praticidade... Vá dormir! Tentei gritar para ele não acordar outros, e percebi a hipocrisia, ordenando à alguém o que deveria estar fazendo.
Mais ao canto, um grupo de três ou quatro prostitutas estavam paradas em frente à um carro, e uma delas, a escolhida, adentrou. Comparei isso como quando compramos sapatos ou outros produtos: escolhemos o que nos agrada, pagamos, e levamos embora! Neste caso, levamos embora e depois pagamos, mas ainda assim, boquiaberto me peguei ainda vendo a minha podridão ao reparar na vida alheia... Ora! Ele tem direito de satisfazer seus desejos...
Mais adiante, luzes começaram à se apagar, olhei pra tevê ligada, realmente já era tarde! O filme tinha acabado... Então ainda debruçado no parapeito, me lembrei de quando criança, quando corria e achava, que dobrando a esquina, tudo se desfaria em névoa e bruma, e as pessoas não existiriam mais... Um pensamento bobo mas pueril, e me vi pensando na criatura-criador, lembrando do quão ridículo soa isso atualmente... Onde já se viu! Cada um tem a sua vida, quando viro a esquina, nada se desfaz ou se esvai. Tudo continua como é...
E vendo pelos olhos da criança, e do adulto que quase me formo, pensei que estava e estou certo...
Após virar a esquina, tudo se desfaz, realmente aos meus olhos, e toma seu rumo, como cada vida é. Como cada um, tem direito de fazer dela, o que quer que seja.
E pensando nisso: "Que a vida alheia é feita também de escolhas", fui deitar.
Após virar de costas, não sei se tudo virou fumaça, se tudo se desfez, mas sei que aos poucos, as luzes foram se apagando, como o direito do livre-arbítrio nos abriga. Sei que aos poucos, o motoboy voltou pra casa, a prostituta voltou pra sua vida diurna, as tevês foram desligadas e as pessoas apagaram as luzes, pra tentar dormir, e sonhar com outra realidade menos concreta.

... Na mente fantasia, na mente fantasia...

Eduardo Rezende

Dualismo eterno em nossa mente...
A mente humana é cheia de surpresas e situações às vezes incompreensíveis, como o fato de muitas vezes a vida alheia ser mais importante do que nossa própria vida. Mas é natural imaginar o que se passa na mente das pessoas ao nosso redor, seja dentro de um ônibus ou de uma boate; olhando para a casa vizinha ou para a pessoa que passa ao nosso lado em uma calçada; ou simplesmente olhando nos olhos de uma pessoa que conversamos no nosso dia-a-dia.
Mania de uns ou de todos, para mim é praticamente impossível conversar com alguém e não perguntar ao meu inconsciente: “Será que era isso mesmo que ela queria dizer?”.
Certa vez, tive a oportunidade de conversar com um senhor, ex-funcionário do INSS, que já com seus setenta e tantos tinha dificuldades de locomoção. Morava sozinho em uma casa de esquina, em uma rua de paralelepípedo (comum na cidade), de apenas dois cômodos (sala/quarto e banheiro) e precisava sempre depender de quem passava na calçada e olhava pela porta, curioso com o que se passava ali, e ainda torcer para que as pessoas fossem simpáticas, o que é difícil nos dias de hoje.
Apesar de uma única conversa, que durou quase uma hora, jamais esqueci o rosto daquele senhor, com a barba por fazer, olhos verdes e a perna manca, e que mesmo solitário tinha um sorriso estampado em sua face. Durante a conversa, ele contou sobre a esposa já falecida, mostrou uma fotografia de quando ainda era jovem, e quando disse sobre minha família, ele citou: “Eu conheço o seu avô. É um grande amigo meu”. A conversa continuou e já estávamos nos despedindo quando ele voltou a falar sobre o assunto: “Peça para seu avô me fazer uma visita. Será um prazer reencontrá-lo”.
Saí daquela casa e na primeira oportunidade dei o recado, porém nunca me interessei em saber sobre o reencontro de dois grandes amigos; nunca voltei a falar com o senhor, apesar de passar em frente a sua casa todo santo dia.
Mais de quatro anos se passaram e ainda me preocupo com a vida dele; lembro-me desse encontro ao caminhar em frente a casa, que poucos meses atrás se transformou na sede de uma pequena empresa de segurança em rodeios e que hoje voltou a ser uma simples residência. Não sei que fim levou o senhor de sorriso simpático. Talvez já esteja morto, no esquecimento de grande parte de amigos e familiares. Mas seu rosto continua vivo em minha mente e todos os dias, sem exceção, faço outra pergunta ao meu inconsciente: “Será que na verdade ele não estava pedindo para que eu voltasse a visitá-lo?”.
Talvez entre a história desse senhor, as palavras de Eduardo Rezende e o que eu realmente quero passar não tenha nada em comum. Ou talvez tenha, depende da visão de cada um. O que importa é o fato de que em ambos os casos, estávamos mais preocupados com a vida alheia do que com nossa própria vida. Uma síndrome do século XXI? Não, uma síndrome da mente humana.
Imagine como seria diferente se entendesse a possível mensagem do senhor e ao passar em frente a sua casa, dia após dia, não vê-la como uma simples construção. Não ignoraria como fazemos com milhares de coisas que estão a nossa volta. Talvez o cumprimentasse e tornasse seu amigo. Poderia ser o que ele desejava...
Por isso também acredito que a vida alheia é feita de escolhas, mas escolhas que podem influenciar a nós mesmos. Uma única hora pode ser suficiente para transformar uma vida inteira. Se me importo em me preocupar com a vida alheia? Não! Me importo mais por não ter me preocupado com as mudanças que a vida alheia poderiam causar em minha vida própria e que minha vida própria poderia causar na alheia. No fim, essa preocupação não passa de fantasia de uma mente paranoica, que nunca saberá a verdade, assim como nunca deixará de pensar no tal “ex-funcionário do INSS”.

...O certo e o errado, o sim e o não...

Ricardo Biazotto

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