Traduzir uma obra é uma tarefa complicada, ainda mais quando se trata de uma obra de extremo valor cultural, social e político, como é o caso de Gol de Esquerda (Resenha), do israelense Ronny Someck. Para que a obra do poeta israelense mais traduzido no mundo chegasse em grande qualidade ao português, era necessária a participação de um grande tradutor e isso de fato aconteceu. O tradutor em questão é também jornalista, ensaísta, poeta, professor e doutor em Língua Hebraica e Literatura Judaica da Universidade de São Paulo. Além de participar dos principais jornais impressos do país, ele também é autor/tradutor de inúmeros livros, sendo que sua primeira obra, de 1993, lhe garantiu o Prêmio Jabuti, a mais importante premiação literária do Brasil. Homem das palavras e de uma inteligência única, Moacir Amâncio lançou em 27 de dezembro o livro Gol de Esquerda nas festividades dos 163 anos de Espírito Santo do Pinhal-SP, sua cidade natal, e estávamos De Olho Nele:
Ricardo Biazotto (Over Shock) - Você está lançando o livro “Gol de Esquerda”, do poeta israelense Ronny Someck. Quem é Ronny Someck e o que o leitor pode esperar desse livro?
Moacir Amâncio - Olha, o Ronny é um poeta israelense, tem 61 anos, nasceu no Iraque, em Bagdá, e foi levado para Israel aos dois anos de idade pela família. Ele é o poeta israelense talvez mais traduzido hoje, com livros de poemas publicados em 40 línguas, agora inclusive o português.
Então, o que o caracteriza de maneira mais marcante é que ele é um poeta que fala da localidade dele, das situações dele, mas fala para o mundo. Ele é israelense, ele é iraquiano, e ao mesmo tempo ele é um homem universal. Então, aí está um dado assim muito importante na poesia dele, que fala tanto para o seu país, como aos países vizinhos, as culturas vizinhas, e outras culturas do mundo.
É interessante, ele tem livros publicados em países árabes, versões para o árabe no Egito, e ele também trata dos temas árabes nos poemas dele, mas ele não trata com uma questão obviamente política. Ele trata como a questão simplesmente poética. Então a amizade, a paz, por exemplo... A paz ela é, sobretudo, poética, porque ela propõem a união entre as pessoas, esse convívio, e a criatividade e criação para o mundo. Essa mensagem política da obra dele não está explícita, mas está lá presente. Essa é uma mensagem muito interessante, tanto para pessoas que vivem no Oriente Médio, como pessoas que vivem no Japão, pessoas que vivem no Brasil e as pessoas que vivem em Pinhal.

Ricardo (Over Shock) - Por que o título “Gol de Esquerda” e qual o significado da capa?
Moacir - O título é de um poema dele, que chama Gol de Esquerda, que é uma homenagem a um jogador de futebol húngaro chamado Puskas, que foi famoso, era tipo um Pelé da época. O Ronny é um entusiasta de futebol, ele gosta muito de futebol, então ele mesmo sugeriu o título. E ele fez mais: como ele é artista plástico, ele expõem e faz amostras importantes, ele também fez o desenho que serviu pra capa, que foi usado para a elaboração da capa. E a capa é um jogador de futebol. Se alguém prestar atenção nesse jogador de futebol vai verificar que é um jogador de futebol brasileiro. Quem tem o livro, logo em seguida (após a capa) aparece a reprodução do desenho, quem gosta de futebol vai identificar o jogador. Não vou dizer porque é uma brincadeira.

Ricardo (Over Shock) - Qual a importância de um livro como esse para o atual momento de Israel e de outros países do Oriente Médio?
Moacir - É, como eu disse, chamar realmente a atenção para a universalidade do mundo. O mundo não é só aquela pessoa que vive em seu lugar, no seu suposto lugar, ou seu suposto país. O homem, ele está em todos os lugares. Não um homem como um todo, mas o homem individual. Ele estando junto, em todos os lugares está em nós também. Seja em nossas informações, em nossa cultura, em nossa ascendência, na nossa roupa também, no nosso gosto, nas músicas que a gente ouve, nos livros que a gente lê. A gente vê, por exemplo, um livro de um escritor francês que está França, e o escritor francês está com a gente aqui também.

Ricardo (Over Shock) - Recentemente você participou ao lado do poeta Ronny Someck da Jornada de Poesia do Oriente, na Universidade de São Paulo. Para você, qual a importância desse evento e da participação de Someck e de outros importantes poetas orientais?
Moacir - Esse evento tem maior importância, porque ele chamou a atenção para a questão da poesia, da produção da poesia em países diferentes. Tivemos lá um poeta russo, um poeta coreano, uma poetisa japonesa, um poeta chinês e o poeta iraquiano também. O Ronny é iraquiano, mas ele é judeu, e a questão religiosa muda um monte de coisa no Oriente Médio. Então essa reunião, esse encontro, é mostrar para o público brasileiro, que puderam estar lá na USP, ou pela internet através do You Tube, que foi transmitido, o que é que os poetas estão pensando, estão trabalhando a linguagem, como eles estão vivendo as questões e transformando em linguagem poética. Ou seja, informação cultural da maior importância, da maior qualidade. Veja bem, se você perguntar quanto isso vale em dinheiro, é um valor imensurável. Não tem como avaliar isso aí, porque você não pode avaliar o valor de humanidade. É isso que eles trouxeram pra gente.

Ricardo (Over Shock) - Como foi a estadia de Ronny Someck no Brasil?
Moacir - Foi ótima! Ele pediu assim: “Moacir, eu não posso ir ao Brasil sem ver um jogo de futebol. Seja em qualquer divisão, vê se você consegue um ingresso pra gente” - ele e a mulher dele, que também gosta de futebol. Então nós fomos assistir um jogo do Corinthians com o Coritiba no Pacaembu.
Eu não sou corintiano, eu sou são-paulino, mas eu tive uma vitória aí. Ao final, eu falei: “Poxa, eu sou são-paulino, agora vocês estão com uma vitória maravilhosa do Corinthians, foi um jogo espetacular. Eu são-paulino e vocês vão acabar virando corintianos”. Eles adoraram o jogo, mas ele falou assim: “Não, não! Eu sou são-paulino”. Então eu estou mandando pra eles três bonés do São Paulo, porque eles têm uma filha lá.

Ricardo (Over Shock) - Como tradutor da obra, como você se sente lançando esse livro nas festividades de 163 anos de Espírito Santo do Pinhal?
Moacir - É uma alegria fazer isso. Divulgar um poeta que eu considero importante, que eu traduzi, um poeta bacana, e trazer pras pessoas aqui essa mensagem dele. Isso pra mim é importante. É poesia e sempre que se trata de divulgação de poesias, eu estou nessa!

Ricardo (Over Shock) - Após todo o processo de divulgação do livro “Gol de Esquerda” você já tem novos projetos de traduções ou trabalhos próprios na literatura?
Moacir - Eu tenho sim, estou trabalhando, preparando um livro, ainda está sem título, mas já estou trabalhando os detalhes do livro. Estou trabalhando na tradução de poesias medieval e um outro poeta, hebraico. É um poeta incrível e acho que vai demorar um pouco, porque não é brincadeira traduzir esses caras. Dá trabalho, mas estou sempre trabalhando com isso.

Entrevista concedida ao bloco “Devaneios”, de Ricardo Biazotto, no programa “Patrícia Françoso com Você” - Rádio Comunidade Viva FM 106,3 – e que foi ao ar no dia 10 de janeiro de 2013.