Ladrão de Almas, Alma Katsu, tradução de Ana Paula Doherty, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2012, 430 páginas.

A estreia da autora Alma Katsu no mercado literário aconteceu com o livro Ladrão de Almas, o primeiro de uma trilogia que une romance histórico e uma narrativa sobrenatural com muito mistério.
Ladrão de Almas tem início nos dias atuais, quando o médico Dr. Luke Findley está de plantão em um hospital e conhece a jovem Lanore McIlavraeLanny – que é suspeita de assassinato. Luke sente-se atraído por ela e aceita ajudá-la, apesar de não conhecer nada sobre essa misteriosa mulher, que aos poucos conta sua história. Uma história de amor que ultrapassou os séculos e a barreira da mortalidade.
O relato de Lanny tem início no século XIX, na cidade fictícia de St. Andrew, que recebe esse nome em homenagem a uma importante família da época. Esse também é o sobrenome do encantador Jonathan, por quem Lanny - e todas as garotas da cidade - era apaixonada desde sua infância. Para salvar o amor e ficar ao lado de Jonathan, a misteriosa jovem será capaz de tudo, até mesmo envolvê-lo em uma história que já dura séculos.

“De qualquer maneira, o resultado era sempre o mesmo: quando Jonathan não dava mais atenção, era como se o Sol se escondesse atrás de uma nuvem e um vento frio e cortante batesse nas costas. Tudo o que queria era que Jonathan voltasse, para ter sua atenção de novo” (pág. 34).

A narrativa de Ladrão de Almas é dividida em quatro partes. Na primeira delas, somos apresentados aos personagens principais e acompanhamos o início do romance envolvendo Lanny e Jonathan, ainda em séculos passados, romance esse que em nenhum momento se torna enjoativo, ao contrário de outros livros do gênero, onde nos cansamos pela quantidade excessiva do drama. Já na segunda parte, somos apresentados a novos importantes personagens e tem início, por fim, a parte sobrenatural da obra de estreia de Alma Katsu, que ganha novos níveis com o passar dos capítulos e segue uma importante estrutura a cada parte.
O interessante é o uso de prelúdios, dando ao leitor a possibilidade de conhecer o passado ao mesmo tempo em que acompanha o presente de Lanny, que narra sua história ao médico que está ao seu lado nos dias atuais. Ela se envolve com ele e o coloca em um túnel sem saída, impossibilitando-o de voltar atrás em sua decisão. Com isso Luke não tem outra escolha a não ser ajudá-la, sem se importar em estar preso em uma história que envolve muito mais do que ele poderia imaginar quando a conheceu.
Já nas primeiras páginas que têm como cenário o século XIX, somos envolvidos com a atmosfera da sociedade da época, que possui grande singularidade, e que deixa o livro com um ar sombrio. Isso apenas se intensifica conforme o lado sobrenatural vai sendo apresentado ao leitor e conhecemos também uma história que teve início muito antes, ainda no século XIV, e de extrema importância para toda a trama, que ainda possui um mistério, sobretudo sobre a vida das personagens.
O grande problema é que o conceito de “ladrão de almas” não é nada inovador. Usado em demasia no cinema, na literatura e em outras áreas de ficção, o livro só não se torna dispensável por ter um ótimo desenvolvimento e envolver muito mais do que isso. Podemos dizer inclusive ser um livro forte para determinados tipos de leitores, já que encontramos cenas de sexo, inclusive abusos, agressões, perversidades e também pressões psicológicas, que podem causar angústia em que lê tais cenas. Personagens traídos e vingativos fazem com que tudo tenha algo surpreendente, já que cada nova página é uma nova surpresa.

“E a pior parte, a parte que eu não suportava encarar, era a razão de ele ter me escolhido para fazer parte daquela família tão perversa. Deve ter visto algo em mim que me fazia como os outros; talvez estivesse escrito em minha alma que eu fora egoísta a ponto de fazer outra mulher tirar a própria vida para ter quem amava” (pág. 241).

Com personagens bem elaborados, e repletos de segredos, Ladrão de Almas mostra diversos tipos de personalidades, além de revelar muito sobre a sociedade da época descrita. Apesar de ser uma ficção, imaginamos que a autora precisou de uma refinada pesquisa para deixar tudo muito real, assim como imaginário. A relação de homens de poder com as mulheres, além da forma como elas eram tratadas revelam essa realidade buscada por Alma Katsu, que ainda faz um breve apanhado de outras situações que estão por trás de um determinado grupo de pessoas.
Já em relação aos personagens, a autora diversificou muito bem e ainda revelou a história de grande parte deles – pelo menos os principais envolvidos do lado sobrenatural da trama -, sendo que o antagonista se destaca entre os demais por ter características fortes, apesar de ser desprezível na maioria de suas aparições. Ponto positivo para a autora, que revelou muitas coisas; ponto negativo por ela ter deixado algumas coisas em aberto ou não ter explorado adequadamente o que já poderia ter sido esclarecido no primeiro volume.
Apesar de ter sido citado que existem situações surpreendentes, algumas peças parecem ser jogadas na cara do leitor, para que ele as pegue e monte um quebra-cabeça. Resta saber até que ponto passará pela cabeça do leitor o que a autora é capaz. Sabemos apenas que ela criou uma história empolgante, com coisas nem sempre criativas, mas que acima de tudo busca mostrar as consequências e as batalhas de um verdadeiro amor. Nesse caso, um amor que precisou enfrentar o tempo e que pode ou não terminar em um final feliz - apesar do desfecho dessa obra. Isso só será revelado com os próximos livros, mas existe uma certeza: Alma Katsu tem potencial para continuar surpreendendo.

“Fizemos amor ali mesmo, embaixo das estrelas. Nós nos mexemos durante o ato sexual, porém, algo mudara entre nós. O sexo era vagaroso e carinhoso, quase cerimonial; mas como podia reclamar? O turbilhão de nossa paixão de juventude havia passado e em seu lugar ficara algo amoroso, mas que me deixava triste. Era como se estivéssemos nos despedindo” (pág. 415).

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