Estação Jugular: Uma Estrada para Van Gogh, Allan Pitz, 2ª edição, Içara-SC: Dracaena, 2012, 132 páginas.

Dono de um estilo inconfundível de escrever, Allan Pitz é apontado por muitos como uma das maiores apostas da nova fase literária brasileira. Com inúmeras premiações e participação em diversas antologias, já teve livros lançados em países como Inglaterra e Canadá, e uma de suas principais obras foi relançada pela editora Dracaena em 2012.
Lançado originalmente em 2011, Estação Jugular: Uma Estrada para Van Gogh começa nos apresentado a um técnico de informática que está fugindo, sem saber de quem ou para onde está indo. Ele simplesmente entra em um ônibus, o único na Estação Jugular, e é informado pelo motorista – única pessoa além dele nesse ônibus – que estão indo ao ponto final. Durante a viagem, o protagonista se vê em um mundo novo, onde nada é como deveria e costumava ser, e a cada nova estação, ele luta para entender o que de fato aconteceu com si mesmo.

“Esse homem era absurdamente louco! A humanidade evoluiu muito de Moisés a Dolce & Gabanna; seus comparativos são no mínimo ao melhor estilo "advogado porta de cadeia", não poderia haver comparativos! Jesus barrado numa Fashion Week?! Giselle Bündchen fotografada com São João Batista e Maomé!” (pág. 23).

Inúmeras são as razões para o livro ter em seu título o nome de Vincent van Gogh, um dos maiores pintores de todos os tempos. O motivo pode ser devido ao estilo de Van Gogh, um pintor do pós-impressionismo que mostrou ao mundo uma forma diferente e única de se expressar através de sua arte, com trabalhos em que “nada é como deveria ser”. A personalidade, e a própria história de Van Gogh, também podem ser fundamentais para essa escolha, lembrando que o pintor enfrentou diversos fracassos em sua vida. Ou talvez seja uma mistura de ambos os casos.
A princípio é bom frisar que Estação Jugular não é um livro destinado a todo tipo de pessoa, e muitos podem não encontrar o que estão acostumados na literatura. Apesar de também estar classificado como uma distopia, não é um livro de entretenimento. É sim um romance, mas um romance filosófico em que, a exemplo de outro livro de Allan Pitz, A Arte da Invisibilidade (Resenha), ele joga as palavras na cara do leitor para que esse reflita da maneira que bem entender.
Mas existe uma clara diferença em ambas as obras, principalmente em relação a forma polêmica como o autor utiliza as palavras. Apesar delas também serem jogadas, elas não possuem um tom de revolta com o mundo; talvez apenas revolta do protagonista com a situação vivida por ele próprio, afinal, o livro é narrado em primeira pessoa. Acaba sendo simplesmente reflexivo, obrigando o leitor a deixar o livro de lado para discutir consigo mesmo o que está na vida do personagem e nas páginas dessa obra.

“O dia mais temido é aquele em que as respostas sucumbem às perguntas, em que os trilhos parecem não sustentar o trem, em que o descarrilamento mental parece a única saída lógica para seguir num trilho, qualquer trilho, desde que seja uma linha com trajeto indiscutivelmente conhecido” (pág. 69).

A cada nova página, o protagonista vai avançando pelas estações desse lugar em que está, e vamos nos surpreendendo com a criatividade do autor, ao mesmo tempo em que esperamos ansiosamente pelo que ainda está por vir. Vamos também conhecendo a verdadeira personalidade desse personagem, a evolução que sofre ao longo da história, e ainda o motivo que o levou até a chamada Estação Jugular. Podemos, ou não concordar com certas opiniões, mas independente do caso, vamos refletir sobre nossa visão do mundo, e até mesmo sobre o poder de Deus ou da energia que comanda tudo.
Com capítulos curtos, ótimas descrições, diálogos fortes e citações que complementam a cena em questão, Estação Jugular é uma leitura dinâmica e rápida, já que isso faz parte do estilo de escrita de Allan Pitz. Uma obra perturbadora, filosófica, marcantes, complexa, com lições e ensinamentos de um filósofo contemporâneo.
Muitos assuntos estão em questão em Estação Jugular, mas o autor procura mostrar que existem coisas que não podemos ignorar, já que se estão ali, é por algum motivo especial. Não devemos aceitar tudo o que acontece, sem nos questionar; a comodidade e o pensamento egocentrista não devem permanecer em nossa mente. O atual momento da sociedade não nos permite ignorar certas coisas, por isso a obra é ideal para aqueles que estão cansados da maneira como as pessoas lidam com as coisas ao seu redor. E como diz o editor Léo Kades: Allan Pitz é um escritor para poucos.

“No entanto, o que é o Mal? É o homem vermelho de chifres, a aberração, o monstro, o medo? Não... O Mal, o demônio, o negativo, é aquilo que nos tritura a boa essência, aquilo que nos deforma por dentro, aquilo em que podemos nos transformar no escuro, na solidão de um pensamento longínquo, em uma vontade, um equívoco, uma escolha, postura. O Mal é tão complexo e vasto quanto os possíveis atos de benevolência; tão presente na Terra quanto no som” (pág. 111).

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