OBS: A crônica abaixo não tem a intenção de desmerecer editoras, autores ou livros (são apenas exemplos), mas sim revelar possíveis mudanças.

Meu pai eu confesso, eu faço prosa e verso...
Vamos aos fatos:
Enquanto o brasileiro ler em média quatro livros ao ano, será totalmente inviável para uma editora apostar apenas em autores nacionais, e por isso é necessário investir em dezenas de autores estrangeiros, para que o lucro possa ajudar um único autor nacional, por exemplo. Questão de lógica. Para que os brasileiros sejam tão valorizados como os gringos, muita coisa deve ser mudada.
O brasileiro tem a mania de idolatrar o que é do estrangeiro. Quando perguntado sobre uma banda, a resposta se refere a um grupo do exterior (por que Beatles e não Legião?); quando perguntado sobre um ator, idem; já uma viagem, nunca é citada as regiões brasileiras e sim Londres, Paris, Madrid, Roma (como é o meu caso); até canais de televisão acontece isso. A primeira mudança deve partir daí. Esqueça os malditos gringos, porque eles nem se importam com os brasileiros. Eles querem que a gente vá pra merda e nós os consideramos como deuses. Chega disso!
O sistema também tem culpa, e muita culpa. Como disse certa vez o grandioso e inteligentíssimo Jô Soares, Machado de Assis deveria ser proibido, já que os estudantes iriam querer saber o motivo dessa proibição e iriam ler um clássico da nossa literatura. Obrigar a leitura nunca ajudará – sou prova disso – e isso resulta na baixa média de livros lidos ao ano, citada no início. Uma triste realidade, que também tem importante ligação no mercado editorial.
Mas ao mesmo tempo em que o sistema tem culpa, ele também ajuda. Mas quantos autores paulistas (tenho certeza de que outros estados também têm esse tipo de projeto) conhecem o PROAC? O tal Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo financia diversos tipos de trabalhos culturais, inclusive o de literatura, claro. Enquanto os autores precisam se endividar para publicar um livro por uma editora que não dá o devido valor ao seu trabalho, o governo financia trabalhos literários e com qualidade impecável – quem quiser conferir um trabalho publicado através do PROAC, indico o livro Um Lugar para se Perder, de Alexandre Staut.
Aí surge um novo problema: a impaciência do brasileiro. O autor não pode terminar o livro e com calma buscar uma editora, mesmo que seja uma editora pequena? Sim, ele pode, mas a necessidade de publicar é muito grande. Precisa se tornar famoso (todos queremos), mas, aproveitando a época, se esquece de que pode se tornar como um ex-BBB (leia “celebridade instantânea”). Cito como exemplo dessa calma um grande poeta e conterrâneo que lançou seu primeiro e único livro há exatos 30 anos. Pode ser considerada uma verdadeira celebridade da cidade e até hoje trabalha com a literatura. Não vive de literatura, mas trabalha por ela. Trabalha com as palavras. Pensa no futuro dos jovens e não em se tornar famoso, ganhar dinheiro através disso. O mais importante para ele é escrever – por isso continua escrevendo e com uma infinidade de conteúdo que poderia ter sido publicado -, mostrar o prazer da leitura, ver uma criança empolgada com um livro. Por isso que ele não escreve qualquer merda que seja comercial – deixa que o Michel Teló já faz isso muito bem, ou não.
A vontade do autor brasileiro em publicar é tanta que aceita qualquer editora, em que são necessários custos altíssimos. Tais editoras não dão o devido valor a essas obras; deixam com erros imperdoáveis; sem uma diagramação interessante para todos. O autor se importa com isso? Não! O que realmente interessa é ter um livro em mãos. A consequência disso é ser tachado como um autor de péssima qualidade por estar em determinada editora. Mesmo com uma obra fantástica, o símbolo editorial na capa pode acabar com uma carreira – acredite, eu sei do que estou falando. Pior do que isso apenas o fato de assinar qualquer contrato, sem estudar bem tudo o que está incluído nele. Quando resolver reclamar sobre a falta do pagamento de diretos autorais, por exemplo, pode ser tarde demais.
Por fim entra outra grande culpada dessa história (culpada em termos): as editoras. Como qualquer empresa, ela precisa lucrar para continuar em pé. Novamente questão de lógica. E para que ela se mantenha em pé, são necessárias publicações que chamem a atenção, vendam. Ninguém pode esquecer que grande parte dos jovens brasileiros começou a ler com sagas gringas e que foram adaptadas (Harry Potter, Crepúsculo, Percy Jackson, Jogos Vorazes, etc). Agora diga: quantas obras nacionais foram adaptadas e divulgadas? (Não vale dizer novela global que chama atenção pela putaria). Não adianta pedir para as editoras investirem em nossos autores, se nossos leitores investem seu dinheiro e tempo em qualquer saga de vampiro que brilha. Enquanto o vampiro que brilha der dinheiro, as editoras vão apostar nele, assim como o canal de TV vai produzir uma novela com putaria, ao saber que isso chama a atenção da grande massa. Questão de lógica.
A realidade do mercado editorial brasileiro é muito triste. O brasileiro quer viver de literatura, mas ainda não sabe como – não estou dizendo que sei, que fique claro. E quando a bomba estoura... Passou da hora de todos mudarem. Os autores são fantásticos, tanto que da minha lista de favoritos muitos são nacionais, mas nós (me incluo nessa) também precisamos mudar. Quando o nosso hábito mudar, em todos os sentidos, tenho certeza de que as empresas (leia editora/mídia) sentirão a diferença e nossos livros serão contratados, e não nós iremos contratar uma editora para nos publicar.

... Se isso for um crime, quero ir logo pra prisão.

Ricardo Biazotto

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