O Mistério do Círculo, Leandro Luzone, 1ª edição, Osasco-SP: Novo Século (Novos Talentos da Literatura Brasileira), 2010, 432 páginas.

Antes de escrever seu primeiro livro, O Mistério do Círculo, o advogado e agora escritor Leandro Luzone visitou a Inglaterra e a Itália para conhecer melhor todos os cenários do enredo de uma obra que tinha tudo para ser perfeita.
A história se foca na pesquisadora Ayna Fulke e no padre italiano Gianluca Bonera, que se conhecem quando Bonera busca informações sobre a pesquisa realizada por Ayna com células-tronco, o que pode salvar a mãe do sacerdote. Os dois se conhecem ao mesmo tempo em que acontece uma série de misteriosas mortes com instrumentos usados pela Igreja na época da Inquisição.
Fica claro, desde o início, que a Congregação para a Doutrina da Fé, que substitui a Inquisição, pode estar envolvida nessas mortes, por esses e outros motivos, Bonera se preocupa com Ayna, uma sacerdotisa do Círculo e que pode ser uma futura vítima do assassino. Com isso, os dois passam a ajudar o inspetor da Scotland Yard, Kent Moreton, a solucionar os casos, conforme novas mortes vão acontecendo e tudo o que envolve o Círculo é revelado ao leitor e também ao sacerdote.

“Naquele instante, antes da aurora matinal, alguns corvos, que conseguiram entrar no edifício abandonado pelos vidros quebrados das janelas, consumiam partes do defunto pálido e frio. Com os bicos ensanguentados, arrancavam, vorazmente, os pedaços do cadáver, satisfazendo o apetite insaciável pela fresca carne humana” (pág. 64).

Desde o primeiro momento é perceptível uma semelhança entre O Mistério do Círculo e Faces de um Anjo (Resenha), ambos livros de autores nacionais que escrevem, com riqueza de detalhes, sobre formas de tortura e assassinato tão usados na época da Inquisição, que durou por vários séculos do segundo milênio. A principal diferença é que o livro em questão se voltou muito para o lado espiritual, com certa enrolação no desenvolvimento e também falhas na investigação policial.
O lado espiritual tem início quando o sacerdote, e paralelamente também a Igreja, passam a se envolver com a história. Inúmeras são as passagens bíblicas, inclusive citações, antes e depois da história em si, ao Evangelho de Tomé, e se não bastasse esse detalhe, tudo o que envolve o Círculo também tem um lado espiritual, bem trabalhado sim, mas cansativo. Aos poucos Ayna explica tudo de forma detalhada, mas nosso pensamento está na investigação; queremos saber o que o assassino ainda vai fazer, e talvez por isso não damos a devida atenção a esses ensinamentos que podem nos levar a reflexão, porém, não é o que esperamos desse tipo de livro – mesmo sabendo através da sinopse que a espiritualidade está presente.
Pior do que o excesso dessa espiritualidade, que não convenceu em nenhum momento, apenas a investigação. No início do livro, Leandro Luzone deixa claro que o Modus Operandi da Scotland Yard descrito em O Mistério do Círculo não passa de invenção de sua própria cabeça. Até entendemos isso, mas fica impossível aceitar certas atitudes da polícia.
Em determinados momentos, o leitor sabe que algo é suspeito e que precisa ser investigado. Até mesmo o detetive e toda a polícia sabem disso, mas eles simplesmente ignoram. O autor revela qual será a próxima vítima do assassino, que tem um motivo para matar determinada pessoa, e mesmo sabendo disso, a polícia não age; não protege essa pessoa, tentando evitar uma nova morte. Tudo segue como se eles quisessem esperar por um novo crime, como se só assim novas pistas aparecessem, e o objetivo de um livro onde a polícia precisa investigar um crime é justamente o contrário.
Há ainda uma série de cenas repetitivas, e também cansativas, porém um personagem consegue se destacar: inspetor Moreton. Como inspetor da Scotland Yard talvez ele não funcione, mas a personalidade por trás dele é sim convincente, ainda que não detalhada. Ayna e Bonera não são personagens ruins, mas o sentimento que surge, de maneira repentina e desnecessária, também pode ser considerado um ponto negativo.
Apesar de tudo o que foi citado, não é um livro totalmente ruim. O Mistério do Círculo peca mesmo pela parte investigativa e o excesso de citações espirituais, que encontraríamos mais em livros não-ficção. Muito bem escrito, e com ótimas descrições, o livro passa uma realidade única a cada novo assassinato, conseguindo mexer com os sentimentos do leitor enquanto uma nova sacerdotisa é assassinada, já que são cenas fortes. No fim, o livro tem um desfecho parcialmente óbvio, é bem escrito, com altos e baixos, algumas vezes surpreendente, mas infelizmente de mistério do Círculo existe muito pouco.

“Ele não conseguia admitir que a demência semeada pelos inquisidores, em busca das pessoas que ousavam pensar de forma diferente, representara um triste atraso cultural na idade cronológica do Homo Sapiens. Pior ainda, para ele, era imaginar que aquela realidade havia ressurgido, agora, em pleno século XXI” (pág. 241).

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