Na pressa do cotidiano, as vezes me pergunto como poderei inovar. Inovar tanto na escrita, quanto no modelo de postagem, nos simbolismos, nas pesquisas...
Apesar de tardio, resolvi dar o salve às leitoras do blog e às colaboradoras, fazendo uma postagem como à que se segue.
Não deixem de conferir O Livro Dos Dias, e obrigado à todos os elogios, críticas e sugestões. Estão sendo de grande valia para o amadurecimento deste espaço tão pequeno, mas que assim como faz pra mim, espero que também faça à vocês, a mudança, o amadurecimento e a reflexão.
(Desculpem por passar a mensagem um tanto quanto tardio. Creio que o que vale são as ideias expressas e os pensamentos não se perdem ao vento e ao tempo. Deixo, além da análise, uma síntese histórica, e uma justa homenagem... Tanto à data em questão, quanto ao rock brasileiro)

Já houveram diversos "Dias das Mulheres".
Não contrariando sua importância ou contexto histórico, mas convenhamos que a história muda conforme seus interesses e somos obrigados (pelo menos como parte do resto do mundo), à seguir preceitos descritos por tradições ou fatos que ocorreram e que marcaram a história e sociedade - de outros lugares, claro.
O "Dia das Mulheres" - apesar de ser todos os dias - é visto pela primeira vez na virada do século 20, no contexto da Segunda Revolução Industrial e da Primeira Grande Guerra, quando a mão de obra feminina se torna necessária nas indústrias. As condições de trabalho, geralmente perigosas, arriscadas e de péssima estabilidade era motivo frequente de protestos. Ocorrem neste período diversas manifestações para a valorização da mulher que estava se enquadrando no modelo social e econômico da época. O primeiro dia Internacional das Mulheres é celebrado em 28 de fevereiro de 1909 quando, nos Estados Unidos, por iniciativa de um partido de esquerda - Partido Socialista da América, faz homenagens em memória do protesto contra as más condições das operárias da indústria do vestuário de Nova Iorque.
Em 1910, partindo deste princípio ideológico, ocorre a primeira conferência internacional de mulheres em Copenhaga, dirigida pela Internacional Socialista - que sempre batalhou pela representação feminina, combatendo os idealistas de direita e seus pensamentos burgueses e preservadores (digamos conservadores "de bons hábitos"), quando foi aprovada a proposta da socialista Clara Zetkin (alemã, professora, jornalista e política), de instituição de um dia Internacional da Mulher, embora sem datas prévias. No seguinte ano, o Dia Internacional da Mulher foi celebrado em 19 de março, por mais de um milhão de pessoas na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suiça.Em 25 de março de 1911, um incêndio em uma fábrica mataria 146 trabalhadores - a maioria, costureiras - e foi considerado o maior incêndio  da história de Nova Iorque, até 11 de setembro de 2001. Não foi, portando, o primeiro Dia da Mulher, tampouco a primeira luta por igualdade no trabalho, embora, claro, não podemos esquecer a luta destas mulheres por quererem melhores condições no trabalho, salário honesto (ganhavam de seis à dez dólares por semana) e fuga da escravidão (quatorze horas de trabalho por dia). O incêndio foi importante para a conscientização do mundo, e sobretudo, a valorização da mulher no espaço de trabalho, mas não foi ele a causa primária do dia de comemoração à igualdade feminina. 8 de março de 1917, surge na Rússia a comemoração do Dia Internacional da Mulher que foram o grande começo da Revolução Russa de 1917. Uma grande greve de mulheres russas contra a fome, contra o czar Nicolau 2º e contra a participação do país na Primeira Grande Guerra, que precipitou acontecimentos que desencadearam à Revolução de Fevereiro. Trotsky diria que "não imaginavam que este 'dia das mulheres' viria a inaugurar a Revolução [Russa de 1917]".



A Banda Pitty teve seu início em 2003 e é uma das bandas mais consagradas de rock do país.
Com mais de 15 milhões de cópias vendidas, é marcada por vários tipos de música que se abrem em leque desde as românticas, estruturadas e críticas (as melhores, ao meu ver). Com linguagem direta e com atualidade aguçada, ao som de bateria, guitarra, baixo e vocal, a banda é marcada por diversas fases em alta, com uma vocalista de beleza e estilo única, que aos berros e calmaria, passa sua mensagem sem muito esforço para (em todas as vezes) plateias lotadas e público delirante. Uma trupe delirante em um admirável mundo novo.
A banda tem cinco grandes turnês: Admirável Turnê Nova (2003 - 2004), Turnê Anacrônica (2005 - 2007), {Des]Concerto ao Vivo (2007 - 2009), Chiaroscuro (2009 - 2010) e a última e tão boa quanto, A Trupe Delirante em Turnê (2011 - 2012), como a "Trupe Delirante no Circo Voador", uma apresentação no palco dos palcos. No palco da vida de Cazuza e tantos outros mestres.

Pitty começa a música com um ritmo de batidas que nos remetem à passos. E os passos caminham até os primeiros versos... “Já é tarde, tudo está certo, cada coisa posta em seu lugar, filho dorme, ela arruma o uniforme, tudo pronto pra quando despertar”. Os primeiros versos retratam a vida desta mulher guerreira. Amélia (que leva o nome da mulher brasileira guerreira, dona de casa, mãe e trabalhadora), é o retrato de tantas outras mulheres que quando já tarde, deixa tudo certo, tudo posto em seu devido lugar, para no outro dia, quando já cedo, acordar e ir pros seus afazeres e lucros sem atrapalhar-se. Amélia é “educada pra cuidar e servir”, porque o “desfeito à fez prendada”. Culturalmente falando, Amélia foi educada para ser mandada e não obedecida – não por falta de vontade (e/ou capacidade), mas por falta de espaço.  O efeito de se dedicar tanto aos seus afazeres domésticos e de suas obrigações no serviço e na sociedade, à faz esquecer da aparência e “de costume esquecia-se dela, sempre a última à sair”. “Disfarça e segue em frente, todo o dia até cansar”, nada mais claro. A beleza das letras da brilhante (tão bela quanto), Pitty, é justamente a clareza com que descreve suas histórias. Amélia disfarça sua realidade, seus preconceitos, suas injustiças, seguindo sempre em frente, todos os dias, até cansar, e “eis que de repente ela consegue então mudar”, quando ela “vira a mesa” e “assume o jogo” e aprende a fazer questão de se cuidar, de deixar de ser serva e objeto, Amélia se desconstrói e de coisa se torna alguém; já não quer ser o outro, já não quer ser exceção, hoje ela é um também, hoje ela é parte de um todo. Desemudeceu-se e criou seu espaço.
Apesar de ter-se especializado e lutado, Amélia ganha menos que o namorado, ora, tem talento e conhecimento, e é muita (se você quer saber!), e hoje aos trinta é melhor que aos dezoito, aprofundou seus talentos e habilidades, e tem tanta capacidade, que mesmo chegando tarde em casa, de cuidar dos filhos, de se arrumar e se ajeitar (em todos os sentidos) para o trabalho, consegue ainda se divertir... Levanta a cabeça, despe-se do uniforme da opressão, tinge-se da pintura dos disfarces para a idade e rugas do tempo... Amélia se arruma e vai ferver, dançar e extravasar a opressão das mulheres e arder a chama de vozes ativas.

Desconstruindo Amélia é a prova de que a mulher ainda sofre seus preconceitos sociais e ainda luta para fazer a diferença. Amélia é injustiçada; quando tarde, prepara tudo para o dia seguinte, pois leva uma vida dura e cheia de caos. Amélia sempre, desde cedo, com seus fogões de brinquedo e vassouras e panelas, foi educada para servir e cuidar. A mulher em questão, aprendeu, na sociedade, à disfarçar tais diferenças e seguir em frente, de “cabeça em pé e de queixo erguido”. Aprendeu que as mulheres, como ela, ainda lutam por um salário digno, de igualdade junto aos homens, mas sabe que numa sociedade machista, como a que vivemos, ela, com todo o seu talento de equilibrista é muita, e que apesar de ser melhor hoje, sabe que a sociedade não evoluiu. Amélia luta por igualdade por ser de um universo diferente. Amélia é objeto sexual, objeto oprimido, uma caixa de surpresas. Amélia é parte social, é religiosa, é o todo, é o generalizado. Amélia é toda a mulher oprimida socialmente. É a honra feminina de se conseguir fazer várias coisas ao mesmo tempo, o escudo protetor, é o que resumo o exemplo do que todas as mães são. Amélia é mulher.

Eduardo Rezende - Tenho 17 invernos de vida, sou jornalista, idealizador de um "Grupo de Debates", membro da "Casa do Escritor Pinhalense Edgard Cavalheiro", gosto muito da música popular brasileira, do nosso rock nacional, e de livros e café que aconcheguem e combinem. Fiz trabalho voluntário em Sala de Leitura e Estudo/Biblioteca, apaixonado por estudo de religiões, sociedade e simbolismos.