Histórias, nossas histórias, dias de luta, dias de glórias... E de luto. O luto inevitável que aparece sempre quando menos esperamos, e quando menos estamos preparados. Mas afinal, quem consegue se preparar para perder uma pessoa importante, para perder um verdadeiro ídolo? Ninguém! Ninguém está preparado, por isso a lágrima é tão inevitável quanto o próprio luto.
O dia 06 de março amanheceu mais triste para o mundo da música e para uma geração de jovens que cresceram ao som de uma banda que soube misturar gêneros para criar um som próprio. Um som que saiu da cidade de Santos para conquistar o país e o mundo, tudo graças ao talento, como músico e compositor, de Alexandre Magno Abrão, um poeta do rock nacional.
Paulistano nascido em 09 de abril de 1970, Chorão, como ficou conhecido, se mudou para Santos quando seus pais se separaram e parte da família ficou com a mãe, uma doméstica, e a outra parte com o pai, que fora menino de rua. Santos se transformou em sua grande paixão, o que era claro em suas composições, onde fazia questão de destacar a cidade litorânea.
Além da cidade, o Santos Futebol Clube e o skate também eram paixões de Chorão, que ganhou esse apelido na adolescência, quando ainda não sabia andar de skate e por isso ficava olhando os amigos. Um deles disse para ele não chorar e o apelido pegou.
Antes de conquistar o mundo da música, Chorão enfrentou dificuldades em sua infância e adolescência, principalmente devido à separação dos pais. Ia mal na escola e acabou abandonando os estudos ainda na sétima série. Teve problemas com a polícia e também em seus empregos, que segundo o próprio, “fracassou em todos”, mesmo quando precisou assumir a responsabilidade por ter um filho ainda muito jovem (atualmente com 23 anos).
A música sempre esteve ligada ao skate, esporte que mais praticava, porém sua carreira musical começou de forma inusitada. Durante um show em um bar, o vocalista da banda que se apresentaria teve problemas e precisou se ausentar. Eis que Chorão assume os vocais e mostra pela primeira vez ao público a sua voz inconfundível, o que motivou o convite para fazer parte de uma banda.
Não demora muito para Chorão conhecer o jovem baixista Champignon, de apenas doze anos, com quem forma a banda What’s Up. Mas a banda não dá certo como ambos esperavam, por isso convidam o baterista Renato Pelado, conhecido por outras bandas em Santos, e os guitarristas Thiago Castanho e Marcão. Estava formado o que viria ser a banda Charlie Brown Jr., talvez a banda mais importante do rock nacional nas duas últimas décadas.
No início, a banda não possuía um nome e ainda assim fazia apresentações em pequenas competições de skate. A banda foi batizada com esse nome após Chorão bater em uma barraca de água de coco chamada Charlie Brown e que tinha um desenho do famoso personagem criado por Charles M. Schulz. Além de Charlie Brown, Chorão acrescentou o Jr. como uma forma de homenagear as grandes influências dos membros do grupo com elementos do rap, do punk e também do reggae.
As apresentações no meio underground continuaram, até que uma fita demo da banda caiu nas mãos do produtor Rick Bonadio, que lançou grupos como Mamonas Assassinas (Majestades Eternas). Bonadio se interessou pelo Charlie Brown Jr. e lançou a banda para o cenário musical brasileiro com o álbum Transpiração Contínua Prolongada (1997), que vendeu mais de 250 mil cópias e tinha canções como O Coro vai Comê!, Tudo o Que Ela Gosta de Escutar e Proibida pra Mim (Grazon), uma das mais conhecidas canções da banda.
Proibida pra Mim (Grazon) foi composta em homenagem a então namorada de Chorão, Graziela Gonçalves, com quem se casou e ficou junto por cerca de quinze anos. A música estourou nas principais rádios brasileiras, e garantiu o prêmio de Banda Revelação do Video Music Brasil em 1998.
No ano seguinte ao lançamento de Transpiração Contínua Prolongada, o Charlie Brown Jr. inicia a gravação do segundo trabalho de estúdio, que recebeu o nome de Preço Curto... Prazo Longo (1999). Novamente a banda conseguiu atingir a marca de 250 mil cópias e ainda lançou outros singles de sucesso até os dias de hoje, como Te Levar, que durante sete anos foi tema de abertura da novela adolescente Malhação, da Rede Globo.
Ao longo de sua carreira, Chorão fez uma série de parcerias, sendo que uma das mais importantes aconteceu no terceiro álbum, Nadando com os Tubarões, de 2000, quando Negra Li cantou ao lado do vocalista a canção Não é Sério. Esse álbum marcou por possuir canções que mostravam o momento delicado que Chorão passava após perder o pai, que faleceu vítima de câncer. Ainda nesse ano, Thiago Castanho deixa a banda e o Charlie Brown Jr. decide, ao lado de outras bandas nacionais, não participar do Rock in Rio III, causando grande polêmica na época.
Entre 2001 e 2007 a banda lança cinco novos álbuns, dessa vez pela gravadora EMI. Nesse meio tempo, a banda liderada por Chorão gravou o famoso Acústico MTV (2003), que também contou a participação de Negra Li, além de Marcelo Nova e Marcelo D2. Durante a turnê acústica, em 2004, Chorão se envolveu em uma polêmica com o cantor Marcelo Camelo, chegando a agredir o líder da banda Los Hermanos. Mas nesse mesmo ano a banda lança um dos mais importantes trabalhos ao longo de todos esses anos de carreira: Tâmo Aí na Atividade, que ganhou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock Brasileiro.
Às vésperas do lançamento de Imunidade Musical e do DVD Skate Vibration, os três companheiros do Charlie Brown Jr. deixam a banda, porém Chorão logo encontra os substitutos para Champignon (com quem brigou), Marcão e Renato Pelado. Entram para a banda Heitor Gomes, o próprio Thiago Castanho e Pinguim.
Em Imunidade Musical, Chorão presenteia seus fãs com duas canções que se tornariam inesquecíveis: Lutar pelo Que é Meu, que também foi tema de Malhação, e Ela Vai Voltar (Todos os Defeitos de Uma Mulher Perfeita), outra homenagem a sua então esposa.
O nono trabalho de Chorão no Charlie Brown Jr. foi Ritmo, Ritual e Responsa (2007), com 23 faixas, sendo 22 delas inéditas. Novamente o grupo contou com parcerias, dessa vez com MV Bill, em Sem Medo da Escuridão, e João Gordo, em Vida de Magnata. No mesmo ano, o vocalista e compositor mostra ter talento também para o cinema, ao escrever o roteiro do excepcional filme O Magnata, protagonizado por Paulo Vilhena. Após o sucesso e as ótimas críticas, principalmente do público, Chorão inicia o roteiro de seu segundo filme, O Cobrador, que ainda não chegou a ser filmado.
Em 2009, Chorão lança o último trabalho de estúdio do Charlie Brown Jr., dessa vez através da gravadora Sony Music e com Bruno Graveto no lugar de Pinguim na bateria. Camisa 10 (Joga Bola até na Chuva) recebeu esse título por ser o décimo álbum da banda e tem, entre outras músicas, o single Me Encontra e O Dom, a Inteligência e a Voz, escrita em 2001 a pedido de Cássia Eller (Majestades Eternas). Foi o segundo trabalho da banda a ganhar um Grammy Latino.
Na sequência, é a vez de Heitor Gomes deixar a banda, assumindo o baixo do CPM 22, e deixando o instrumento por conta de Champignon, que fez as pazes com Chorão. Marcão também voltou para a banda. Com essa nova formação, o Charlie Brown Jr. grava o álbum ao vivo intitulado Música Popular Caiçara, lançado em CD, DVD e Blu Ray, e que foi o trabalho em comemoração aos vinte anos do grupo.
O ano de 2012 foi complicado para Chorão, que terminou seu relacionamento com Graziela, quem amava muito, e por isso apresentou sintomas de uma depressão profunda. Pouco tempo depois da separação, Chorão lamentou o ocorrido durante um show inteiro. Era visível o quanto ele não aceitava o fim do relacionamento, apesar de dizer que precisava chegar ao fim. Segundo a apresentadora Sônia Abrão, prima do cantor, Chorão reclamava da solidão e disse querer reencontrar com o pai.
Até que chegou o dia 06 de março de 2013, uma quarta-feira que poderia ser como qualquer outra...
Para ninguém estragar os nossos dias...
Uma quarta-feira que amanheceu com um céu azul, assim como o título de uma de suas músicas, mas que terminou nublado, escuro, em luto, vazio pela perda de um ídolo.
Após não conseguir falar com Chorão por dois dias, o motorista e o segurança do músico entraram em seu apartamento, em São Paulo, e o encontraram estirado ao chão, já sem vida. O apartamento estava bagunçado, com bebida e vestígios de sangue. Até o fim da noite, a verdadeira causa da morte ainda era um mistério, mas a notícia de que um grande cara faleceu chocou o Brasil. Não por simplesmente estar na mídia e ser um vocalista de sucesso, mas sim por ser um homem de responsa, que amou e foi amado, e que principalmente ensinou que devemos lutar pelo que é nosso para não viver em vão. Por isso hoje quem é Chorão faz barulho e bate palma por uma Majestade Eterna da nossa música. O cara do Charlie Brown invadiu o mundo dos imortais da música, e se transformou em uma lenda. Uma lenda que tivemos o prazer de acompanhar por tantos e tantos anos, com tantas e tantas músicas.

Você deixou saudade, meu mestre, meu ídolo!

“Quando eu for embora e um amigo te dizer que o Chorão morreu, você diz: “Chorão não morreu, só deu uma pausa na terra pra levar um pouco mais de alegria pro céu”” – Chorão durante uma entrevista.

“A vida é uma luta, a vida é uma batalha, que a gente tem que ganhar no dia-a-dia. É uma batalha que a gente tem que provar todo dia quem a gente é e pro que que a gente veio, e eu não desisto nunca, porque eu sou Charlie Brown, caralho!” – Chorão.


Alexandre Magno Abrão, o Chorão - 09/04/1970 - 06/03/2013