Para ele, o humorista é fundamentalmente indignado, e por isso o humor sai naturalmente de uma conversa em um momento comum, em uma conversa como qualquer outra. E com sua morte, o humor na literatura ficou mais calado, talvez mais singelo, o que obviamente não causou seu esquecimento. Muito pelo contrário.
O tempo passou, porém a saudade de Millôr Fernandes continua a mesma que atingiu seus fãs na quarta-feira em que sua morte, que ocorreu no dia anterior, foi anunciada. E a cada dia fica claro que a simplicidade de suas palavras e traços deixará saudade por muito tempo.
Nascido em 16 de agosto de 1923, Millôr foi registrado apenas no ano seguinte, o que causou certas dúvidas na sua própria família. Outra curiosidade é o fato de ter sido registrado como Milton, porém na certidão estava escrito Millôr, algo que descobriu apenas alguns anos depois, quando adotou o nome pelo qual se tornaria conhecido no país e no mundo.
Com apenas um ano de idade, a morte de seu pai, o imigrante espanhol Francisco Fernandes, mudou radicalmente sua família. Poucos anos mais tarde, em 1934, perdeu também a mãe, Maria Viola Fernandes, o que o deixa sozinho e com a descrença em Deus e na religião, apesar de mais tarde declarar que “o cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”.
Nessa mesma época, Millôr descobre a magia das histórias em quadrinho e não demora muito para conseguir seu primeiro emprego, como entregador de remédios. Mas o talento de Millôr já era evidente, o que o ajudou no início de sua carreira como jornalista na revista O Cruzeiro, em março de 1938, apesar de que na época era uma espécie de “faz-tudo” da publicação.
Além de desenhista, jornalista e escritor, Millôr Fernandes ficou conhecido também por suas traduções, e a primeira vez em que exerceu essa função foi pela revista O Guri, publicada quinzenalmente, onde traduziu histórias em quadrinhos do inglês, idioma que aprendeu sozinho, para o português.
Entre o final da década de 30 e início da década seguinte, o prestigiado escritor estudou no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, e trabalhava durante o dia para pagar os estudos no período da noite. É durante esse tempo que ele descobre o seu verdadeiro nome, adotando-o a partir de então.
Ainda sem o reconhecimento que teria anos mais tarde, Millôr ganha espaço na revista A Cigarra, também publicada pela editora O Cruzeiro, e a oportunidade de criar o personagem Vão Gogô, que permaneceu por quase duas décadas na revista e contribuiu para um aumento salarial, ajudando o escritor a ter uma tranquilidade financeira até então desconhecida por ele.
Após se formar pela Liceu de Artes e Ofícios, passa pelo momento mais glorioso da revista em que trabalhava e ainda ganha novas seções, parcerias e funções dentro da empresa, sendo inclusive correspondente nos Estados Unidos, onde encontra, entre outros, Walt Disney (1901-1966), ainda desconhecendo o fato do americano não saber desenhar, algo que descobriria apenas lendo sua biografia, anos mais tarde. Ao voltar para o Brasil, Millôr se casa com Wanda Rubino, com quem tem dois filhos: Ivan e Paula.
Aos poucos lança seus primeiros livros de prosa: Eva Sem Costeleta – Um Livro em Defesa do Homem, sob o pseudônimo de Adão Júnior, e Tempo e Contratempo (Skoob), livro em que assinou com o pseudônimo de Emmanuel Vão Gogô.
Por fim, demonstra seu talento também com a criação de roteiros cinematográficos, sendo o primeiro o roteiro Modelo 19, de 1952, lançado como O Amanhã será Melhor e conhecido também como Uma Ponte de Esperança, filme dirigido por Armando Couto.
Dois anos mais tarde compra uma cobertura na Avenida Vieira Couto, em Ipanema, e não demora muito para escrever as primeiras peças teatrais, como Uma Mulher em Três Atos e Do Tamanho de um Defunto, publicadas no livro Teatro de Millôr Fernandes no ano de 1957, mesmo ano em que participa pela primeira vez de uma exposição de desenhos no Museu de Arte Moderna.
Após passar por uma briga com a censura, a peça Um Elefante no Caos estreia sob a direção de João Bittencourt e lhe garante o prêmio de Melhor Autor da Comissão Municipal de Teatro. Segundo o próprio Millôr, foi “uma das poucas vezes que um diretor melhorou um trabalho meu”.
Em meados da década de 60, enfrenta uma série de polêmicas, que resulta em sua demissão. Porém, não muito tempo depois lança a revista Pif-Paf, que não tinha propostas ideológicas e apenas pregava a liberdade e o humor. Mas a imprensa brasileira passava por um momento conturbado, por isso a Pif-Paf é perseguida e publicada em apenas oito oportunidades, quando é finalmente extinta.
Com o fim da revista, Millôr assume um programa na TV Record, voltando para a televisão depois de uma rápida passagem por emissoras de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro. Continua a escrita de peças teatrais e em 1968 inicia uma duradoura parceria com a editora Abril, colaborando com a revista Veja.
Ainda que não tenha participado ativamente da fundação, Millôr Fernandes é considerado um dos principais nomes da revista O Pasquim, que surgiu em junho de 1969 e permaneceu semanalmente até 1991. O escritor assumiu a presidência da revista em 1972 e foi o responsável pela luta contra os militares e a solução de problemas administrativos causados após a prisão de inúmeros colaboradores da revista. Deixou o semanário apenas ao não ter o apoio da equipe para satirizar o então ministro da Justiça.
Já a sua saída da Veja aconteceu em 1982, quando se recusou a retirar o apoio ao político Leonel Brizola, candidato ao governo do Rio pelo Partido Democrático dos Trabalhadores (PDT).
Mas sua saída da Veja ajuda para o início da colaboração para a revista IstoÉ e no Jornal do Brasil. Posteriormente também produz trabalhos para outros jornais, como O Dia, O Estado de São Paulo, Correio Braziliense, e a Folha de São Paulo.
Em 2000 lança o site Millôr Online, online até os dias de hoje, onde expôs seus novos e antigos trabalhos.
Já aos 87 anos, em fevereiro de 2011, Millôr Fernandes é internado e após um mistério sobre o motivo de sua internação, é revelado que o escritor sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), o que o obrigou a ser mantido na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e algum tempo depois, após uma melhora, em um quarto intermediário. Após cinco meses internado, recebe alta, porém dois dias depois passa mal e é novamente internado por cinco meses.
O estado de saúde de Millôr Fernandes sempre foi mantido em segredo, e ele veio a falecer em seu apartamento em Ipanema na noite de 27 de abril de 2012, o que colocou fim a uma história marcada pelas ideologias pessoais, críticas sérias, mas também com um tom humorado, e as frases curtas, porém de um efeito catastrófico. Em mais de setenta anos de carreira, Millôr Fernandes, que na infância desejava ser atleta, se tornou um nome inesquecível, por isso hoje é um Imortal da Literatura. Um imortal também da dramaturgia, da prosa, das ilustrações e obviamente do humor.

“Quem é que eu sou? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não se fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e Ele me venceu com um sórdido milagre. A Segunda com o destino, e Ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui” – Millôr Fernandes em Autobiografia de Mim Mesmo, à Maneira de Mim Próprio.


Millôr Fernandes - 16/08/1923 - 27/03/2012