O Maníaco do Circo e o Menino que Tinha Medo de Palhaços, Leonardo Barros, 1ª edição, São Paulo-SP: All Print Editora, 2009, 293 páginas.
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Presságio: O Assassinato da Freira Nua (Resenha) foi o primeiro livro de Leonardo Barros a ter distribuição nacional, porém o autor, que também é formado em medicina, já se aventurou nas páginas de outros quatro livros de ficção, incluindo O Maníaco do Circo e o Menino que Tinha Medo de Palhaços, lançado de forma independente em 2009.
O primeiro romance policial de Leonardo aborda um tema que é mais comum do que muita gente imagina: a coulrofobia, ou simplesmente o medo de palhaços. Esse medo se manifesta em Renato quando ele ainda é uma criança, e após uma série de sonhos com os não tão simpáticos palhaços, o garoto cria um mundo fantasioso em sua mente, onde os palhaços são manifestações demoníacas.
O tempo passa, e com ele o medo e principalmente a personalidade psicopata de Renato o transforma em um homicida cruel, com o objetivo de livrar o mundo dos temidos demônios. Isso leva o leitor a um conhecimento amplo da personalidade do protagonista, desde a sua primeira necessidade de matar. Mas não é apenas isso. Ao mesmo tempo em que Renato revela sua verdadeira identidade, um assassino conhecido como Maníaco do Circo assusta toda a cidade e cria um grande mistério.

“- Somos o mesmo corpo, Renato, duas formas de dizer a mesma coisa. – Levantou-se, tocou o braço da outra fêmea. O branco tornou-se metal, a prata virou luz pálida. Abraçaram-se como duas irmãs. Seus rostos se encontraram com a fineza de um beijo quente e, num abraço apertado, fundiram-se num corpo só. Agora as duas almas formavam um corpo de carne, pele clara, olhos azuis. Das pontas dos dedos saíam fagulhas. A boca entreaberta iluminava o rosto dele” (pág. 55).

Antes de falar sobre o livro em si, é necessário dizer sobre a edição, que no início possui algumas páginas escuras e toda uma diagramação especial. Ao longo do livro, encontramos ainda uma série de desenhos, do próprio autor, que ilustra algumas das principais cenas, enquanto a arte da capa faz uma referência a um palhaço e a contracapa aos demônios criados pela mente de Renato. Uma ótima jogada.
Se comparado com o novo livro de Leonardo Barros, O Maníaco do Circo segue uma estrutura completamente diferente, já que talvez a investigação não seja o foco principal da narrativa. O que realmente importa nesse caso são os distúrbios do protagonista, bem como suas atitudes, por isso, mais do que um romance policial, O Maníaco do Circo é um romance com características dos thrillers psicológicos.
Desde os primeiros capítulos, que novamente são curtos, o autor dá a entender que essa obra terá esse lado psicológico. Isso se confirma quando os anos se passam e começamos a acompanhar o dia-a-dia de um personagem mais velho, agora trabalhando no ramo farmacêutico, mas que ainda possui seu medo por palhaços, confirmando a teoria de que a coulrofobia não atinge apenas as crianças e adolescentes.
Com o passar dos anos, Renato perdeu toda inocência de sua infância, mas ganhou uma personalidade doentia e totalmente instável. Isso causa uma mistura de pensamentos e atitudes onde ele sente a vontade de matar ao mesmo tempo em que sente pena; pode amar ao mesmo tempo em que odeia; querer o prazer do sexo ou o prazer da morte em uma única cena. Renato tem a incrível capacidade de ser amado e odiado, por isso é difícil classificá-lo como um protagonista ou antagonista. Mocinho não é. Ele é simplesmente Renato, o menino que tinha medo de palhaços; um personagem muito bem construído.
Ao citar o sexo, já dá para imaginar que isso é fundamental para a história, assim como é para Presságio: O Assassinato da Freira Nua. Segundo o autor, O Maníaco do Circo é um livro “intenso, de linguagem crua e violenta” e com “um erotismo cru, explícito”. O sexo é tão importante como o lado psicológico, e tão bem descrito quanto os assassinatos, e justamente por isso o livro não pode ser recomendado a qualquer leitor. É preciso lembrar que se trata de um livro independente, sem a censura que pode existir quando tem uma editora por trás de uma obra. Sendo assim, o leitor encontra tudo o que ele jamais imaginaria, e isso pode surpreender. E não se engane: no início, as cenas de sexo podem atrapalhar o desenrolar da história, mas aos poucos tudo ganha um sentido e percebemos que seria impossível tais cenas serem descartadas.
O lado policial de O Maníaco do Circo entra em dois momentos da narrativa: quando o assassino começa assustar a cidade, como já citado, e após Renato ser apreendido acusado de vender drogas, mas ser solto por falta de provas. Nisso entra em ação o policial Valdo, que passa a investigar todos os passos do farmacêutico e não poupa esforços para colocá-lo atrás das grades. O problema, para ele, é que Renato é muito esperto e sempre consegue esconder seus crimes. Já para o livro, é que a investigação tem inúmeras falhas, que podem ou não serem propositais – independente do que seja, isso acaba sendo prejudicial.
Mas quem é o Maníaco do Circo? Em que momento a vida de Renato entra nesse caso? Ele será preso, ou conseguirá livrar o mundo desses demônios? As respostas para essas e outras perguntas são respondidas aos poucos, enquanto outras histórias se unem a essas, e a partir de um determinado momento, deixar a leitura é praticamente impossível. Isso deve acontecer principalmente para quem conhece Natal, cidade em que tudo acontece e que é tão mostrada.
Com muito sexo, cenas fortes, e as drogas sendo fundamentais, Leonardo escreve um livro instigante e diferente, inclusive com misticismo e um lado psicológico impecável. Um livro que tem a chance de mudar, para pior, a visão que o leitor tem dos palhaços. O fato de não existir mocinho pode não agradar, porém nesse caso os vilões fazem a diferença e o final surpreende mais do que o livro atual – não que seja melhor, que fique claro. Ainda assim, uma investigação bem elaborada pode contribuir ao classificar uma obra como perfeita ou ótima. Perfeito mesmo foi o autor dedicar o livro aos Doutores da Alegria, palhaços do bem. Esses sim simpáticos.

“O cadáver fora arremessado sobre o solo úmido. Natália nua, lisa e molhada era alvíssima. As ondas levavam, a cada movimento de águas, o corpo suspenso. Correu ao porta-luvas da Pajero e buscou o vidro de perfume que arremessou nas ondas do mar. Ajoelhou-se, penetrou com os dedos longos a areia fria. Pediu a bênção do pai Ogum, a proteção da mão Oxum. Pediu, então, à mãe das águas, à sua Fada Alva, que levasse o corpo para longe, que o afastasse das horas do mal. Do fogo da boca de Xangô” (pág. 110).

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