Uma Questão de Confiança, Louise Millar, tradução de Shirley Gomes, 1ª edição, Ribeirão Preto-SP: Novo Conceito, 2013, 384 páginas.
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Antes de escrever Uma Questão de Confiança, seu primeiro romance, Louise Millar trabalhou com o jornalismo como editora-assistente freelancer e escrevendo artigos para revistas femininas e jornais. Também foi editora sênior da revista Marie Claire, uma das mais importantes revistas femininas do mundo.
Uma Questão de Confiança se passa no subúrbio de Londres e conta a história de três mulheres totalmente diferentes e com problemas como em qualquer família. A protagonista dessa obra é Callie, mãe de Rae, que se mudou para esse bairro e, diferente do que imaginava, encontrou dificuldade para se adaptar e ter um bom relacionamento com as demais mães. A única pessoa a recebê-la bem, e como consequência se tornar sua amiga, é Suzy, mas a amizade que outrora era perfeita, começa a ganhar uma tensão incomum.
Ao mesmo tempo em que a amizade de Callie e Suzy passa por problemas, Debs se muda para o bairro e leva com ela um passado suspeito e que causa certo transtorno na vida das três mulheres. A vida das três muda da água para o vinho com um fato que aparentemente não foi apenas um acidente e isso passa a assustar as antigas moradoras. Mas o que é verdade e mentira? Em quem podemos confiar no nosso cotidiano? Ou melhor, nos dias de hoje é possível confiar em alguém?

“Nossa amizade não é uma escolha, mas uma carência. A estrangeira americana em Londres e a mãe solitária: empatadas. Está errado apoiar-se tanto nela sem ser sincera sobre quem sou de fato, deixando que a verdade fique escondida em algum canto escuro, como um espírito maligno, à espera. Entretanto, sigo em frente porque preciso dela. Não consigo sobreviver sem ela. Ainda não” (pág. 79).

Com a intenção de mostrar o que a mentira e a desconfiança podem causar em uma família, Uma Questão de Confiança é um suspense que explora a mente humana, transformando uma história simples em um livro intenso, e que no início prende o leitor por aquilo que pode acontecer. Para isso, Millar nos apresenta a três personagens bem construídas: Cal, que precisar lidar com a doença cardíaca da filha e o seu novo emprego; Suzy, que sente dificuldade em cuidar dos filhos e acaba tendo problemas com o marido; e Debs, que se mudou para tentar afastar determinados problemas do passado.
Seguindo a mesma estrutura de Viva para Contar (Resenha), onde cada capítulo era sob o ponto de vista de uma das personagens, intercalando entre narrativas em primeira e terceira pessoa, Uma Questão de Confiança pode ser comparado com outro livro da editora Novo Conceito: Cuco (Resenha). Isso acontece porque a história segue basicamente o mesmo estilo, sendo que a confiança e os segredos são os pontos mais abordados por Louise Millar. A principal diferença acaba sendo os poucos momentos de tensão no decorrer da obra – e porque não dizer que também a diagramação, que nesse caso ganha pequenos detalhes agradáveis e que fazem a diferença.
Ao mesmo tempo em que é bem escrito e dividido, quando se trata da forma como a história segue, a autora peca ao mudar de forma repentina as cenas, às vezes em um momento desnecessário, e sem qualquer tipo de separação. Nessas mudanças, Millar narra situações do passado das três personagens principais, e aos poucos vamos conhecendo o que motivou a mudança de Debs ao subúrbio, o porquê de Callie ter ficado anos afastada do emprego, ou simplesmente os problemas familiares que têm perseguido Suzy.
Como qualquer suspense psicológico, o início é totalmente monótono, o que é aceitável se pensarmos que é necessária a construção de todo o enredo, porém a autora joga as peças do quebra-cabeça sobre a mesa e o leitor, com um pouco de reflexão, consegue juntar grande parte dessas peças, que se confundem com a quantidade de segredos que envolvem todas as personagens. Sendo assim, nem tudo é surpreendente, com exceção do final que surpreende não fugindo do esperado, e o leitor se prende na história simplesmente para imaginar o que pode acontecer com a confiança em excesso.
Em alguns momentos, a indiferença de certas personagens ao serem confrontadas com aquilo que pode estar de fato acontecendo incomoda, mas ao refletir sobre o assunto, percebemos que em nossa vida a amizade é tão fundamental que não passa por nossa cabeça que algo pode abalar ou até mesmo nos destruir. Mas em uma sociedade tão egocentrista, devemos estar atentos a todos que estão ao nosso redor, afinal, os próprios interesses podem falar mais alto e no fim acaba sendo “um por um e Deus por nós”, porque confiar pode ser um jogo perigoso, desconfiar da pessoa errada ainda mais.

“A saudade do Colorado vinha agora em contrações regulares e longas. Londres deveria ter sido um novo começo. Um lugar para ser uma pessoa normal, finalmente, com uma família normal e amigos normais, longe dos mentirosos, traidores, aproveitadores e dos demônios de casa. No entanto, parece que aqui também existem mentirosos e traidores” (pág. 331).

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