Capitães da Areia, Jorge Amado, 1ª edição, São Paulo-SP: Companhia das Letras, 2008, 286 páginas.
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Considerado como um dos mais importantes escritores brasileiros, Jorge Amado foi membro da Academia Brasileira de Letras e deixou uma rica obra que já foi traduzida em 55 países e adaptada para a televisão, o rádio, o teatro e o cinema. Sua obra pode ser divida em duas fases e Capitães da Areia, publicado originalmente em 1937, é talvez a obra mais importante da primeira fase da carreira do escritor baiano.
Muito criticado pelo governo da época, esse livro conta a história de um grupo de crianças e adolescentes, conhecidos como Capitães da Areia, que vivem a mercê da miséria e que precisam, de alguma forma, encontrar uma maneira de sobreviver às dificuldades e principalmente à opressão da população e dos homens no poder. Para isso, essas crianças precisam praticar crimes em busca do bem-estar, se é que isso é possível, do prazer ou simplesmente da liberdade, algo necessário até os dias de hoje, o que explica o fato da obra continuar viva e tão atual.

“Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à cheia, e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar dos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche” (pág. 29).

Como citado, Capitães da Areia foi criticado pelo governo de Getúlio Vargas, que liderou o Brasil na chamada Era Vargas (1930-1945). Isso resultou na apreensão e também na queima em praça pública de inúmeros exemplares do livro, que tem como principal objetivo mostrar a desigualdade social, a opressão do governo e também do clero, e principalmente o fato de que a própria sociedade acaba transformando as crianças, até então inocentes, em “marginais e criminosos”.
O livro em si pode ser classificado como uma crítica social, porém não deixa de ser um romance encantador, já que todos os membros desse grupo de crianças e adolescentes conquistam o leitor de forma única. Seja pela liderança e forma de agir de Pedro Bala, da coragem de Volta Seca, da sensualidade demonstrada por Gato, a fé de Pirulito, ou simplesmente pelas artimanhas de Sem-Pernas e da bondade de Dora. Todos são encantadores à sua maneira, por suas personalidades, e por ainda possuir coragem e disposição para enfrentar as dificuldades impostas, não se importando com o que é necessário fazer para sobreviver.
Aparentemente Jorge Amado é o tipo de escritor “8 ou 80” quando se trata da opinião dos leitores, já que ao mesmo tempo em que alguns criticam sua narrativa e escrita, outros tantos elogiam impulsivamente, e em Capitães da Areia essa divisão pode ser muito natural. Com parágrafos longos, e frases curtas e objetivas, o autor escreve de uma forma pouco convencional, utilizando-se de uma linguagem diferenciada, mas que coloca o leitor dentro da história, como se esse estivesse literalmente no trapiche usado como moradia pelos Capitães. Em determinados momentos, sobretudo quando a ação é inexistente, isso acaba prejudicando a leitura e tornando-a temporariamente cansativa. Nada que os personagens não resolvam com suas atitudes, desejos ou simplesmente palavras.
Além de ter um teor histórico muito forte, citando a figura de Lampião, o mais importante cangaceiro de nosso país, Capitães da Areia ainda possui reportagens que mostram a forma com que as crianças abandonadas eram vistas pela imprensa e pela própria sociedade. Outro ponto fundamental é em relação à crítica do autor sobre as possíveis ações para melhorar a vida dessas crianças, e ele mostra que até mesmo os reformatórios – que como o nome diz tem o objetivo de “reformar as pessoas” – seriam incapazes de tal feito, já que o cuidado, o carinho e o amor essencial para a construção de um ser humano era totalmente inexistente nesse tipo de lugar. Os tais reformatórios eram tão incapazes, e temidos pelos próprios Capitães, que em determinado momento um personagem diz preferir viver na rua. Mas será que essa era realmente a melhor forma de sobreviver?
Com Capitães da Areia, um clássico da nossa literatura, Jorge Amado nos mostra elementos que estariam presentes em suas futuras obras, como a sensualidade, porém o livro vai muito além e tem grandes chances de encantar novos leitores desse Imortal da Literatura, assim como já faz com leitores do Brasil e do mundo. Com os Capitães da Areia, o leitor pode aprender, refletir, torcer e até mesmo se emocionar com a miséria existente na época retratada, que curiosamente em nenhum momento é citada, e também por saber que essa miséria continua existindo na sociedade brasileira. Se o destino dos personagens não fosse tão previsível, e a narrativa algumas vezes cansativa, esse com certeza iria se destacar em relação a outros livros.

“Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho encheu seu peito. Não falaria, fugiria do reformatório, libertaria Dora. E se vingaria... Se vingaria...” (pág. 201).

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