Raul – O Início, o Fim e o Meio


Resenha: Considerar Raul Seixas (Majestades Eternas 21#) como um artista completo é tão comum quanto se pegar cantando uma de suas canções. Mas para chegar a esse nível, o cantor baiano precisou passar por inúmeras barreiras, construindo uma história marcante e praticamente inigualável – assim como seu talento. Mostrar essas barreiras, bem como o que de fato foi Raul Seixas, é o principal objetivo do documentário Raul – O Início, o Fim e o Meio, dirigido por Walter Carvalho.
Mesmo sem antes se aprofundar no assunto, todos nós sabemos que Raul Seixas, além de um excepcional músico, foi um homem de personalidade diferenciada, talvez conturbada. Um homem que amou todas as suas mulheres e enfrentou vícios que prejudicaram sua vida, como aconteceria com qualquer pessoa. Um homem de parcerias, de influências, mas que acima de tudo criou um estilo único, que o próprio classificou como raulseixismo. Mais do que glorificá-lo, o filme procura mostrar, com riqueza de detalhes, o verdadeiro Raul Seixas.
O filme possui uma série de entrevistas com pessoas importantes para a vida pessoal de Raul, como as esposas e os filhos, e também para a vida profissional, como o escritor Paulo CoelhoManuscrito Encontrado em Accra (Resenha) - e outros companheiros, seja do início ou do fim de sua carreira. Especialistas em música, como Nelson Motta, jornalistas, representados por Pedro Bial, e até mesmo outros cantores, como é o caso de Caetano Veloso, também marcam presença. Em sua maioria, as entrevistas são completas, com informação e curiosidades, mas também existem aquelas que poderiam facilmente ser descartadas, por não possuírem tanta importância como se espera em um documentário.
Caso isso tivesse sido tirado, algo que fez muita falta poderia ser incluído: vídeos completos de apresentações, clipes e até mesmo entrevistas com o cantor. Isso obviamente existe, às vezes encontramos verdadeiras raridades, mas não tão completo como poderia, não tão empolgante como esperávamos. São pequenos trechos que acabam deixando de lado algo que seria essencial, por se tratar de um documentário sobre um músico: as análises das músicas, ou a história por trás de cada uma delas.
Se o lado musical é deixado de lado, o pessoal é completo. Conhecemos como Raul entrou no mundo da música e misturou uma série de gêneros, e também como a bebida e as drogas entraram em sua vida. Surpreendentemente, em um depoimento verdadeiro e por vezes emocionante, Paulo Coelho revela ter sido o responsável por apresentar todas as drogas possíveis ao músico, mas diz não se sentir culpado por o que viria acontecer, já que Raul era adulto e responsável por tudo o que fazia.
A emoção continua com os depoimentos de todas as mulheres de Raul Seixas, inclusive uma pequena declaração de sua primeira esposa, que disse não se sentir bem ao falar sobre o assunto, por isso não daria uma entrevista sobre ele. Essas mulheres mostram que apesar do lema “sexo, drogas e rock ‘n roll”, Raul Seixas era um ótimo marido e um ótimo pai, por isso entram em cena os filhos, que sentem saudade do Maluco Beleza. Outro momento emocionante é a volta de Dalva, empregada de Raul, à casa em que ela o encontrou morto em 21 de agosto de 1989.
Como citado, Raul – O Início, o Fim e o Meio possui uma série de imagens raras sobre a vida do músico, e também imagens de sua despedida, que reuniu uma infinidade de pessoas. São entrevistas, trechos de músicas, ou simplesmente fotos que aumentam a saudade de uma grande pessoa de nossa música. As falhas podem existir, mas não deixa de ser um documentário recomendado, já que foi tão bem dirigido por Walter Carvalho, que selecionou muito bem o que deveria ter para mostrar o verdadeiro Raul Seixas, e não mostrar um personagem. Para encerrar, vale relatar as palavras de Marcelo Nova – que foi o responsável por levar Raul Seixas novamente aos palcos, após anos afastado - sobre a sua morte: “Morreu de pé, morreu aplaudido. Não como algumas pessoas queriam, esquecido, abandonado, embriagado. Ele morreu de pé, e o mais importante: sendo aplaudido por uma multidão de fãs”.