“Quando o português chegou, debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio. Que pena!
Fosse uma manhã de sol, o índio tinha despido o português”. - Oswald de Andrade

E me deparo com o “dia do Índio”, uma das poucas datas do mês que teria algo à que se falar com um paralelo com a música e algo que aguçasse meu senso crítico - material indispensável aos jornalistas além de suas rebeldias e vícios.
Pensando em como me expressar adequadamente, eis que me lembro que Cazuza ainda não foi citado - o curioso é que nem em meu blog (olivrodosdias-interpretacao.blogspot.com.br) - fica a propaganda na taba de uma postagem - justamente por não gostar tanto dele quanto de outros. Não que Cazuza não tenha sido um mestre. O foi e com muita inteligência! Porém há outros tão bons quanto e outros melhores - sou suspeito ao falar de Renato Russo.
Claro que todos já ouviram alguma música de Cazuza. Brasil, sim, o mesmo nome de nossa pátria verde-amarela, foi um hino para a hipocrisia do país e de grande criticidade à mídia e ao sistema social.
Capitalismo é mais do que comprar, é se vender. Se prender aos cartões de crédito, se alienar pela mídia e sobre todos os outros pontos, o capitalismo é a falta de amor ao próximo. Seja ele um homem branco, ou não...
Se torna clichê mencionar, mas o homem não nasce mal. Se torna mal.
As circunstâncias o corrompe, e o mesmo foi com os nosso nativos. Os donos de nosso solo - nossos reais donos do solo - foram aos poucos esquecidos. Seja pela Igreja Romana, que com seus modos avassaladores e disfarçados de “utopia”, acabavam e massacravam com a outra cultura politeísta e natural. Me lembra o paganismo, o avanço da época se tornava ultrapassado. O mesmo aos índios. Estão presentes até hoje, e merecem seu devido mérito. O dia da população indígena é a memória de que ainda em nossas veias, corre o sangue azul dos europeus, o sangue avermelhado dos negros africanos e o sangue dos índios, os reais donos do Pau-Brasil.

O Dia do Índio, foi criado em 19 de abril por Getúlio Vargas através do decreto-lei 5.540, de 43, que relembra o fato das lideranças diversas indígenas do continente resolveram participar do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México em 1940. Eles haviam boicotado os dias iniciais do evento, temendo que suas reivindicações não fossem ouvidas pelos “homens brancos". Durante o mesmo congresso, foi criado o Instituto Indigenista Interamericano, que é sediado no México, e tem como função zelar pelos direitos dos indígenas na América. O dia do Índio tem como função relatar os direitos indígenas e faz com que o povo brasileiro saiba e acredite na importância que eles têm na nossa cultura e história. Somos de um solo marcado por sangue indígena, e o mesmo sangue, corre em nossas veias. 

“Cerca de cem índios invadiram na tarde desta terça-feira (16) o plenário da Câmara dos Deputados, o que provocou a suspensão da sessão que discutia a votação de uma medida provisória.
Eles ficaram no local por volta de 50 minutos e só saíram após o presidente da Casa, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), convidar lideranças para uma reunião sobre a proposta que trata de demarcações de reservas indígenas.
A ação dos índios surpreendeu os deputados. Alguns permaneceram no plenário, mas outros saíram do local correndo, incluindo a ex-senadora Marina Silva, que estava na Câmara no momento da invasão discutindo um projeto de seu interesse.
No momento da invasão, os índios começaram a dançar e gritar palavras de ordem. Alguns estavam com tacapes nas mãos. A Polícia Legislativa tentou conter o grupo, mas não conseguiu.
Mais cedo, centenas de indígenas de 73 etnias diferente ocupavam o plenário de CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania). Eles participaram da reunião da Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Indígenas.
Com chocalhos, tambores e lanças, os índios disseram que só deixarão o Congresso quando Alves assumir o compromisso de cancelar a PEC 215, que transfere a competência das demarcações que hoje é feita pela Funai (Fundação Nacional do Índio), para o Congresso Nacional.
“Se o presidente não vier, nós vamos dormir aqui", afirmaram as lideranças antes de Alves convidá-los para a reunião. O presidente da Frente Parlamentar Indígena, Padro Ton (PT-RO), tentava acalmar os ânimos. Lideranças indígenas da região do Xingu, Tapajós, Teles Pires e da Raposa Serra do Sol estão entre as centenas de manifestantes.
Os índios começaram a chegar na Câmara pela manhã. Eles tentam derrubar a criação da Comissão Especial instalada para discutir a PEC. Os índios temem que, caso a decisão sobre demarcações seja do Congresso, a bancada ruralista possa influenciar” - Folha de São Paulo, 16 de abril de 2013.



A música não retrata exatamente o índio, mas é interessante vermos o que Cazuza critica sua nação. As observações virão com o decorrer da música. O real índio que Cazuza cita, é o índio da subordinação... O índio que é mandado, e que não o convida para uma “festa pobre” - do ser, não do ter - que os “homens” armaram pra lhe convencer a pagar sem ver, toda a droga que já vem sendo feito antes dele nascer. Como um índio, alheio à tudo e a todos, Cazuza não foi convidado para pertencer à corja dos homens brancos, que lhe armaram para o convencer à ter acesso e consumir todas as futilidades que fabricam e que o prendem ao mundo materialista. O capitalismo é mudo.
Não ofereceram nem um cigarro para o personagem, que estava na porta estacionando os carros - diferença social (fazer um gesto de submissão ao outro que tem, o que ele não tem). Não o elegeram chefe de nada - mostrando que aqui, muita coisa já está armada... Não o elegeram porque não tinha potencial ou porque não lhes interessava? E completa dizendo que seu cartão de crédito é uma navalha, uma arma, que a qualquer momento, poderá o ferir. O capitalismo é cego.
Não sortearam o personagem para ser ”a garota do fantástico” - que reúne todas as qualidades que as mulheres começam à parir quando se invejam e se espelham. As compras estupidamente grandes, as depressões tomando conta... Nem subornaram o personagem. Acostumado com essa realidade corrompida, quando não é subordinado, crê ser seu fim. O capitalismo é surdo.
Cazuza tem como refrão os versos de: ”Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confie em mim”, se referindo ao Brasil ser exatamente uma máquina de lucros, tratando-o como uma empresa, de lucros e perdas, de sócios e concorrentes, de laços e confianças. O capitalismo é deficiente.

Os versos mais interessantes de Cazuza são: “Ver TV a cores na taba de um índio programada pra só dizer 'sim sim'”, se referindo ao índio da TV... Se referindo à TV Tupi, a televisão à cores, que se programa pra só dizer sim, ao afirmativo do governo e não, ao negativo da população. A mídia se vende para vender pra sociedade. A sociedade se vende para comprar da mídia. A mídia se vende para o governo. O governo compra à tudo e a todos. O capitalismo é avançado.
“Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair” - Por alguma grande ironia, Cazuza fecha seus versos... A traição se refere à sair de seus bons modos ou talvez ao deixar de ser brasileiro. Impossível deixar, uma vez que o sangue das tribos corre em nossas veias.
Por mais anti-patriota que qualquer pessoa possa ser, uma coisa não se nega - aos que odeiam o capitalismo, o capitalismo está em tudo; aos que odeiam à religião, a religião está em tudo; aos que odeiam a política, a política está em tudo; aos que odeiam ao Brasil... Ele está em nosso solo, na nossa matéria prima e nas nossas veias - por mais atraso que isso seja para nós, ainda somos índios esperando ser descobertos por uma caravana social que nos livre dos nojos de escândalos. Ainda somos índios perdidos na selva do desconhecimento.

Ainda somos índios nos encantando com espelhos que foram substituídos por bolas nos campos...
Ainda somos índios, quando nos deparamos com o estranho e tendemos à crer...
Ainda somos índios, quando a Igreja manda em nossas atitudes...
Ainda somos índios, quando não sabemos o que é mundo atrás das fronteiras.
Mas graças ao Tupã ou qualquer outra divindade, não somos índios quando matamos o outro para podermos nos alimentar, nos crescer, nos envolver... Graças à forças maiores, não somos índios quando precisamos do fracasso de alguém, da mesma tribo, para podermos pegar a caça, os alimentos e a morada. 

Eduardo Rezende - Tenho 17 invernos de vida, sou jornalista, idealizador de um "Grupo de Debates", membro da "Casa do Escritor Pinhalense Edgard Cavalheiro", gosto muito da música popular brasileira, do nosso rock nacional, e de livros e café que aconcheguem e combinem. Fiz trabalho voluntário em Sala de Leitura e Estudo/Biblioteca, apaixonado por estudo de religiões, sociedade e simbolismos.