Dizem que nunca é tarde para tentar, assim como podemos dizer que nunca é tarde para revelar nosso talento ao mundo, afinal, quando esse talento existe, não é para ficar guardado em um pequeno cofre chamado coração, às vezes fechado a sete chaves. Felizmente o mundo cria oportunidades para que isso seja revelado e graças a essas oportunidades, hoje o Brasil tem orgulho de ter como filha Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, uma mulher simples, mas que marcou seu nome eternamente na poesia brasileira.
Nascida em 20 de agosto de 1889 em Goiás Velho, noroeste do estado de Goiás, Ana Lins era filha de um desembargador nomeado por D. Pedro II e fez apenas os estudos primários, o que não foi empecilho para impedi-la de colocar no papel aquilo que atingia o seu simples e acolhedor coração. Foi com esse desejo de expor seus sentimentos, que uma jovem garota de apenas quatorze anos escreveu seus primeiros textos e os publicou em jornais locais.
Alguns anos depois, em 1910, publicaria o conto Tragédia na Roça, primeira história a mostrar ao mundo o talento de Cora Coralina, pseudônimo escolhido para esconder o talento de Ana Lins, já que uma mulher no meio artístico não era bem visto pela então sociedade. Mas apesar da publicação um tanto precoce para a época, seriam necessárias várias décadas até que ela realizasse o grande sonho de publicar um livro.
Na mesma época, Cora Coralina conheceu o chefe de polícia divorciado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas e juntos fugiram para São Paulo, sendo que a poetisa já estava grávida de sua primeira filha. No sudeste brasileiro, vivendo no interior e na capital paulista, cuidou de sua filha e de outros filhos de Cantídio, mas também se dedicou a escrita, publicando artigos em jornais. Como costureira, costurou aventais e uniformes para soldados e enfermeiras durante a Revolução Constitucionalista de 1932.
Ficou viúva ainda no início da década de 30, e com a responsabilidade de cuidar de seus filhos, passou a vender livros de porta em porta, porém não demorou a se mudar para a cidade interiorana de Penápolis, onde vendeu linguiça caseira e banha de porco. Mas nunca deixou de escrever e passou por um momento de transformação interior ao completar cinquenta anos, algo que também foi sentido em seus versos, sempre tão simples e ao mesmo tempo ricos em sensibilidade.
Os anos se passaram e como qualquer avó, Cora Coralina ajudou a cuidar de seus netos. Só em 1956, mais de quatro décadas após sair de sua cidade natal, a poetisa voltou para Goiás Velho, cidade que até a década de 30 era a capital do estado, mas que nessa época era conhecida principalmente por sua arquitetura barroca e pela presença de inúmeros casarões coloniais. E essa cidade, que atualmente possui pouco mais de 20 mil habitantes e é Patrimônio Histórico e Cultural pela UNESCO, se transformou em cenário para toda a obra da simpática goiana, que valorizava a sua história e mostrava sua ligação com a cidade cortada pelo rio Vermelho.
Apesar da idade, Cora era uma mulher dedicada a novas experiências, e ao mesmo tempo em que era doceira e escritora, aprendeu a datilografar, isso aos setenta anos. Porém, mais alguns anos seriam necessários até que ela publicasse seu primeiro livro, aos 75 anos.
Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais (Skoob), publicado pela editora José Olympio em 1965, reúne fatos e lendas sobre as terras de Goiás, mostrando a visão de uma mulher simples que encantou Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Em uma edição do Jornal do Brasil de dezembro de 1980, Drummond disse que Cora era a pessoa mais importante de Goiás, além de descrevê-la como uma “mulher extraordinária, diamante goiano cintilando na solidão”. Nesse mesma apresentação sobre a poetisa, Drummond comentou sobre a pureza do livro de estreia de Cora, dizendo ser um livro comovedor.
Com sua vida dedicada à poesia, Cora possuía uma imensidade de poemas a serem incluídos em futuros trabalhos, mas seu segundo livro, Meu Livro de Cordel (Skoob), foi lançado apenas em 1976. Por fim, ainda em vida, Cora Coralina lançou em 1983 o livro Vintém de Cobre (Skoob) e ainda teve a oportunidade de ser agraciada com o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás, e eleita intelectual do ano de 1983, recebendo o prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores.
A vida de Cora Coralina chegou ao fim em 10 de abril de 1985, aos 96 anos, e a casa onde residia se transformou em um museu onde estão expostos alguns de seus objetos pessoais. Após sua morte, outros cinco livros foram publicados, sendo dois livros de contos e dois infanto-juvenis, que apenas consagraram esse nome: Cora (coração) Coralina (vermelho).
No entanto, Cora Coralina permanece viva com sua simplicidade e calmaria de uma senhora que venceu na vida e faleceu sem nem ao menos imaginar sua importância para a literatura brasileira. Talvez não seja uma poetisa popular, que será estudada profundamente nas escolas, mas é uma Imortal da Literatura, que com um imenso talento, mostrou o amor que sentia por sua terra e tudo ao seu redor, inclusive as receitas que certamente faziam com que todos se sentissem bem com o carinho dos braços acolhedores de uma mulher que falou com o coração. Uma única mulher que representava a todas, mas principalmente Cora, Ana Lins ou simplesmente Aninha.

“Sou mais doceira e cozinheira
Do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
saúde humana.” – Cora Coralina em “Cora Coralina, quem é você?”. - (Meu Livro de Cordel, p.73 -76, 8°ed, 1998)


Cora Coralina - 20/08/1889 - 10/04/1985