Bilim é Bilim *
O interiorano parece ter o dom de criar novas palavras e novas formas de ver certos objetos. O pinhalense, mais do que qualquer um, é acostumado a criar esses nomes muitas vezes bizarros. Medonhos. Que só nós entendemos.
Desde a mais tenra infância, certa palavra de apenas cinco letras me chamou a atenção. Entre uma quermesse e outra, a palavra era usada diversas vezes pelos mais velhos. Ao ir para o bar comprar um doce, a palavra continuava sendo usada e eu nada entendia. Alguns diziam colecionar e outros que se divertiam usando o pequeno objeto de nome estranho.
Com o passar do tempo, a palavra tão frequente no dia-a-dia pinhalense ganhou uma imagem, um significado. Descobri que aquilo que o Brasil inteiro chama de tampinha de garrafa de vidro, nós chamamos de bilim. Não me pergunte o motivo, porque isso nem o inventor da maldita palavra deve ser capaz de responder.
O fato é: posso falar essa palavra para qualquer pessoa do mundo que a expressão de espanto será a mesma. Porém, no início, não imaginava que essa era uma palavra exclusivamente nossa. A comprovação veio durante uma conversa com uma amiga do norte brasileiro:
- Preciso juntar muitos bilins para trocar por um prêmio – disse a ela pela internet.
- Juntar muitos bilins? – a pergunta foi imediata.
- Sim, bilins. É uma promoção de uma marca de refrigerante. Dez bilins e mais três reais e posso trocar por um prêmio.
- Bilim? – repetiu.
- Sim, bilim.
- Ricardo, te perguntando o que é bilim.
- Bilim é... Bom, bilim é bilim.
- Eu não sei o que é isso, dá para explicar ou é difícil?
- Cara, você precisa saber o que é bilim. Como assim? Você nunca juntou bilim? Eu tinha dezenas...
- Nunca juntei. Você poderia explicar o significado ou é difícil? - repetiu.
- O significado de bilim é bilim.
- Não tem essa. Precisa ter um significado.
- Ah, procura no Google.
- Ricardo, - ela respondeu minutos depois – não existe nada relacionado a isso e que seja colecionável. A não ser que você colecione produtos farmacêuticos ou imagens de cientistas.
- Claro que não. Estou falando de bilim.
- Descreva esse tal bilim – ela pediu, já aparentando estar irritada.
- Bom, é um objeto redondo, metálico e que precisamos de um abridor para tirá-lo da garrafa.
- Bilim é a tampa de uma garrafa? Você criou essa complicação toda por causa de uma tampinha?
- Não, não é uma tampinha. Bilim é bilim.
- Ricardo, eu desisto de você.
Ela não sabe, mas na verdade eu desisti dela.
Do outro lado da tela eu só podia dar risada por perceber que ela estava certa e que essa palavra não seria entendida por mais ninguém. A partir daquele dia, evitei falar disso com qualquer pessoa de fora. Falar sobre esse pequeno objeto metálico era o mesmo que falar com um estrangeiro. Era dor de cabeça sem um motivo claro e a última coisa que quero é explicar novamente que pra nós, bilim não é tampinha de garrafa. Bilim é bilim.

* Crônica publicada na Antologia Literária Pinhalense vol. 5 (2012), organizada pela Casa do Escritor Pinhalense “Edgard Cavalheiro” e Departamento de Cultura e Turismo de Espírito Santo do Pinhal-SP.

Ricardo Biazotto - Palmeirense, co-fundador e atual responsável pelo blog Over Shock. Baixista, professor de informática, locutor de rádio e escritor, além de membro da Casa do Escritor Pinhalense “Edgard Cavalheiro”. Adorador de romances policiais, thrillers em geral, histórias fantásticas e terror e autor do romance Os Irmãos Fracalossi (ainda não publicado). Também é co-autor dos livros Dias Contados – Volume II e Moedas para o Barqueiro – Volume III (Andross Editora), Equinócios de Amor (Alcantis Editora) e Antologia Literária Pinhalense – Volume IV.